Desrespeito estrutural
Natal, RN 8 de jun 2026

Desrespeito estrutural

11 de novembro de 2025
6min
Desrespeito estrutural

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A estrutura machista da nossa sociedade continua impondo desrespeito severo às mulheres. E quando tratamos de política, o machismo ganha força e ares ainda mais perversos. A misoginia entra para o discurso como tentativa de diminuir cada vez mais as mulheres e o papel fundamental que elas, ao longo do tempo, vêm conquistando e estabelecendo um diferencial de qualidade para o debate público.

O Brasil se vangloria de, ainda no início dos anos 30 do século XX, com a criação do primeiro código eleitoral, ter concedido às mulheres o direito de votar e, precisamente com a constituição de 1934, elas tiveram esse direito assegurado, retirando a determinação existente até então de que só poderiam votar mulheres casadas com o aval do marido ou as viúvas e solteiras com renda própria. Resquícios arraigados ao machismo estrutural que impera com força brutal na sociedade brasileira.

A ocupação do espaço político pelas mulheres ainda é motivo de muitas lutas. Hoje, em pleno século vinte e um, com debates os mais diversificados que pairam sobre a sociedade, temas essenciais como crise climática, acesso a direitos fundamentais, evolução tecnológica, igualdade entre tantos outros, ainda assistimos a inúmeras tentativas de não se permitir às mulheres a concessão de espaços e lugares de fala em todas as áreas da sociedade. Principalmente no ambiente político.

Durante muitos anos, as mulheres que atuavam na política, eram vistas como peças acessórias, sequer tendo o direito a participarem do debate como coadjuvantes. Relegadas a tarefas meramente administrativas e de subserviência ao líder da ocasião.

Eram poucas as mulheres que se destacavam por sua militância em prol de políticas públicas que garantissem os direitos fundamentais às mulheres, como empregos de qualidade, direito a creches e escolas para seus filhos, valorização profissional com respeito as suas escolhas, equidade e respeito; valores sonhados e preconizados lá nos distantes anos vinte do século passado, quando a professora Maria Lacerda de Moura e a bióloga Bertha Lutz, fundaram a Liga para Emancipação internacional da Mulher. Entidade que no esteio dos diversos movimentos de contestação a ordem estabelecida no Brasil de então, ganharam força e destaque, embalados pela semana de arte moderna, o movimento Tenentista e a fundação do partido comunista do Brasil, para citar alguns exemplos.

Ainda hoje, as mulheres continuam precisando lutar por garantias. E tal constatação é mais evidente, quando enveredamos pelos espaços políticos. Indiscutível a presença feminina nas câmaras legislativas, em cargos do executivo, no judiciário… Mas, infelizmente, precisamos reconhecer que esses avanços carecem de maior e mais sustentabilidade, e de consolidação desses espaços como garantias efetivas. Lamentável que as mulheres ainda precisem gritar mais e mais alto para se fazerem ouvir.

As mulheres que desafiaram o establishment machista e misógino entranhado na política, ao conquistarem espaços importantes, como vereadoras, prefeitas, governadoras, deputadas e senadoras (sem falar nos cargos decorrentes desses), sofrem na pele a violência daqueles que não aceitam essa ocupação legítima e tentam, sob as mais diversas formas, desacreditarem não só a presença, mas as suas ideias e projetos, numa clara demonstração do desrespeito estrutural que o machismo continua tentando impor.

Os discursos preconceituosos, as atitudes desrespeitosas, a misoginia e o escracho contra a força feminina estão por toda a parte e contaminam todos os recantos e ambientes do espectro político. O tratamento dispensado à política mulher, por exemplo, não é o mesmo destinado aos homens. E isso é facilmente identificado, seja nas tribunas e nos plenários, seja na imprensa e agora, mais do que nunca, no ambiente digital, recheado por blogues, sites de noticias e milicias constituídas com o claro objetivo de espalhar ofensas, mentiras e tentativas de descrédito das mulheres e de adversários.

O descaramento chega a tal ponto que um político com mandato, se acha no direito de abraçar sem consentimento e até mesmo apalpar uma vereadora ou deputada no plenário de casas legislativas, como vimos recentemente.

O tratamento desrespeitoso e sempre tentando diminuir a força e o papel importante que uma governadora exerce, por exemplo, é outro fator que a cada dia ganha mais espaço na mídia e nas redes sociais. E o pior: esse comportamento é reforçado através de comentários absurdos e repercussão entre as pessoas, como se natural isso fosse.

O pior de tudo é que, infelizmente, ainda temos mulheres, e na política principalmente, que assumem a postura machista, subserviente ao seu político, de estimação e passam a simplesmente incorporar o discurso machista, preconceituoso e misógino como seus.

A polarização dos extremismos que ganhou espaço e força no Brasil a partir de 2018, revelou também grupos de mulheres que trazem um discurso de valores ditos de direita – como se defender a família e a sociedade fossem privilégio ideológico – mas que na essência, mostram a sintonia delas com o machismo e a misoginia que dominam os espaços políticos ainda majoritariamente ocupados por homens.

Precisamos urgentemente que mais mulheres acreditem que é possível vencer todas essas distorções que a sociedade nos impõe, e busquem com cada vez mais força, a representatividade, baseada em valores e princípios sólidos e efetivos. Afinal, não basta somente discurso.

É preciso impor, a partir de atitudes firmes, o estabelecimento do respeito como fator fundamental para a construção de uma sociedade mais justa, igual e com espaços para todos e todas. E é preciso compreender de fato, que lugar de mulher é onde ela queira estar.

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