Ocupação no IFRN há quase 10 anos projetou lideranças políticas
A Agência Saiba Mais dá continuidade à série de reportagens “Primavera Secundarista: nossos sonhos são pra valer”, com histórias de cinco lideranças secundaristas que ocuparam os campi do IFRN em 2016 contra a PEC do Teto de Gastos, a Reforma do Ensino Médio e o projeto Escola sem Partido. Agora, seguimos com o perfil de Mikael Lucas, de 26 anos, que foi estudante do IFRN São Gonçalo do Amarante.
Mikael Lucas: “Sou o que sou porque passei por esse movimento”
Mikael Lucas da Silva Dionísio é de Extremoz, mas estudou no IFRN de São Gonçalo do Amarante, município distante cerca de 20 km. Hoje com 26 anos, ele iniciou sua trajetória no movimento estudantil aos 17, em 2015, momento em que os servidores técnico-administrativos lutavam pela flexibilização da jornada de trabalho de 30 horas.
“Na época, eu não fazia parte do grêmio estudantil ainda. Quando eles fizeram a movimentação, e toda movimentação do trabalhador é válida, então eu fui. Cheguei lá, fiz uma participação, na época o grêmio não estava muito ativo e fui para o ato representar o grêmio sem ser do grêmio. Alguns dias depois, fui convidado a ocupar uma cadeira em vacância”, relembra.
Mesmo assim, o ímpeto da rebeldia o acompanhava desde antes. Era o presságio de quem ele se tornaria.
“Desde muito novinho, eu já era líder de turma. Com 12 anos de idade, já era um menino chato da escola”, brinca, dizendo que brigava por tudo. Até se não tinha ventilador na sala de aula, estava gritando.
Assim como os demais, participou inicialmente da ocupação no Central, mas depois iniciou a mobilização no seu próprio campus.
“E foi uma organização muito louca, porque a gente era tudo novo. A gente não tinha noção, e São Gonçalo aderiu muito”, conta. Ele se recorda de ao menos 130 estudantes participantes na primeira ocupação, que durou uma semana. A ação encerrou e voltou depois, durando mais cinco dias.
“Em São Gonçalo, a gente sempre trabalhou muito essa questão da importância da educação livre, que seja gratuita, de qualidade. E a gente também sempre trabalhou muito o contexto da sua história e o que você faz ali. Então, a gente estava no campus em que a maioria das pessoas eram do interior, de uma cidade que não tinha política pública efetiva, e precisava entender o que o IF significava na vida de cada uma delas. Justamente nesse contexto, foi que a gente conseguiu fazer a grande mobilização que a gente fez. A gente não fez uma caracterização de bandeira partidária, é tanto que tinham pessoas lá que se diziam de direita, de centro e até monarquista. Mas, na minha mente, naquele momento, essas pessoas precisavam defender a escola, e não estar com outra preocupação”, relata.
Uma das dificuldades de manter tanto adolescente e jovens adultos juntos era conseguir dar conta da alimentação para esse contingente. O apoio vinha das famílias.
“A gente não tinha comida para mais de 100 pessoas, e os pais dos alunos que foram lá, levaram comida, macarronada, comida fácil para a gente se sustentar, senão não teria comida naquele período”, diz. Já na segunda ocupação, os movimentos sociais deram uma maior ajuda, então a alimentação deixou de ser preocupação.
Na época, Mikael militava na Kizomba. Após concluir o ensino médio, continuou na vida partidária e, em 2020, foi candidato a vereador pelo PSB em Extremoz, sem ter sido eleito. Posteriormente, retornou ao PT e se uniu à corrente Avante, a mesma da governadora Fátima Bezerra e do deputado Francisco do PT. Em 2024, disputa uma nova eleição em sua cidade. Ele acredita que quem está hoje no IFRN ainda não sabe o que foi o período das “vacas gordas”, em que a luta pela recomposição orçamentária não era um problema no dia a dia.
“A gente, naquela época, já reclamava e pedia por melhoria no que tinha e ,talvez, as pessoas de hoje pedem pelo que a gente tinha há pouco tempo”, pensa.

O aumento dos cortes na educação, aprofundados a partir de 2015 e 2016, trouxe uma perda do ritmo de crescimento de cada unidade do Instituto, acredita Mikael.
“Se a gente tivesse um investimento no ritmo daquela época, talvez hoje teria um campus maior, mais estruturado e com capacidade até para mais alunos terem acesso ao ensino técnico federal”, afirma.
Ainda assim, as ocupações deixaram marcas permanentes, como no Grêmio Estudantil Sérvulo Teixeira (GEST), de São Gonçalo, que permanece ativo até hoje. Olhando para trás, Mikael sente orgulho do que empreendeu e viveu.
“Acredito que hoje, se eu sou o que sou, foi porque passei por esse movimento. A questão de conhecer a sociedade que eu conheço hoje foi por conta daquele período. Ter viajado grande parte do nosso estado e fazer conhecer diversas histórias também faz parte do meu desenvolvimento para eu saber o que sou hoje”, diz.
“Acredito que não é um contexto só meu, mas sim de todo mundo que viveu aquela época. De poder passar dias fora de casa, ocupar a escola, correr perigo, viajar a cada 15 dias para Brasília para organizar a luta e a defesa da educação. Isso me fortaleceu muito para meu desenvolvimento pessoal e para o que sou hoje, enquanto profissional, humano, político, tudo”, enfatiza Mikael.
Ex-presidente Michel Temer (MDB) era um dos alvos de protestos em 2016
Foto: Facebook REGIF (autoria não identificada)
A REGIF também se aperfeiçoou, diz: “A gente tinha uma REGIF muito técnica na época. De fato, ela nasceu com esse intuito de ajudar os grêmios, só que, por necessidade da vida e consequência da luta, hoje a gente tem uma REGIF combativa, que vai para a rua, que tem seu método de se organizar, assim como qualquer outra entidade, até porque o contexto do IF é diferente”.
E outra Primavera Secundarista é possível?
“Se a gente tiver que ter uma nova Primavera Secundarista, nós teríamos o IFRN especificamente como pioneiro na luta das ocupações no Brasil todo, assim como foi na primeira Primavera Secundarista, porque o pessoal está organizado e o IF continua tendo pessoas com interesse em defender aquilo que tem”, aponta o petista.
Do pequeno Mikael que gritava até com o prefeito pela falta de ventilador em sala de aula até o homem que é hoje, pretende seguir militante.
“A política é movida pelas nossas próprias mãos. E se a gente está numa democracia, precisa disputar pela democracia”, diz o candidato.
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