Bixanu ajuda a escrever um novo capítulo do rock potiguar
A Bixanu canta sobre angústias, revoltas e descobertas pessoais ao som de guitarras distorcidas, refrões explosivos e uma estética que dialoga com o rock alternativo, emo, o pop punk e o hardcore. Mas, por trás da sonoridade que remete a uma cena historicamente concentrada no Sul e Sudeste do país, está uma banda formada por jovens potiguares que faz questão de transformar as próprias vivências nordestinas em matéria-prima para suas músicas.
Depois de chamar atenção com o EP de estreia CandyPunk, conquistar o prêmio Revelação do Ano no Prêmio Hangar de Música e circular por festivais como o DoSol, o grupo inicia uma nova etapa da carreira com o lançamento de “Charismatic Charade”, single que antecipa o próximo trabalho da banda, o EP SourPunk.
A faixa mergulha em temas como identidade, preconceito, autoafirmação e transformação pessoal. Para a vocalista Bel Severiano, as composições surgem de experiências acumuladas ao longo da vida e da necessidade de transformar sentimentos em canções.
“Falar sobre elas em canções foi uma maneira que encontrei com o tempo de colocar para fora coisas que estavam engasgadas de alguma forma. Elas podem aparecer dentro de um exercício consciente, num momento em que eu e Hugo resolvemos sentar para compor algo, como podem surgir do nada em algum período de reflexão”, explica.
A música chega em um momento especial para a trajetória da Bixanu. Criada em 2024 por integrantes de Natal e Parnamirim, a banda rapidamente deixou de ser uma promessa da cena alternativa local para se tornar um dos nomes mais comentados do rock potiguar recente. O reconhecimento veio cedo. Em 2025, o grupo venceu a categoria Revelação do Ano no Prêmio Hangar.
“Ganhar o prêmio foi algo muito especial e surreal. A Bixanu é uma banda muito nova e boa parte de nós também está começando há pouco tempo no mundo da música. O prêmio veio como uma validação dos nossos esforços, das tentativas, dos aprendizados e também da paciência dos integrantes mais experientes com quem estava começando”, afirma o baterista Makárius.
Mais do que um troféu, o reconhecimento ajudou a confirmar que a aposta no projeto estava dando resultado.
“É bom ver que, dentre as rotinas tão corridas de todo mundo, a gente se dedicar a dar o melhor que temos para a Bixanu, seja cuidando das redes sociais ou ensaiando num dia de chuva, tem feito a gente colher frutos”, completa.
Fazer rock no Nordeste
Enquanto bandas de rock seguem disputando espaço em um mercado dominado por outros gêneros musicais, a Bixanu entende sua existência como um ato de resistência.
“É triste que tenha tanta banda de rock boa, bem estruturada e com uma trajetória massa aqui no estado e ainda assim a visibilidade siga muito mais forte para quem existe no eixo Sul-Sudeste. Fazer rock no Nordeste é ser resistência, ainda mais quando é alternativo e autoral”, afirma Bel.
A vocalista destaca, porém, que a cena potiguar tem se fortalecido a partir da colaboração entre artistas, produtores e espaços culturais.
“Temos apoio da Casa do Rock e do DoSol no fomento e uma cena muito massa que está sempre ajudando uns aos outros nas produções, estudos e afins.”
Esse sentimento de pertencimento também aparece na identidade artística da banda. Apesar da forte influência do emo e do pop punk dos anos 2000, os integrantes enxergam características tipicamente nordestinas na forma como produzem música e se relacionam com o público.
“Muitos dos nossos timbres têm um gosto ácido e energético que noto existir bastante nas bandas residentes no litoral nordestino. É um som quente”, diz Bel.
Ela cita ainda uma definição criada pela artista baiana Malfeitona para explicar a estética do grupo: “tropical darkzera”.
“Fazemos música para uma galera que curte os mesmos rolês que nós gostamos de frequentar. Acho que a principal identificação do público com a gente está nesse termo.”
Do quarto para os palcos
Se o rock independente sempre encontrou obstáculos financeiros para gravar e produzir músicas, a Bixanu decidiu apostar em uma alternativa cada vez mais comum entre artistas da nova geração: o home studio.
“Charismatic Charade” foi produzida por Hugo Valentim no Quarto Sem Cama, estúdio montado em ambiente doméstico. Segundo o músico, a experiência permitiu maior liberdade criativa durante o processo.
“Tivemos tempo para repensar os arranjos, discutir ideias e gravar a música de uma forma que nos deixou satisfeitos”, conta.
Para o baixista Caio Eduardo, o ambiente familiar também ajudou a tornar a gravação mais leve.
“O fato de a gravação ter sido na casa de Hugo trouxe um conforto que fez total diferença. Tivemos tempo de repensar algumas ideias antes de iniciar de fato o processo.”
Hugo acredita que a popularização dos home studios vem mudando profundamente a realidade da música independente.
“Antes as pessoas estavam reféns de um estúdio profissional, que na maioria das vezes era caro e inacessível para iniciantes. Hoje qualquer pessoa pode estudar e aprender como gravar sua música de forma independente.”
Se o primeiro EP da banda explorava frustrações amorosas, nostalgia e dilemas típicos da juventude, o próximo trabalho promete uma abordagem mais agressiva tanto nas letras quanto na sonoridade.
“O CandyPunk tem uma identidade mais próxima do pop punk, com temáticas agridoces, frustrações e um pouco de dor de cotovelo”, brinca Bel. “Já no SourPunk queremos mostrar um lado mais ácido e inquieto, com mais referências no hardcore e letras que falam sobre revoltas.”
A mudança acompanha o amadurecimento de uma banda que, em pouco mais de dois anos de existência, já coleciona apresentações importantes, participação em festivais e até uma campanha nacional para tentar levar o rock potiguar ao palco do Lollapalooza Brasil.
Agora, a próxima parada é o lançamento do primeiro videoclipe da carreira, justamente para “Charismatic Charade”, além da chegada do aguardado SourPunk.
“O futuro a gente não sabe exatamente, mas a vontade de construir ele é enorme”, resume Makárius. “Queremos estar em festivais, circular mais pelo Nordeste e quem sabe além disso. Ainda temos muita coisa para descobrir sobre o que podemos ser como banda, e isso é o que deixa tudo mais emocionante.”
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