Cortejo para Yemanjá reafirma ancestralidade negra em Natal
Natal, RN 19 de jul 2026

Cortejo para Yemanjá reafirma ancestralidade negra em Natal

31 de janeiro de 2026
7min
Cortejo para Yemanjá reafirma ancestralidade negra em Natal
Pedro Feitoza

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A Nação Zamberacatu realiza, no próximo dia 2 de fevereiro, a 14ª edição do Batuque para a Rainha do Mar, cortejo em homenagem a Yemanjá que percorre as praias urbanas de Natal e se consolidou como uma das mais importantes manifestações culturais e religiosas ligadas às tradições de matriz africana na capital potiguar. A celebração reúne espiritualidade, música, memória e ocupação simbólica dos espaços públicos, reafirmando a presença e a resistência da cultura negra na cidade.

A programação começa ainda ao amanhecer, às 6h, com a saída do Laburé de Yemanjá, quando o presente à orixá parte do Terreiro da Prata em direção à praia de Ponta Negra, próximo ao Morro do Careca, para a entrega ao mar. À tarde, às 16h, acontece a concentração na Ponta do Morcego, em Areia Preta, de onde batuqueiros e participantes seguem em cortejo até a estátua de Yemanjá, na Praia do Meio, ao som dos tambores e cânticos.

A Nação Zamberacatu é um grupo cultural e comunitário de Natal dedicado à difusão dos ritmos afro-brasileiros, especialmente ligados às tradições do maracatu e dos povos de terreiro. Mais que um coletivo musical, o grupo atua na formação cultural, na valorização da identidade negra e na construção de espaços de convivência e fortalecimento comunitário, utilizando o batuque como instrumento de memória, resistência e afirmação cultural.

Para Oyá Iyalê, mestra da Nação Zamberacatu e produtora geral da festa, o cortejo representa muito mais que uma celebração religiosa. Segundo ela, trata-se de um movimento de reafirmação cultural e de retomada da ancestralidade negra em uma cidade que historicamente marginalizou essas expressões.

“O cortejo do Dia de Yemanjá representa, para a Nação Zamberacatu, uma retomada ancestral dos nossos valores, da nossa cultura, da nossa fé e da perpetuação da nossa sabedoria enquanto comunidade afro-religiosa e negra”, afirma.

Ela ressalta que a permanência da celebração ao longo de 14 anos mostra também que existe, em Natal, uma população que deseja se reconectar com essas raízes. “Embora Natal tenha historicamente invisibilizado e silenciado as expressões negras, existe uma parcela significativa da sociedade que deseja, precisa e anseia ser nutrida dessa ancestralidade, dessa força e dessas sabedorias”, pontua.

A mestra explica que o candomblé e as tradições de terreiro funcionam como espaços de preservação de memória e conhecimento coletivo. “O candomblé é uma grande fonte de memória e de conhecimento ancestral, uma tecnologia de cuidado coletivo que nos ensina a viver em comunidade”, diz. Para ela, levar essa celebração às ruas tem significado simbólico profundo: “Realizar uma festa de axé nas ruas de Natal, uma cidade que por muito tempo nos negou espaço e visibilidade, é um gesto potente de retomada desses valores.”

Segundo Oyá Iyalê, ocupar a cidade com batuque e espiritualidade também é uma forma de enfrentamento ao racismo e às violências sofridas pelas comunidades negras e pelos povos de terreiro. “Levar nossa fé para a rua é também uma forma de enfrentar o racismo, as violências e as múltiplas opressões que a comunidade negra e as religiões de matriz africana sofrem historicamente no nosso país e, de maneira muito marcada, na nossa cidade.”

Ela resume o sentido do cortejo como uma ponte entre passado e futuro: “Para nós, o cortejo é isso: uma retomada de valores ancestrais, de perspectivas e de sonhos futuros que estão profundamente alinhados com a nossa ancestralidade negra.”

Memória viva da Rainha Iracema

A celebração também homenageia a Rainha Iracema Albuquerque, considerada a matriarca da Nação Zamberacatu e uma das idealizadoras do cortejo. Filha de Yemanjá, ela é lembrada como liderança espiritual, cultural e comunitária que marcou profundamente a história do grupo.

“Iracema foi a nossa grande mãe, a nossa primeira mais velha, uma mulher que transitava por todas as esferas que dialogam com a Nação”, lembra Oyá Iyalê. Segundo ela, Iracema atuava tanto na dimensão religiosa quanto nas lutas culturais e políticas da comunidade.

Mesmo tendo convivido por apenas três anos com o grupo, sua influência permanece viva. “Ela foi a nossa grande iniciadora. Mesmo tendo estado fisicamente na Nação por pouco tempo, deixou um legado que permanece vivo até hoje. Seus valores e seu modo de cuidar da comunidade continuam nos ensinando.”

A liderança lembra que Iracema tinha uma capacidade especial de acolhimento e escuta. “Ela conseguia traduzir, na sua própria personalidade, o que são os valores do axé. No cuidado e na sensibilidade espiritual, percebia as pessoas e conduzia processos coletivos com sabedoria”, conta.

Por isso, segundo Oyá Iyalê, a presença da matriarca é sempre lembrada durante a celebração de Yemanjá. “Se essa festa existe até hoje, é porque os saberes, os cuidados e a presença espiritual de Iracema seguem vivos em nós.”

Ocupação cultural e política da cidade

Além do caráter religioso, o cortejo também se afirma como ato político e cultural de ocupação da cidade. Para Oyá Iyalê, essa dimensão sempre esteve presente na proposta do evento.

“O cortejo nasce com essa intencionalidade política, social e cultural, afirmando o direito de ocupar os espaços públicos com a nossa sonoridade, com os nossos valores e com a nossa cultura”, explica.

Ela destaca que a presença do batuque nas ruas ajuda a romper estigmas e ampliar o entendimento sobre os povos de terreiro. “Ao levar o batuque para a rua, ajudamos a desmistificar quem somos e a iluminar perspectivas sobre as religiões de matriz africana e a cultura negra.”

Ainda segundo ela, trata-se de uma ocupação guiada pelo respeito. “É um movimento que não se faz pelo confronto direto, mas pelo axé, pela presença, pelo som e pelo cuidado.”

Convite ao encontro e ao respeito

A Nação Zamberacatu também orienta os participantes a adotarem cuidados ambientais durante a entrega de presentes ao mar, evitando embalagens e materiais poluentes. A proposta é celebrar Yemanjá sem causar danos à natureza.

Para Oyá Iyalê, o cortejo é, sobretudo, um convite ao encontro. “O cortejo é um espaço de encontro, de respeito e de cuidado com a cidade, com as pessoas, com o mar e com a ancestralidade.”

Ela reforça o chamado para que mais pessoas participem da celebração. “Venham participar do cortejo, venham se conectar com essa energia, com esse axé. Permitam-se enxergar uma Natal que celebra a ancestralidade negra e respeita a diversidade religiosa, étnica e cultural.”

Assim, ao som dos tambores e sob a proteção da Rainha do Mar, o cortejo reafirma, ano após ano, que memória, cultura e ancestralidade seguem vivas nas ruas e nas praias de Natal.

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