Ao lado dos pobres: Como o legado de padre Sabino segue em Mãe Luiza
Italiano que fez história em Mãe Luiza, na Zona Leste de Natal, padre Sabino Gentili teria completado 80 anos no último domingo (13) se estivesse vivo. Tendo escolhido a comunidade para fixar residência desde o início dos anos 1980, o sacerdote se notabilizou pelo contato próximo com os moradores e pela fundação do Centro Sócio-pastoral Nossa Senhora da Conceição, que segue com os trabalhos até hoje.
Natural de Castel di Tora, cidade italiana localizada a 100 km de Roma, Sabino Gentili nasceu em 13 de julho de 1945 e morreu em 8 de julho de 2006, menos de uma semana antes de completar 61 anos. Na época de sua morte, estava em visita à cidade de origem. A notícia da partida deixou a pequena comuna italiana e também os potiguares consternados.
Sabino Gentili chegou a Mãe Luiza num período em que as contradições sociais na comunidade eram ainda mais gritantes. A professora Aparecida Fernandes viveu de perto esse cenário, tendo nascido e crescido no bairro, na época ainda chamado de "morro". Ela entrevistou o padre para sua dissertação de mestrado em que investigou a construção social do bairro, e ainda estudou a ação educativa do sacerdote em Mãe Luiza no doutorado:
“Ele mesmo dá um depoimento para minha dissertação de mestrado com um pouco da paisagem do que ele encontrou. Muitos numa situação muito ruim, muitos conflitos por moradia. Eu mesma criança presenciei isso. Em frente à minha casa em Mãe Luíza tinham várias ocupações, demarcações. Na travessa que ficava na esquina da minha casa, subindo para o Parque das Dunas, tinha uma favela lá. O pessoal sem condições de higiene, sem água encanada, sem luz elétrica, ainda nem todo mundo tinha acesso, então ele encontra esse cenário”, afirma.
Mas o que leva o italiano, formado na estrutura dos Salesianos, a escolher esse local? Para o padre e amigo Robério Camilo, sucessor de Sabino em Mãe Luiza e atual presidente do Centro Sócio-pastoral, havia um grande desejo do italiano de viver o Evangelho. As discussões da Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, ocorrida na mexicana Puebla em 1979, e que defendia a opção preferencial pelos pobres e pelos jovens, também influenciaram.
Fotos: acervo do Centro Sócio-pastoral Nossa Senhora da Conceição
“O padre Sabino radicaliza, faz essa opção e vem para o morro. Ele teve a coragem e a ousadia de entrar num processo de conversão pessoal. Deixou o conforto da sua vida salesiana e veio morar numa casa simples em Mãe Luiza. E o motivo foi a dor, o grito do povo aqui de Mãe Luiza e o desejo de fazer uma experiência evangélica mais radical. De fato, ele fez. Plantou sementes. Nós estamos colhendo frutos e adubando as árvores que essas sementes produziram aqui no território de Mãe Luiza”, conta o amigo.
Em um dos depoimentos a Aparecida Fernandes, padre Sabino contou que sempre pensou em ter uma vida como qualquer pessoa fora dos muros da Congregação Salesiana — base da sua formação —, porque a Congregação limitaria sua atuação.
“Ele sempre pensou em morar em alguma comunidade e escolheu Mãe Luiza, que estava sem padre, comprou um terreno do então padre Hudson, tinha um terreno lá, construiu a casa dele e realmente ele foi um morador de Mãe Luiza,” lembra.
Atuação no bairro
O Centro Sócio-pastoral Nossa Senhora da Conceição é uma das partes visíveis da atuação de Gentili em Mãe Luiza, tendo sido fundado no final de 1983 junto com pessoas da comunidade como uma organização filantrópica.
No período, Mãe Luiza vivia um processo de urbanização com a chegada de muitas famílias que migravam do interior para a capital. Havia carência por creches, casos de desnutrição e mortalidade devido às más condições. Foi nesse contexto que o sacerdote subiu o morro e começou a marcar sua história no local, vendo as necessidades das pessoas e se articulando em parceria com os moradores. A própria Igreja e o Centro foram construídos em mutirão com a comunidade.
“Ele vai construindo a Igreja de Mãe Luiza nesse processo, mas antes mesmo da igreja já tem uma articulação de grupos de jovens, de crianças, de coral, que ele vai potencializando, e de envolvimento nos problemas comunitários”, explica Aparecida Fernandes.
Para ela, o Centro Pastoral se traduz em um lugar de reunião comunitária.
“Ali ele discute coletivamente e vai junto com a comunidade construindo as possíveis alternativas para os problemas”, define.
Fotos: acervo do Centro Sócio-pastoral Nossa Senhora da Conceição
Após a morte de Sabino Gentili, o posto é ocupado pelo padre Robério Camilo, que hoje vive na mesma casa em que Sabino morou. Para o médico Ion de Andrade, vice-presidente do Centro, Camilo é mais um que compartilha o que chama de “visão de um cristianismo ao lado dos pobres”.
