Estilista potiguar leva visão de futuro com IA e tecnologia às passarelas da moda autoral
Nascido em Natal, o designer de moda Erico Valença construiu uma trajetória pouco convencional. Entre softwares de modelagem 3D, inteligência artificial, impressão tridimensional e técnicas tradicionais de costura, o potiguar desenvolve coleções que imaginam futuros possíveis e transformam a moda em uma ferramenta de reflexão sobre sociedade, tecnologia e meio ambiente.
À frente da marca ericovalença, fundada em São Paulo a partir de seu trabalho de conclusão de curso em Design de Moda, ele aposta na fusão entre criação autoral e inovação tecnológica para desenvolver peças que dialogam com universos inspirados pela ficção científica. A proposta, segundo o estilista, não é pensar como a moda se apresenta hoje, mas como ela poderá se manifestar diante dos desafios e transformações do futuro.
A relação com a criatividade começou cedo. Neto de costureira e filho de um sociólogo e de uma professora de linguagens, Erico cresceu cercado por referências diversas. Ainda criança, desenvolveu interesse por computação gráfica, desenho, astronomia e tecnologia. Mais tarde, sua formação passaria por áreas como programação, design gráfico, design de produto, ilustração, fotografia e moda.
Antes mesmo da criação da atual marca, ele já experimentava a moda como forma de expressão em Natal. Entre 2017 e 2018, criou a Estranha, projeto independente que funcionava como laboratório criativo para explorar suas ideias. “Não considero um empreendimento. Era uma forma de experimentar a moda e expressar meus interesses”, relembra em entrevista à Agência Saiba Mais.
Foi durante a graduação em Design na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que percebeu que seu caminho profissional estava ligado à moda. Em 2019, decidiu se mudar para São Paulo para cursar Design de Moda e buscar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento de uma carreira autoral.
“Em Natal eu percebia que não havia um mercado de moda fomentado para além do varejo. Eu queria misturar arte e produto, desenvolver algo autoral, e sabia que em São Paulo encontraria temporadas de moda, público consumidor e mais oportunidades para esse tipo de trabalho”, afirma.
A marca surgiu oficialmente em 2022, a partir do desfile de seu trabalho de conclusão de curso. O projeto chamou a atenção da curadora Olivia Merquior e foi convidado para integrar a programação da Brasil Immersive Fashion Week (BRIFW), evento dedicado à moda imersiva e às novas tecnologias.
“O meu trabalho acabou sendo convidado para desfilar em um grande evento ainda antes de eu concluir a graduação. Foi nesse momento que percebi que meu fazer de moda aconteceria dentro do meu próprio ateliê”, conta.
Hoje, a identidade da ericovalença está diretamente ligada ao uso de ferramentas digitais. Softwares 3D são utilizados para desenvolver modelagens e testar peças virtualmente, reduzindo desperdícios de material. A impressão 3D entra na criação de bolsas, aviamentos e acabamentos, enquanto a inteligência artificial auxilia principalmente na construção de conceitos e referências visuais para as coleções.
“Nunca uso IA para desenhar ou criar as peças. Não quero a máquina pensando por mim. Ela entra como ferramenta de pesquisa e construção de imaginário”, explica.
Além do aspecto criativo, a tecnologia também contribui para uma produção mais sustentável. A marca trabalha majoritariamente com matérias-primas orgânicas, recicladas ou com atributos sustentáveis e produz sob demanda, diminuindo descartes e etapas de prototipagem física.
Apesar da mudança para o Sudeste, o estilista afirma que Natal continua presente em seu trabalho. Mas não da forma tradicionalmente associada ao Nordeste.
“Quando fazem essa pergunta, geralmente esperam referências a Lampião, Maria Bonita ou à caatinga. Eu prefiro partir das minhas experiências pessoais”, diz.
Entre as memórias que aparecem em seus processos criativos estão as redes da casa dos pais, os pés de jambo, as dunas, as texturas formadas pela água nas pedras e as frequentes idas à praia durante a infância. Elementos que ajudam a construir os cenários futuristas presentes em suas coleções.
“Eu gosto de imaginar um futuro que se encante com a natureza e que dê oportunidade para todas as pessoas florescerem como indivíduos”, afirma.
A trajetória da marca ganhou novo impulso com a entrada na Casa de Criadores, um dos principais eventos de moda autoral do país. Após participar do concurso Sou de Algodão e desfilar no BRIFW, Erico foi convidado para integrar o Projeto LAB, iniciativa voltada à inserção de novos estilistas no mercado. Atualmente, é designer residente da plataforma.
Mesmo com os avanços, ele considera que sua construção profissional ainda está em andamento.
“No final das contas, ainda estou construindo meu espaço. A moda autoral é um mercado difícil, mas sigo acreditando no que faço”, diz.
Para os próximos meses, a agenda inclui um novo desfile na Casa de Criadores, a ampliação dos cursos oferecidos pelo Lab Valença, focados em modelagem 3D e desenvolvimento de coleção, além do fortalecimento da presença da marca em lojas físicas e da busca por oportunidades no mercado internacional.
Enquanto projeta os próximos passos, o estilista potiguar segue fiel ao conceito que orienta seu trabalho desde o início: usar a moda para imaginar futuros mais justos, sustentáveis e criativos do que o presente.
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