Como um projeto tem devolvido dignidade a pessoas em situação de rua
São 20h40 da noite e um grupo já começa a se formar em uma certa altura da avenida Nascimento de Castro, no bairro de Lagoa Nova, Zona Sul de Natal. Essas pessoas vivem em situação de rua e estão à espera do Chuveiro Solidário, um projeto que leva roupa limpa, comida fresquinha, corte de cabelo e banho a quem não tem um teto onde se abrigar.
Sem uma casa há seis anos, Tiago conta como é a convivência nas ruas enquanto aguarda na fila:
“Passei por muita coisa boa e ruim. Aprendi a humildade, a ser humano com o próximo. Eu tinha uma vida normal, ninguém deseja estar nessa situação”, diz.
Nas noites de chuva e frio mais intensos, são as marquises que garantem o abrigo para quem não tem o conforto de uma casa.
“Eu, que já estou acostumado, acho uma marquise, um canto bom. Para quem não é acostumado sofre mais”, acredita.
Mais do que o frio ou a chuva, é a violência das ruas que mais incomoda. Em algumas situações, nem o direito de ir e vir dessas pessoas é respeitado.
“Nós andamos nessa região aqui que tem academias, escolas e certos vigias se sentem policiais, querem bater na gente, não temos o direito de ir e vir. Somos até proibidos de passar em certas ruas porque somos ameaçados de morte, eles batem em você sem ter feito nada!”, denuncia Everton Dantas, enquanto aguardava a hora de escolher uma roupa.

Na rua desde que perdeu o emprego, há pouco mais de um ano, Mário parece conformado com a situação. Para evitar problemas, ele conta que procura se dar bem com todo mundo:
“Era motorista. Recebo o auxílio, mas é pouco demais, só dá pra comer, o gasto é grande. Graças a Deus me dou com todo mundo, tem que saber levar a vida porque senão, aqui fora, ninguém dura muito não”, conta Mário Oliveira Cavalcante, que tem 58 anos.

Já Felipe, depois de morar quase 17 anos nas ruas, conseguiu o aluguel social e há dois tem um teto pra chamar de seu:
“Vivia embaixo do Viaduto da Arena (das Dunas). Era muita droga, muita bebedeira, muita confusão… a rua é isso, você tem que se esquivar porque senão é muita violência. Me cadastrei no Centro Pop, onde eu ainda não era cadastrado, e perdi meus documentos. Quando fui retirar (os documentos) na Defensoria o rapaz me orientou que eu tinha direito (ao aluguel social), me orientou como conseguir e deu certo, graças a Deus!”, comemora Felipe Costa, de 45 anos.

Verba do projeto vem de vaquinhas e doações
A rua não é um lugar fácil, mas se torna menos difícil com a iniciativa de voluntários como a do grupo que atua no Chuveiro Solidário, que toda sexta para em um ponto da cidade levando um pouco de humanidade a quem é ignorado pela sociedade.
Toda semana o grupo faz vaquinhas e quotas para arrecadar os cerca de mil reais que eles gastam na compra de alimentos, kits de higiene pessoal e peças de roupas, além de garantir banho e corte de cabelo.
“São 300 pães, achocolatado, quentinha e o Paladar Tropical fornece 40 litros de sopa, eles doam todos os dias e nós ficamos com a sexta. Tem gente que vem da Jaguarari, da Prudente, das proximidades da Promater”, explica Leandro Luz Sanches, arquiteto e um dos voluntários.

Carro adaptado foi inspirado em projetos semelhantes em outras cidades
Tudo começou com o grupo Anjos da Madrugada.
“Depois, em 2019, disseram que tinha um carro do banho em Recife, que já tinha sido copiado do Rio Grande do Sul, que já tinha sido copiado de Detroit, nos Estados Unidos”, conta Leandro, que projetou o carro.
O veículo é todo feito de canos de PVC, preenchidos pela água que será utilizada nos banhos. O carro tem três pias e dois boxes, além de um aquecedor para que a água saia morna:
“O que faz a água subir dos canos para o banho é um motorzinho de para-brisa que custa R$ 23. Então canos de PVC, um motor de R$ 23 e uma bateria de carro resolveram o problema”, detalha o voluntário.
O grupo teve o carro do banho roubado no ano passado e só depois de uma campanha coletiva eles conseguiram arrecadar o suficiente para a compra de todo o material novamente:
“Há 10 anos começamos a pensar na formação de algo que desse suporte para a higiene pessoal, vimos a necessidade que as pessoas tinham emC relação a isso”, explica Laudeci Ferraz, voluntário, que complementa:
“Estamos fazendo oito anos e, nessa caminhada, aprendemos muitas lições. Percebemos não só a necessidade que eles têm do banho físico, conseguimos ver também a dignidade de uma pessoa a partir da higiene pessoal e isso é muito gratificante porque, entre eles mesmo, mudou a situação. A cada ação que fazemos buscamos aprimorar algo mais porque vemos a necessidade de cada um a partir delas. Então vamos adaptando o Chuveiro Solidário para suprir essas necessidades que vão surgindo. É muito gratificante porque fomos entendendo também que esse trabalho não é apenas para eles, mas para nossa mudança interior, para compreendermos o mundo um pouquinho além do que vemos”, resume Laudeci.

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