“A gente teve, em todas as ações que se desenvolvem em Mãe Luiza, a presença sempre muito marcante do padre Sabino. Algumas das atividades, inclusive, começaram com ele. Portanto, a presença dele continua nas coisas que foram tomadas de iniciativa na época em que viveu conosco. E diria que, nas coisas que se seguiram, tiveram uma importância muito grande pela condução do padre Robério de maneira muito naturalmente alinhada com o que vinha sendo feito antes,” conta.
Com a fundação do Centro Sócio-pastoral, diz Robério Camilo, se inicia um diálogo libertador com a comunidade de Mãe Luiza:
“E também possibilita a construção de todos os equipamentos que nós temos hoje, de modo que a obra social que nós temos hoje, nós devemos à padre Sabino, com a sua inspiração e a sua grande dedicação.”

De acordo com a professora Aparecida Fernandes, do ponto de vista político, Gentili era uma pessoa que se colocava como um partícipe da vida comunitária e alguém que contribuía para fortalecer a ação coletiva.
“O grande potencial dele é canalizar esse aspecto de uma identidade de resistência dos moradores e, a partir do diálogo, da reflexão, ele potencializa essa percepção da força da organização comunitária e da ação coletiva. Então, se tem um problema, a gente analisa esse problema. A gente vê o que é que coletivamente nós podemos fazer, mas também nós nos organizamos para que o poder público cumpra o papel dele. Então, sempre foi muito nesse processo”, define.
Com o Centro Sócio-pastoral, uma das primeiras ações foi viabilizar uma escola de educação infantil:
“Havia uma grande necessidade. Não tinha creche que desse conta. As mães tinham a reclamação de que não tinham com quem deixar os filhos. E também a carência de escolarização, de formação, e ele faz essa primeira ação, que é uma escola de educação infantil que acontecia no próprio salão do Centro Sócio-pastoral. Ele também consegue mobilizar, vai construindo parcerias, por exemplo, os primeiros cursos de soldador, curso de eletricista”, conta.
Atualmente, o Centro funciona com diferentes atividades, como a Escola Espaço Livre, Casa Crescer, Instituição de Longa Permanência para Idosos Espaço Solidário, Ginásio Poliesportivo Arena do Morro; Escola de Música de Mãe Luiza e uma parceria com o Espaço TransformAção. Juntos, atendem cerca de mil usuários da comunidade de forma diária, além da realização de ações esporádicas e rotativas desenvolvidas em parceria com outras instituições.

Segundo Ion de Andrade, padre Sabino implantou no local uma instituição que escuta a comunidade:
“O Centro nunca teve uma agenda própria do Centro, mas sempre esteve a serviço da agenda que era prioritária na comunidade. Ele implantou uma instituição a serviço de uma ideia de participação, onde as iniciativas eram sempre definidas pelas prioridades da comunidade. E ele criou um grupo de apoiadores, amigos, tanto no Brasil como na Europa, que foi muito importante e continua sendo muito importante para o apoio aos projetos que são desenvolvidos em Mãe Luiza”, aponta.
Estar onde os outros não estão
As ações de Sabino no morro nunca estiveram numa percepção do puro assistencialismo, acredita Fernandes:
“Mas, dentro das possibilidades, de se dar acesso à comunidade para as coisas, mas sem perder de vista o seu potencial organizativo e quem é o responsável por prover as políticas sociais, que é o poder público. Então, potencializar essa consciência de que tem que se organizar, tem que agir coletivamente, tem coisas que dá para a comunidade fazer, agir, e tem coisas que não cabem a ela, mas ao poder público, então se cobra”, comenta.
Ela até lembra uma frase dita pelo próprio padre:
“No dia que tiver escola para todo mundo, e não for mais necessidade que todas as crianças estiverem na creche, estiverem na escola, a Escola Espaço Livre não vai ter mais sentido. Então, a gente constrói outras situações a partir das necessidades”.
Fotos: acervo do Centro Sócio-pastoral Nossa Senhora da Conceição
Outro a se recordar das conversas com o padre é Robério Camilo, atual pároco da Igreja de Mãe Luiza, que lembra de Gentili como um homem culto, porém inserido no meio do povo e que dialogava com o diferente.
Camilo morou um período em Roma, onde fez o mestrado em teologia bíblica. Retornou para Natal em 1995 e diz que sentiu falta de Sabino nos espaços da igreja naquele momento. Foi, então, questionar diretamente o amigo.
“Sabino, onde é que você está que a gente não vê?”, perguntou, ao que o então pároco logo respondeu: “eu estou onde os outros não estão”.
“Então, com essas frases proféticas, ele ia conduzindo a vida dele e também ensinando na medida do possível”, relembra Robério Camilo.
Debates e formação acolhedora
Aparecida lembra de um episódio que exemplifica a maneira como as discussões sobre preconceitos sociais e desigualdades apareciam nas ações evangelizadoras da Igreja de Mãe Luiza. Em uma reunião do coral, a irmã Francisca, responsável pela orientação do grupo, apresentou uma música cantada por Bezerra da Silva. Era a canção “Vítimas da Sociedade”, que dizia:
Se vocês estão a fim de prender o ladrão
Podem voltar pelo mesmo caminho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho
(...)
