Os desafios de ser quadrilheiro e preservar a cultura junina em Natal
As quadrilhas juninas sĂŁo danças e expressĂ”es populares mais fortes da cultura junina do Nordeste. Na verdade, essa expressĂŁo cultural transforma, embeleza, fortalece e enriquece uma tradição que luta para se manter de pĂ© atravĂ©s de vestidos, laços de fita, bandeirinhas e muito forrĂł. Em Natal, capital do Rio Grande do Norte, as tradicionais quadrilhas juninas enfeitam as noites de SĂŁo JoĂŁo da cidade, sobretudo nas periferias, e resgatam jovens atravĂ©s da cultura, da dança e da mĂșsica.
A AgĂȘncia Saiba Mais conversou com uma noiva de quadrilha junina para conhecer os desafios de ser uma quadrilheira potiguar. Bruna Taysa, moradora da Zona Norte de Natal, e recreadora infantil, engatou pelo 3° ano consecutivo como uma das principais figuras de um grupo junino: a noiva. Em outras palavras, a noiva Ă© uma das peças mais importantes em uma quadrilha junina, sendo um dos principais destaques em toda e qualquer categoria da expressĂŁo.
Existem duas categorias de juninas: as tradicionais e as estilizadas. As quadrilhas estilizadas apresentam coreografias mais elaboradas, trajes e figurinos mais rebuscados e um estilo de dança mais sincronizado. JĂĄ nas tradicionais, os passos, figurinos e ornamentaçÔes sĂŁo mais simples, sem deixar de ser elaborados, trazendo um aspecto mais âmatutoâ desse estilo. Ambas as categorias envolvem meses de ensaio e preparação e dezenas de pessoas envolvidas, desde cantores, costureiros, instrumentistas, atores, bailarinos e artesĂŁos.

Bruna Taysa se apaixonou pela quadrilha ainda quando criança, ao se apresentar na festinha da escola antes mesmo de iniciar o primeiro ano do ensino fundamental. Com o passar do tempo, o amor por essa cultura foi crescendo ao ponto dela entrar nesse mundo de vez. Um mundo musical, colorido, divertido e que Ă© exaustivo. Isso porque, os quadrilheiros chegam a dançar em trĂȘs a quatro arraiais, por noite, com uma coreografia de 40 minutos de duração aproximadamente. A noiva explicou que as coreografias sĂŁo montadas conforme as mĂșsicas escolhidas, cada uma com um tempo e um arranjo diferente.
âDançar quadrilha Ă© uma terapia, vocĂȘ se diverte dançando. Passa energia atravĂ©s da dança. Conhece pessoas novas, viaja, frequenta bons arraias, e tem momentos Ășnicos onde sĂł a Ă©poca do SĂŁo JoĂŁo proporciona. AlĂ©m disso tudo, levamos a importĂąncia da cultura brasileira, e nĂŁo deixamos se acabarâ, explica Bruna.

Quadrilheiros lutam sozinhos para manter tradição de pé
Para conciliar a rotina frenĂ©tica no mĂȘs junino, a noiva do arraiĂĄ precisa abdicar de inĂșmeros compromissos sociais ao longo de todo perĂodo de festas e tambĂ©m dos meses que antecedem as apresentaçÔes.
âĂ bastante cansativo, porque o tempo que tenho livre do trabalho eu dedico pra quadrilha. EntĂŁo torna-se algo do tipo:â trabalho/quadrilha, quadrilha/trabalho nesse tempo de SĂŁo JoĂŁoâ. EntĂŁo como gosto de dançar, dou um jeitinho de conciliar e dar tudo certoâ, detalhou.Â
Ă o amor pela dança que move Bruna e outros tantos quadrilheiros que lutam para manter viva uma tradição nordestina e potiguar, que apesar de linda, carece de atenção do poder pĂșblico. A noiva comenta que, na maioria das vezes, as quadrilhas juninas precisam tirar quase todo o dinheiro do prĂłprio bolso para arcar com os custos das apresentaçÔes. Para pagar as roupas, as maquiagens e atĂ© os ĂŽnibus para levar as juninas de um lugar para o outro, os quadrilheiros se viram para arrecadar dinheiro fazendo rifas ou juntando os trocados.
âA desvalorização começa em questĂŁo de um apoio, tipo, da prefeitura que a gente nunca tem. Geralmente, as quadrilhas pequenas tĂȘm que arcar com o dinheiro do seu bolso para comprar os figurinos. Tipo, quando tem festa grande, geralmente [A prefeitura] prefere pagar um cantor para vir, do que pagar uma premiação maior para uma quadrilha, na qual a maioria dos componentes tiram dinheiro do seu bolso. Enfim, nossa cultura Ă© super desvalorizada dentro da nossa prĂłpria cidade.â, desabafa.