Paisagem-poesia
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Paisagem-poesia

23 de agosto de 2025
3min
Paisagem-poesia

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Ela estava ali, em todo o lugar, em cada pedra, em cada gota de água, em cada escama que ondulava sobre aquela abundância líquida. O açude. Seus cheiros e temperaturas. Asperezas e lodos. Abismos!

Cercada de serras, pedras e sóis, o açude secava a cada lambida. Língua de fogo que chupa(va) a água. – “As pedras estão surgindo”. Icebergs de encher os olhos de maresia e tristeza.

Mas até nisso ela estava lá. Na secura, nas pedras, nas línguas infernais, porque ela habita aquela paisagem na sua forma mais crua, mais dura, mais cabralina: educação pela pedra. Educação pela água e seus mistérios, e seus desperdícios, e seus alumbramentos. Caatinga!

Ela, na frieza das águas negras, no brilhar das luzes na superfície, no seu encontro com o rochedo, com as plantas… e o rasante de aves de piados longos e potentes. Planar, voar, nadar, escalar, deitar e dormir embaixo de um céu de estrelas: pirilampos que não cabem em caixinhas de fósforo, mas enchem a alma de poesia.

Ela, essa habitante de lugares que não utilizam de artifícios, de nenhuma maquiagem, nem disfarces de belezuras. A beleza habita ali, as imagens poéticas estão todas lá, a poesia é, está e se manifesta na exuberância. Não há porque se acanhar. O açude, os rochedos, os bichos, a poesia e eu.

“Lagartixa espichada ao sol”, – escrevi algo semelhante em um texto antigo – absorvo poesia em cada passo, em cada mergulho, em cada vento que revoa meus cabelos cor de fogo. Imersa nessa paisagem, também digo naquele mesmo texto de outrora, que “Fui feliz no Sertão. Sou feliz no Sertão.” Embriago-me de poesia e de energias vindas de um tempo em que não se sabe. Ancestralidades.

Como não ser feliz se a poesia é invasiva, se ela é alimento, se ela é ar e visão explodindo de lindezas… poesia na sua materialidade, para além da palavra, uma outra linguagem tão potente quanto. O olho se preenche. A alma se exulta. Estou conectada com a poesia mais que concreta: poesia natural. A água, a pedra, a planta, a ave, o peixe… enchi a boca d’água, as narinas de cheiros, a língua de texturas e sabores… Uma dose de cachaça Triunfo pra brindar o novo dia!

Ela estava ali, a poesia. Sempre esteve ali. E diante dela não sinto as dores todas da metamorfose. A crisálida é linda pelo devir que ela guarda. Pela poesia das novas cores em voo. E eu, presa a um pé de mulungu, aguardo o momento em que minha imagem se mimetize com a paisagem e vire, também, uma bruta poesia.

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