Baobá do Poeta renasce em outros pontos da Grande Natal
O Baobá do Poeta, árvore centenária em Natal que passou por um processo de poda no ano passado devido à presença de fungos, busca se recuperar no seu local original, na Rua São José, no bairro de Lagoa Seca. Ao mesmo tempo, renasce em outros pontos de Natal e Região Metropolitana por meio da ação de cidadãos que levaram galhos para serem replantados e já vêem o brotar de novas folhas.
A árvore passa por um processo de recuperação depois do terreno em que está localizada ter sido vendido pelo advogado e escritor Diógenes da Cunha Lima à Empresa Vila. O projeto é de transformar o espaço com o Baobá num centro cultural.
Apesar de ter vendido o terreno, Diógenes mantém a ligação afetiva com a árvore, que conheceu ainda menino quando saiu de Nova Cruz para Natal, e só concretizou a compra da propriedade em 1991.
“São 35 anos que eu mantenho a árvore, só me deu alegria”, diz o advogado à reportagem.
Rotineiramente, o Baobá é palco para a visita de escolas, que levam os estudantes e professores para falar sobre meio ambiente. Lima busca estar sempre presente.
“Eu falo sobre ecologia, sobre a importância das árvores, a valorização da natureza. Enfim, é uma maravilha”, define.
Foi por meio dessas aulas de campo que a professora Maria Silvestre, da Escola Estadual Myriam Coeli, no conjunto Nova Natal, Zona Norte da cidade, se deparou com a histórica árvore. Ela é professora de Libras do Estado e na unidade escolar trabalha na sala de recursos multifuncionais, que atende alunos com necessidades educacionais específicas.
“Eu estava trabalhando uma biografia de Diógenes com meus alunos, aí fui convidada ao escritório dele, nós conversamos bastante, e em seguida eu levei os alunos para conhecer o baobá. A partir daí os alunos ficaram encantados com o baobá. Eu, como professora, fiquei encantada pela história, pela cultura”, conta.
Saiba Mais: Terreno do Baobá do Poeta foi comprado por Grupo Vila, que tenta recuperar árvore
A docente, que também tem formação em Artes Visuais, costuma trabalhar a arte botânica com seus alunos. Em uma outra visita, ela pediu para levar um pedaço de um galho podado para a escola, além de folhas para fazer impressão botânica envolvendo pintura e colagem, nas atividades do dia a dia. O galho, ao ser plantado, começou a florescer.
“E nesse contexto do AEE (atendimento educacional especializado), o Baobá teve outra oportunidade de crescer aqui no nosso solo da Escola Estadual Myriam Coeli. Assim como nossos alunos, cada um vai crescer no seu tempo, mas ninguém vai crescer sozinho. Então a gente não quer que o Baobá cresça sozinho, a gente do AEE não cresce sozinho”, reflete a professora.
Nesta segunda (8), uma cerimônia especial será realizada na escola para fazer uma espécie de inauguração e homenagem ao baobá. O poeta Diógenes da Cunha Lima deve estar presente.
Arquidiocese
A presença do Baobá também aparece nos espaços da Arquidiocese de Natal. O empresário Adelmo Santos, por iniciativa própria, trouxe um pedaço de um dos galhos podados e colocou no jardim da Catedral Metropolitana, com o intuito de, posteriormente, servir de suporte para uma orquídea.
Com o passar dos meses, as folhas começaram a brotar do galho do baobá. Na última quinta-feira (28), o galho foi levado para a granja do clero, em Emaús, onde vai ter espaço adequado para crescer.
“Ou seja, o baobá se multiplica”, resume Diógenes, sobre a “mais antiga habitante da nossa cidade”.

Vila diz que segue acompanhando recuperação
Em nota, a Empresa Vila afirmou que segue cumprindo integralmente o protocolo de recuperação ambiental estabelecido pelo Ministério Público. O acompanhamento técnico, iniciado após a poda da árvore, tem duração prevista de seis meses e será concluído em junho.
Ao término desse período, uma nova avaliação será realizada em conjunto com os órgãos competentes para verificar a necessidade de prorrogação do monitoramento por mais seis meses.
Neste momento, de acordo com o comunicado, a prioridade é garantir a plena recuperação do Baobá. “Qualquer novo projeto relacionado ao espaço dependerá da conclusão adequada dessa etapa e das orientações técnicas emitidas pelos órgãos responsáveis”, informou a Empresa Vila.
A origem
Diógenes da Cunha Lima comprou a propriedade onde se encontra o Baobá em 1991, com o intuito de preservar a árvore, que corria o risco de ser derrubada para a construção de um prédio no local.
Antes da poda, o Baobá tinha 19 metros de altura e um tronco com 26 metros de diâmetro. A história de sua origem ainda é um tema controverso. Segundo Diógenes da Cunha Lima, há uma tese de que a árvore foi trazida para o Brasil por Maurício de Nassau, que queria fazer um jardim botânico no Nordeste. Câmara Cascudo, por sua vez, teria afirmado que ela veio para o Brasil em forma de semente, trazida pelos escravos. Já o próprio Diógenes acredita que a árvore foi trazida, em forma de semente, na barriga de pássaros migratórios que vieram da África, espalhando a árvore por alguns locais do Brasil.
O Baobá do Poeta também pode ter servido de inspiração para o escritor Antoine de Saint-Exupery, que em uma de suas passagens por Natal teria ficado encantado com a árvore e a eternizado nas ilustrações do livro “O Pequeno Príncipe”.
Em 2023, o escritor chegou a publicar no Youtube um especial sobre o Baobá (veja o vídeo ).