Sou de uma geração que cresceu e se formou musical e politicamente com o lema pinçado de “Pra não dizer que não falei das flores”, canção clássica de Geraldo Vandré: “Vem vamos embora, que esperar não é saber/quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Pode ser. Mas nem sempre. Quando o ímpeto da juventude (Vandré tinha 32 anos quando compôs a música) dá lugar à maturidade e ao pacote de experiências acumuladas, percebemos que esperar também pode ser saber.
Pessoalmente me divido entre impulsos e esperas. A faísca juvenil que ainda existe em mim me leva, por vezes, poucas, diga-se, a priorizar a ação. O que gera erros e acertos, claro. Mas de maneira geral me torno cada vez mais um discípulo da espera enquanto postura filosófica. Entre o ideológico (se tiver que ser, será), o pragmático (tudo tem sua hora) e o comodismo (preguiça de resolver isso agora, melhor esperar).
Este último aspecto se torna particularmente curioso pela possibilidade de transformar a preguiça, indecisão ou procrastinação em uma posição filosófica, entre o estoicismo e o existencialismo.
Inclusive, herdei tanto de papai como de mamãe, a certeza que dormindo os problemas se resolvem de alguma forma. Como se durante o sono as placas tectônicas se movessem, os chacras e as órbitas dos planetas se realinhassem. Bom humor à parte, já tirei cochilo de duas horas para esperar que problemas e estresses se resolvessem por conta própria e ao acordar, entre dezenas de mensagens de zap e ligações perdidas, eis que boa parte dos problemas se resolveram por conta própria. Claro que o que não tem solução, solucionado está, como diz a máxima popular.
Evidente também que não dá para contar com a sorte e o acaso o tempo todo. Esperar pode ser sábio e útil desde que alguma ação já tenha sido desencadeada anteriormente. O que me lembra aquela velha piada do sujeito que rezava para Deus fazer com que ganhasse na loteria. Como os anos se passavam e nada, o cidadão enfureceu-se: “Senhor, por que eu não ganho na loteria?”. No que Deus também se zangou e apareceu para dizer ao cara: “Meu filho, pelo menos vá à lotérica e marque o cartão”.
Saindo do humor e indo para a política, tivemos uma bela mostra das vantagens de esperar o momento certo. O presidente Lula conseguiu um encontro com o presidente norte-americano Donald Trump de extrema qualidade (amistoso, em uma cúpula mundial, em território neutro, sem ser pressionado) graças à espera. Oposicionistas, viralatistas e a imprensa que mistura as duas particularidades registradas acima, queriam porque queriam que Lula telefonasse para Trump, que viajasse à Casa Branca, e mesmo que se humilhasse e entregasse a soberania nacional ao ianque. Lula, raposa velha, não fez nada disso. Preferiu esperar, confiou na diplomacia brasileira e na movimentação das órbitas dos planetas, digamos, para sair por cima na história.
Quem espera sempre alcança. Bem, nem sempre, mas às vezes sim.