Nas votações da Blindagem e da Anistia, Centrão do RN “desceu do muro”
Os deputados federais Benes Leocádio (União Brasil), João Maia (PP) e Robinson Faria (PP) – três representantes do “centrão” na bancada do Rio Grande do Norte em Brasília – sempre evitaram se posicionar sobre temas relacionados à polarização entre a esquerda e a extrema-direita no Congresso Nacional. O trio, no entanto, desceu do muro na semana passada quando se alinhou aos bolsonaristas nas votações da PEC da Blindagem e da urgência do projeto de lei da anistia para os golpistas de 8 de janeiro de 2023.
Para o cientista político Alan Lacerda, professor titular do Instituto de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o posicionamento favorável dos três parlamentares nas duas votações não significa um “alinhamento completo” deles com o conjunto das pautas defendidas pela extrema direita, que tem como líder máximo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Na avaliação do professor, os dois grupos têm interesses convergentes, mas se distinguem em alguns aspectos, como sobre quem seria o melhor nome para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026.
Ele observa que, enquanto a direita radical insiste na candidatura do ex-presidente Jair Bolsonaro, inelegível e condenado a 27 anos e três meses de prisão no julgamento da trama golpista no Supremo Tribunal Federal (STF), as forças do centrão preferem outro nome, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
O professor, porém, discorda das análises segundo as quais o centrão fez apenas um “jogo de cena” ao se alinhar momentaneamente ao bolsonarismo na votação da urgência da anistia e da PEC da Blindagem, que foi enterrada nesta semana pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.
Para Alan Lacerda, “é perigoso pensar dessa forma”, porque “a direita radical quer isso mesmo”, referindo-se à anistia para os golpistas e à blindagem dos parlamentares, que desejavam se proteger de possíveis investigações do STF.
Por isso, segundo o professor, as “forças de centro” cometeram uma “irresponsabilidade” ao se aliarem à direita radical na defesa dessas duas pautas.
“A PEC da Blindagem era uma coisa mais ampla, porque envolvia um temor da Justiça. Existe um corporativismo congressual muito grande, porque os parlamentares acreditam que, a partir do controle das emendas, eles conseguirão se reeleger de todo jeito, apesar da impopularidade da medida”, avaliou.
A PEC da Blindagem, aprovada por ampla maioria na Câmara dos Deputados, foi sepultada no Senado depois das manifestações que levaram milhares de pessoas às ruas no último domingo (21) em diversas capitais brasileiras, incluindo Natal.
Apesar das manifestações, os bolsonaristas seguem defendendo a aprovação da anistia “ampla, geral e irrestrita” para os envolvidos na trama golpista, mas o relator do projeto de lei, Paulinho da Força (Solidariedade-SP), disse que apresentaria uma “proposta de dosimetria”. Na prática, a ideia significa reduzir as penas dos condenados, incluindo a do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Centrão caminha para a “radicalização”, avalia professor de História da UFRN
O diretor do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN), Haroldo Carvalho, professor de História na UFRN, diverge da opinião do cientista político Alan Lacerda.
Ele enxerga uma “radicalização” crescente do centrão, que, desde os anos de 1990 até o fim do governo da ex-presidente Dilma Rousseff, deposta do poder após sofrer um impeachment de 2016, “sempre soube se locomover diante das disputas entre PT e PSDB”.
“Agora, na disputa sem terceira via que vivemos na última década, [o centrão] agregou ao seu apetite por vantagens econômicas a certeza de que o aprofundamento da democracia levaria ao seu desmascaramento, restando a eles a radicalização”, analisou.
Haroldo defende que o alinhamento entre o centrão e o bolsonarismo nas duas votações aconteceu porque os dois grupos têm o mesmo interesse em comum, que seria “criar um clima incendiário para manter práticas autoritárias, que é o local ideal onde se abrigam e para onde desejam levar a disputa eleitoral de 2026”.
Votações explicitaram “configuração” da bancada potiguar

Ele aponta que, a partir das duas votações, foi evidenciada uma “configuração explícita” da bancada federal do Rio Grande do Norte na Câmara dos Deputados.
“De um lado minoritário, estão os deputados da esquerda. Do outro, uma ala majoritária extremista radical de direita. No meio disso, dica o centro pendular, que muitas vezes é oportunista”, comentou.
Enquanto o campo minoritário de esquerda é representado pela deputada federal Natália Bonavides e pelo deputado federal Fernando Mineiro, ambos do PT, a bancada da extrema direita conta com os bolsonaristas Carla Dickson (União Brasil), General Girão (PL) e Sargento Gonçalves (PL).
O “centro pendular”, como chamou o professor, é formado pelos já citados deputados federais Benes Leocádio, João Maia e Robinson Faria.
Já no Senado Federal, ainda segundo o professor, a configuração é limitada ao centro minoritário representado pela senadora Zenaide Maia (PSD) e aos senadores Rogério Marinho (PL) e Styvenson Valentim (PSDB), que ele define como “expoentes do radicalismo de direita que são associados a práticas autoritárias”.
Apesar de apontar para a radicalização crescente do centrão, Haroldo pondera que o grupo é “suscetível à correlação de forças” e, dependendo da movimentação da sociedade, seus membros podem “mudar de lado” de acordo com a conveniência. Ele alerta, no entanto, que “os extremistas da banca potiguar ficarão ainda mais fortes e radicais”.
Para cientista político, perfil majoritário da bancada potiguar não é de extrema direita

Alan Lacerda concorda com Haroldo sobre a configuração da bancada federal do RN. Para o cientista político, Carla Dickson, Girão e Gonçalves “podem ser alocados na direita radical”, enquanto à esquerda estão Natália Bonavides e Fernando Mineiro.
“Eu não alocaria, em termos de perfil, os deputados Benes Leocádio, João Maia e Robinson Faria na direita radical. Por isso, não acho que o perfil majoritário da bancada federal potiguar é de direita radical. Eu vejo três direitistas radicais dentre os oito deputados federais”, completou.
O levantamento do “Radar do Congresso”, ferramenta do “Congresso em Foco” que analisa o nível de “governismo” dos parlamentares, dá razão ao professor Alan Lacerda. De acordo com os dados da plataforma, os três parlamentares do centrão potiguar votam majoritariamente alinhados com o governo federal na Câmara dos Deputados.
Os mais “governistas” são Benes Leocádio e João Maia, ambos com índice de alinhamento ao governo federal de 82%. Já Robinson Faria tem índice de governismo de 78%.
Os petistas Natália Bonavides e Fernando Mineiro, com índices de 95% e 98%, respectivamente, são os mais governistas da bancada federal do Rio Grande do Norte.
Entre os bolsonaristas, o que tem menor índice de governismo é Sargento Gonçalves: 19%. General Girão vem em seguida com 27% e Carla Dickson aparece com 43%.