Só porque moro no morro
A minha miséria a vocês despertou
A verdade é que vivo com fome
Nunca roubei ninguém, sou um trabalhador
Se há um assalto à banco
Como não podem prender o poderoso chefão
Aí os jornais vêm logo dizendo que aqui no morro só mora ladrão
Ela cita ainda a abertura do religioso para dialogar com outras denominações religiosas, como o interesse por conhecer um terreiro de Candomblé, por exemplo.
“Ele não tinha aquilo de estabelecer a ponte com um ser divino, abstrato, não. Era fazer descer o Deus aqui para a Terra. Então, você imagine uma comunidade que, por anos, passou a ouvir uma homilia sobre qualquer parte do Evangelho em que ele tinha o contexto histórico que estava posto, mas qual a relação que a gente pode fazer com a nossa vida hoje, nossa vida concreta. Então, isso é um processo formativo e político também, e de uma formação religiosa não ortodoxa, tolerante, acolhedora”, define.

Para o padre Robério Camilo, quando se fala de Sabino, logo se pensa na luta e na defesa dos pobres.
“Já se pensa logo na grande luta que ele tinha em favor da promoção humana. Isso é Evangelho vivo, isso é profetismo, isso é viver o seguimento de Jesus nos dias de hoje”, aponta.
Contato com os movimentos sociais
O padre era ligado à Teologia da Libertação, uma ala da Igreja que defendia a luta contra as injustiças sociais. Quando o Papa João Paulo II morreu, em 2005, e o alemão Joseph Ratzinger — o Papa Bento XVI — foi escolhido em seu lugar, Gentili chegou a lamentar publicamente a escolha em entrevista à Tribuna do Norte. Para ele, o novo chefe da Igreja Católica à época representava o conservadorismo para questões do mundo atual como o ecumenismo.
"Precisamos de uma Igreja menos institucional e mais inovadora", defendeu.

Sua chegada ao Brasil, ainda na década de 1970, foi em meio à ditadura militar, mas também a uma grande efervescência popular com Paulo Freire, com a discussão sobre a questão da universalização do ensino, com os círculos de cultura popular.
“Lógico que ele, aqui no Brasil, absorve toda essa temática”, diz Aparecida.
Padre Robério Camilo também celebra o contato que o italiano teve com a Teologia da Libertação.
“Na década de 80, ainda bem que existia a Teologia da Libertação. Ajudou muita gente a abrir os olhos, a ter rumo. Inclusive, se ele não fosse, não tivesse abraçado os princípios de uma teologia que liberta a partir de um evangelho libertador, acreditando no poder de Jesus Cristo libertador, ele não teria feito a opção que ele fez”, diz.
Mais do que isso, Ion de Andrade afirma que Gentili era um cristão autêntico.
“Ele não era alguém que ficava se definindo de fora para dentro. Era alguém que pensava, que emitia opiniões. Portanto, não é alguém que se pautasse por seguir uma doutrina a priori. Padre Sabino era autenticamente cristão. E era nesse sentido, portanto, uma pessoa que podia aproveitar de maneira integrada a visão cristã que ele tinha das coisas, ele podia aproveitar de diversos pensamentos filosóficos, de opiniões, de coisas que ele lia, sempre sem, de forma alguma, alterar essa visão profunda que ele tinha, essa convicção profunda que ele tinha, que era a do cristianismo mais autêntico”.
Fotos: acervo do Centro Sócio-pastoral Nossa Senhora da Conceição
Aparecida Fernandes afirma que o padre estava junto dos movimentos sociais, deixando uma marca de referência para diferentes setores.
“O movimento sindical tem nele uma referência. O Movimento Sem Terra tem nele uma referência. Ajudou a mediar muitos conflitos de posse de terra, ia celebrar junto com o MST as posses de terra. Estava com o movimento sem teto. Estava na formação das chapas de oposição sindical. Ia para as portas de fábrica”, conta.
A professora lembra da ação da Pastoral Operária, em que o grupo ia de madrugada para as portas de fábrica, o padre puxava uma oração, e depois começava a discutir as problemáticas dos operários naquela localidade.
Segundo ela, o italiano pautava na comunidade as discussões da época, como o plebiscito Constituinte, as eleições diretas e a carestia, ao mesmo tempo em que também se colocava à disposição para dar as respostas para o que a comunidade queria.
Em datas marcantes para os movimentos sociais, Gentili também estava presente, como nos atos do 1º de Maio e nas articulações do dia da mulher, respeitando o protagonismo feminino mas dando suas contribuições.
“Ele era de linguagem muito simples, mas muito profundo, e sempre se posicionou, sempre disse o que ele pensava. Sabino tem vários legados, mas esse grande legado de ser transparente, de estar com o povo, da simplicidade, do não proselitismo, do profundo comprometimento com as causas do povo são muito fortes”, define Aparecida Fernandes.