No fim do corredor, um sebo guarda histórias e memórias em Parnamirim
Natal, RN 28 de jun 2026

No fim do corredor, um sebo guarda histórias e memórias em Parnamirim

28 de junho de 2026
7min
No fim do corredor, um sebo guarda histórias e memórias em Parnamirim

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Quem passa apressado pela Travessa Brigadeiro Everaldo Breves, no Centro de Parnamirim, dificilmente imagina o que existe escondido atrás de uma discreta galeria comercial. É preciso desacelerar. Entrar. Caminhar por um corredor. No fim dele, entre estantes abarrotadas, capas amareladas, discos de vinil empilhados e objetos que parecem ter escapado de diferentes décadas, surge o Sebo Zahir. O lugar não chama atenção por uma grande fachada nem por letreiros luminosos. Seu encanto está justamente no contrário: em permanecer quase invisível para quem não sabe onde procurar.

Cada prateleira parece guardar mais do que exemplares usados. Há marcas de antigos donos, dedicatórias esquecidas, páginas dobradas e memórias que continuam viajando de mão em mão.

Por trás do balcão está Vicente Januário, de 64 anos, um homem que fala dos livros com o entusiasmo de quem nunca deixou de ser leitor. Há 21 anos ele mantém o sebo em Parnamirim, mas sua relação com esse universo começou muito antes. Antes de abrir o próprio negócio, passou mais de uma década trabalhando em um sebo em Natal, aprendendo os caminhos da profissão e convivendo diariamente com leitores, colecionadores e curiosos. Quando surgiu a oportunidade de ocupar uma pequena sala em Parnamirim, trazida pelo convite de um amigo que lhe falou sobre um espaço disponível na galeria, decidiu arriscar.

A decisão, porém, nunca esteve ligada ao desejo de enriquecer ou construir uma empresa nos moldes tradicionais. Vicente rejeita até mesmo a ideia de que tenha se tornado um empreendedor. Para ele, tudo começou e continua sendo movido por uma paixão antiga. “Não foi nem uma ideia de empreender. É uma questão de gostar dos livros mesmo. Desde menino eu gosto de ler. A gente vai alimentando esse gosto”, conta em entrevista à Agência Saiba Mais. O acervo inicial era pequeno. Durante anos, ele foi ampliando as estantes aos poucos, comprando coleções, recebendo livros de clientes, realizando trocas e incorporando exemplares que apareciam pelo caminho.

A biblioteca pessoal construída ao longo da vida continua preservada em sua casa. Ainda assim, ela frequentemente dialoga com as estantes do sebo. Quando alguém procura uma obra rara ou difícil de encontrar e o exemplar não está disponível na loja, Vicente às vezes recorre ao próprio acervo para atender o pedido. “Quando alguém procura um livro e eu não tenho aqui, às vezes eu tenho em casa. Aí pego da minha biblioteca particular. Depois aparece outro exemplar e eu recupero.” É uma relação pouco convencional com o comércio, mais próxima da lógica de um guardião de livros do que da de um vendedor.

Ao longo dessas duas décadas, o Sebo Zahir acompanhou as mudanças nos hábitos culturais da cidade. Houve um período em que revistas eram responsáveis por boa parte das vendas. Publicações esportivas, semanais de informação e até revistas adultas figuravam entre os itens mais procurados. Com a popularização da internet, esse mercado praticamente desapareceu. Os livros permaneceram, mas passaram a dividir espaço com outro protagonista inesperado: os discos de vinil.

Vicente observa com curiosidade o ressurgimento de uma mídia que muitos consideravam ultrapassada. Nos últimos anos, uma nova geração passou a frequentar o sebo em busca dos antigos LPs. Muitos são estudantes que descobriram o universo dos vinis através dos pais ou das redes sociais. Alguns chegam depois de ganhar um toca-discos de presente. Outros simplesmente se encantam pela experiência de ouvir música em um formato que exige tempo, atenção e ritual. “Tem uma turma jovem que está cultuando o vinil. Estão comprando discos e viraram clientes daqui”, relata.

A clientela também ajuda a derrubar alguns estereótipos sobre leitura. Segundo o livreiro, uma parcela significativa dos compradores de livros é formada por jovens, especialmente mulheres. Ao longo dos anos, ele percebeu que elas costumam frequentar mais o sebo e demonstrar maior interesse pela leitura. São observações acumuladas em milhares de conversas realizadas entre uma venda e outra, em um ambiente onde a troca de ideias parece tão importante quanto a circulação dos próprios livros.

Essa valorização do encontro presencial ajuda a explicar a resistência de Vicente ao universo digital. Embora o Sebo Zahir tenha presença nas redes sociais graças à iniciativa de uma cliente, ele próprio mantém distância desse ambiente. Não realiza vendas online e prefere o contato direto com os frequentadores. Para ele, boa parte da riqueza do trabalho está justamente na conversa que acontece antes da compra. “Eu gosto do cliente tete a tete. Gosto de conversar sobre livros, indicar leituras. Minha paixão é a literatura”, afirma.

Quem frequenta o espaço entende rapidamente o que ele quer dizer. Muitas vezes, uma visita que começa com a procura por um título específico termina em longas conversas sobre escritores, personagens, discos antigos ou acontecimentos da cidade. O Sebo Zahir funciona como um ponto de encontro informal onde diferentes gerações compartilham referências e descobertas. A lógica da permanência acaba se impondo sobre a da pressa.

Essa vocação para a convivência se torna ainda mais evidente aos sábados. Além dos livros e discos, o local também vende bebidas e recebe um grupo de frequentadores habituais que transformou o sebo em extensão da própria rotina. No final da tarde, as mesas começam a ser ocupadas. A conversa se espalha pelo ambiente. A televisão conectada à internet dá lugar ao karaokê. Amigos cantam, comentam músicas e prolongam a noite entre risadas e reencontros. Muitas vezes, Vicente só encerra as atividades perto das dez da noite. “É um lugar de convivência também”, resume.

Em uma cidade que cresce rapidamente e vê muitos de seus espaços tradicionais desaparecerem diante das transformações urbanas e tecnológicas, o Sebo Zahir permanece quase escondido no final daquela galeria. Talvez justamente por isso tenha se tornado um pequeno patrimônio afetivo para seus frequentadores. Não apenas porque guarda livros raros, discos antigos ou objetos difíceis de encontrar, mas porque preserva algo cada vez mais escasso: a possibilidade de descobrir histórias sem a mediação dos algoritmos.

O maior mistério do Sebo Zahir talvez não esteja em sua localização discreta, escondida dos olhares mais apressados. Está na capacidade de continuar reunindo pessoas em torno da leitura, da música e da convivência, provando que algumas experiências permanecem insubstituíveis mesmo em um mundo cada vez mais digital.

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