Recentemente um artigo publicado na Tribuna do Norte dava conta da prisão em flagrante de um filho, de 52 anos, que deixava a mãe em casa e, em razão disto, a deixava sem os devidos cuidados de higiene e alimentação nas horas adequadas.
O artigo, muito sumário, não dizia se esse filho saía para trabalhar, se a mãe era senil ou portadora de algum outro problema de saúde (agravantes) e exortava a população a denunciar situações como essas para que o Poder Público guardião da moral e dos bons costumes pudesse prender mais e mais pessoas com o perfil do filho. O artigo também não dizia que serviço de acolhimento seria dado a essa idosa, pois vagas não há, nem em centros-dia que a bem dizer não existem em Natal, nem em Instituições de Longa Permanência de Idosos…
No entanto, o principal responsável pela situação, independentemente da responsabilidade do filho, que talvez estivesse no dilema do pobre entre cuidar ou trabalhar, e o artigo naturalmente não se referiu a isso, é o próprio município que não oferece vagas em centros-dia de idosos na quantidade necessária a assegurar que os familiares de um idoso senil possam ir trabalhar como a vida exige aos mais pobres para garantir a sobrevivência familiar.
Aliás, somente a existência da política é que permite filtrar o verdadeiro abandono. Por exemplo, se houvesse um centro-dia próximo à residência desse filho agora preso, ele deixaria a sua mãe antes de sair, ou não? Se a deixasse lá, não poderia ser apontado como criminoso e preso.
Diga-se também que a ausência dessa política é de tal magnitude que já há especialistas que consideram a sua carência mais grave, por atingir uma população crescente, numerosa e vulnerável, do que a de vagas em creches para os bebês, que, embora insuficientes, atendem, já hoje parte relevante da demanda e , claro, devem ser ampliadas para garantir a universalidade do acesso.
Esse problema fica invisibilizado pela insensibilidade geral no que se refere às políticas para os idosos. E nas eleições atuais, essa invisibilidade, infelizmente continua.
No entanto os progressistas deveriam estar apresentando um projeto de cidade capaz de incluir esse equipamento social elementar na paisagem das políticas públicas e distribuídos territorialmente.
Vamos fazer o exercício com o bairro de Nossa Senhora da Apresentação, o maior de Natal, que, com os seus quase 90.000 habitantes, terá pelo menos 11.600 idosos na sua população, correspondendo a 12% do total.
Desses 11.600 idosos, quantos necessitarão de um centro-dia para permitir às suas famílias a possibilidade de trabalhar para sobreviver?
Se admitirmos o número hipotético de 3% do total, (o que me parece baixo, pois as famílias no Brasil de hoje, costumam ter em média apenas três membros) haveria a necessidade de cerca de 360 vagas, que evitariam transformar um problema social num caso de polícia e de termos em lugar de 360 famílias dignamente atendidas, 360 familiares de idosos presos pela polícia.
Se pensarmos em Natal, com seus 800.000 habitantes, dos quais cerca de cem mil são idosos, seriam necessárias 3.000 vagas, claro que essas 3.000 vagas devem estar distribuídas no território para evitar que as pessoas tenham que pegar o transporte para levar o seu idoso num centro-dia situado no outro lado da cidade.
Podemos alternativamente também pensar, seria estúpido, mas a estupidez é a regra, em 3.000 novas vagas nas prisões e continuar a deixar os idosos abandonados.
Pela estupidez, essa matemática também resolveria, embora um preso permanente custe certamente mais caro do que um idoso dia, mas talvez, por uma questão de mentalidade, aceitemos melhor essa solução.
Mas voltemos ao idealismo, ainda que irrealizável, podemos pergunta: quanto custaria essa infraestrutura, (não a das prisões), bem entendido? Os usuários contribuiriam com algum montante? A gestão seria somente da prefeitura ou poderia ser compartilhada com as igrejas e associações locais?
Esse deveria ser o verdadeiro debate eleitoral no que toca a esse grave problema que aflige idosos e seus familiares num país impiedoso como o nosso, onde a hipocrisia e o abandono do Poder Público continuam prendendo anônimos e martirizando vulneráveis.
Vamos a ele?