Voltei a São Paulo por esses dias, cidade que abrigou a mim e a minha família durante nove anos, me deu trabalho, experiência, alguns títulos acadêmicos e muitas oportunidades de conhecer o mundo de gente e de lugares.
São Paulo de mil cidades, como já escrevi há um bom tempo, continua erguendo e destruindo coisas belas pela força de sua grana.
Nessa passagem rápida, com o tempo escasso, fui a duas livrarias, revi alguns entre tantos amigos queridos, conheci novas paisagens e revi, emocionado, de mãos dadas com minha filha Cecília, os corredores da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde estudei.
Na noite paulistana, conheci um bar dedicado à boa música, com som e luz adequadas, segurança no entorno e serviço de primeira, em que ninguém dança, só se escuta o desfile de pedras selecionadas por um DJ. Chama-se Formosa Hi-fi e ocupa uma passagem subterrânea do Viaduto do Chá, no centro da cidade.
Esse tipo de espaço, chamado de listening bar (bar de audição) é uma ilha de excelência em meio à escuridão, o mal cheiro e a presença inevitável dos moradores de rua do centrão paulistano, que tanto assusta a quem passa a vida no trono em seu apartamento com vista para o mar.
Naquele espaço elogiado por minha mulher arquiteta exigente, conheci Bento Araújo e o pessoal do projeto Três Selos/Fábrica Rocinante e testemunhei o relançamento do raríssimo Racional Volume 2, de Tim Maia, disco lançado nos anos 1970 pelo próprio cantor e relançado naquela noite pelo jornalista Bento Araújo.
Fiz aquele passeio obrigatório pela avenida Paulista com seu intrépido vai e vem de pessoas, de tipos, de carros, de bikes e motos pequenas, de entregadores de comida e de encomendas, de executivos de paletós e tailleur e muitos jovens de periferia exibindo correntes de pirita. Sempre apressados e de olho vidrado na tela do celular.
Procurei, em vão, os jornais do dia nas tantas bancas que ocupam as calçadas da principal avenida da maior cidade do país. Eles sumiram de vista e, quando aparecem, estão escondidos por trás de tudo que é bugiganga, espremidos por entre os pacotes de jornais para pets fazerem xixi e cocô.
E eu que sentia um prazer enorme de repetir a pergunta feita por Caetano Veloso em Alegria, Alegria – quem lê tanta notícia? – quando passava em frente às bancas de jornais da Paulista, fico cada vez mais sem resposta e sem alegria, como leitor e profissional-pesquisador do jornalismo.
Numa conversa com dois amigos professores universitários, em torno de uma feijoada de boteco, com direito a caipirinha e bisteca de porco, discutimos essa mudança. Um deles que ensina jornalismo na PUC-SP sugeriu, com sua visão de provocador, que os donos de jornais deveriam respeitar mais o valor da mercadoria que vendem, a começar triturando os exemplares boiados.
Para ele, as sobras das edições revendidas como tapete para pets ocupam não apenas invadiram o espaço físico antes reservado aos grandes jornais diários. Hoje, eles ocupam o espaço simbólico e a nobreza que os jornais com suas notícias sempre ocuparam. É como se os jornais morressem duas vezes, enquanto objeto de desejo e de valor, no sentido estrito e no sentido lato, no simbólico e no real.