Caso do acaso bem marcado em cartas de tarô
Natal, RN 23 de jun 2026

Caso do acaso bem marcado em cartas de tarô

23 de junho de 2026
5min
Caso do acaso bem marcado em cartas de tarô

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Tenho três amigas que jogam cartas de tarô, com quem converso com certa frequência. Todas sabem que não sou dado às coisas do sobrenatural e do não-visível e que me mostro, digamos, bem cético em relação aos mistérios e afins. Mas elas sabem que me interesso, e muito, pelo comportamento humano, daí ser pauta de muitas conversas abrangendo o campo de atividades delas.

Porque me fascina quem procure em algo para além do natural, respostas para dilemas e problemas do cotidiano. Nada contra, afinal, sou filho de pai que foi padre, mãe evangélica e com tias e tios espíritas, candomblecistas e mesmo um budista, de maneira que tolerância e respeito aos credos alheios aprendi desde pequeno e os preservo até hoje, na casa dos cinquenta e poucos. Não faço juízo de valor sobre o tarô ou qualquer forma de conselho e direcionamento espiritual/sobrenatural.

Mas voltando para meu fascínio e interesse, que tanto questiono as amigas do tarô, que me dizem que os negócios vão cada vez melhor de tanta gente que as procura, a questão que me perturba é: por que alguém haveria querer saber do seu futuro?

Porque, na prática, parece ser o que buscam ao recorrer à leitura das cartas. Se surgirá um bom emprego. Se está fazendo certo em aceitar uma transferência de cidade. Ou ainda – ou principalmente – se a pessoa amada realmente gosta dela, se é fiel ou se, já tendo ido embora, ainda voltará. Perguntas demais. Que as cartas respondem, pelo que ouço, e segundo as queridas, com bons índices de acerto.

Mas a questão que me pergunto é qual a real necessidade de sabermos do futuro, do que nos acontecerá. Como naqueles filmes de Hollywood que o protagonista é avisado da hora e data exatas de sua morte e passa a tentar evitar que o sinistro aconteça. Na vida real, eu, pragmático de carteirinha, prefiro racionalmente perceber se uma pessoa se encaixa na ideia que tenho da vida e de uma relação, em vez de saber se as cartas indicam se será “a pessoa certa”, tão citada em letras de pop-rock e canções populares.

Contudo, entendo que boa parte das pessoas queira uma validação do além. A realidade já é dura demais e os baques da vida nos fazem questionar nossa própria avaliação. Como saber se o certo, se é que esse conceito existe, é fazer o sonhado mestrado em outra cidade ou se casar com o namorado e ir morar numa casinha de sapê. Uma decisão difícil que pode ficar menos tensa se a tercerizarmos para as cartas.

Registrando que não há juízo de valor sobre tarô já que outras buscas por dicas espirituais funcionam da mesma forma. O cristão que ora para Deus responder sua prece, se deve guardar o dinheiro no banco ou comprar uma bicicleta e ouve um raio cair no momento, vê nele um sinal divino da decisão que deve ser tomada.

Nós, pobres ateus, é que não tendo para quem ou onde recorrer acabamos tendo de decidir com base num cálculo racional ou na base do par ou ímpar, mesmo. Faz parte. Na verdade, estou brincando. Descrentes de tudo podem, no frigir dos ovos, tomar decisões com base em qualquer coisa que esteja à mão, como uma música no rádio em um determinado momento.

No fim das contas estamos todos dependentes do acaso e dos mistérios, por mais que a Bíblia, o Corão, os orixás e os signos do tarô tentem codificar isso e apontar caminhos.

As amigas tarólogas registram que realmente a maioria das consultas gira sobre relações amorosas. Envolver-se (ou querer) com outra pessoa ainda é o leitmotiv maior de todos nós, pelo que percebo. O que não impede que eu leia reportagens sobre videntes (seja nas cartas, bola de cristal, borra de café ou comunicações espirituais outras) que se detém sobre temas como futebol mesmo. Uma matéria aponta um sensitivo garantindo que Portugal ganha a copa. Em outra reportagem, as cartas de tarô apontam que um time de camisa azul vencerá (o que nos remete à França de cara, mas o Brasil tem segunda camisa dessa cor).

Não sou mais tão criança a ponto de saber tudo, como cantou Renato Russo, portanto, não ponho meu dedo na cara de ninguém por buscar aconselhamento no mundo dos sentidos e mistérios. Talvez tudo esteja realmente escrito nas estrelas, como na música de Tetê Espíndola. E tudo não passe de um caso do acaso bem marcado em cartas de tarô, vai saber.

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