Um outro lockdown
Natal, RN 7 de jun 2026

Um outro lockdown

21 de março de 2021
Um outro lockdown

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Durante mais de um ano em que o mundo convive com uma pandemia que já ceifou a vida de 2.650.000 no mundo, 277.000 no Brasil e mais de 4 mil no Rio Grande do Norte, o negacionismo e a anticiência ocupam lugar de destaque no aumento exponencial do número de vítimas da covid 19.

Discursos sustentam métodos que incluem uso de cloroquina e de ivermectina como remédios para o tratamento precoce da doença, sem nenhuma comprovação científica. Junto a isso, a afirmação de que uso da máscara não diminui a possibilidade de contágio; que atleta não se contamina com a covid19; que o distanciamento social não é eficaz para a minimização dos casos; e que a vachina, sim, vachina, (nome cunhado para a vacina coronavac, por ter sido desenvolvida na China) tem uma baixa eficiência e eficácia, consequentemente podendo transformar as pessoas em Jacaré ou que possui um dispositivo genético que implantará chips nos cidadãos e cidadãs. São surreais essas fantasiosas anomalias tupiniquins que tem contribuído negativamente para a proliferação deste vírus mortal.

E por falar em distanciamento social, o lockdown (fechamento das cidades), desde o início da pandemia, tem provocado divergências. De um lado, os cientistas de botequim, os disseminadores de fake news das redes sociais, os pseudo-humanistas – aqueles que fazem discursos rasos e superficiais ao afirmar que estão preocupados com as pessoas que não irão morrer de Covid, mas de fome. Do outro, os cientistas de verdade com seus estudos sérios, fundamentados em estudos científicos que demonstram que o fechamento das cidades é extremamente importante para conter a maior disseminação do vírus e evitar a superlotação dos sistemas de saúde nas esferas públicas e privadas, o chamado colapso na rede hospitalar que produz um efeito cascata com a escassez de leitos e de profissionais para atender os milhões de vítimas pelo mundo afora.

Os defensores do “quanto pior, melhor” que bradam pelo funcionamento normal e invadem as ruas do Brasil, vestidos de verde, em “solidariedade” às pessoas que estão morrendo de fome tem aparência comovente. A fome não é um fenômeno atual, como podemos relatar em um dos trechos do relatório da ONU, de 2019. Antes da pandemia, já se mostrava que, após décadas de declínio constante, a tendência da fome no mundo, que é medida pela prevalência da desnutrição, foi revertida em 2015. Em 2018, mais de 820 milhões de pessoas no mundo ainda passavam fome. Nesse mesmo período, o Brasil estava caminhando com o imenso desafio de atingir a meta do Fome Zero até 2030. Mas não é o que temos visto. A pandemia revelou o quanto as prioridades mudaram. O processo cruel, responsável pela morte de muitos e sequelas permanentes para outros tantos, só se agravou com a chegada da pandemia. Nesse contexto, a fome é uma marca de uma sociedade excludente, que concentra a renda nas mãos de poucos e destrói as riquezas minerais, animais e florestais do planeta pela usura dos detentores no poder econômico.

Os papagaios de piratas que “invadem” as avenidas do Brasil com seu necrodiscurso individualista, deveriam saber que o lockdown na economia brasileira está em curso desde o início de 2015, quando começamos a descida da ladeira. O conjunto de medidas que apontava para a modernização do Estado e para o desenvolvimento pleno do país, só produziu o aumento do desemprego e a diminuição da massa salarial do trabalhador brasileiro: a aprovação da PEC 95, que congela os investimentos em políticas públicas por 20 anos; a lei das terceirizações; a desastrosa deforma trabalhista; o novo (velho) ensino médio; o fim da previdência e da possibilidade real da aposentadoria; a aprovação da PEC emergencial na semana passada que congela os salários do executivo por 15 anos e concede o auxílio para os mais “pobres”( a esposa do Deputado Federal Daniel Silveira recebeu e tem casos de empresários) por alguns meses. Tudo isso será responsável diretamente pelo maior aumento da desigualdade social no país, maior até do que a desigualdade produzida na ditadura civil/militar de 1964 a 1985. O aumento da desigualdade, ocorrida durante o regime militar, não se deu de forma natural, mas como fruto de políticas para conter a inflação que, entre 1964 e 1984, manteve uma média de 64,5% ao ano. Como toda economia era indexada, o governo determinava o valor dos reajustes salariais.

Esse conjunto de medidas nefastas produzirá no seio da sociedade brasileira um efeito direto na economia, algo que já é perceptível, porém que se agravará ainda mais em curto e médio prazo. Este “ciclo virtuoso da economia” será impactado diretamente com a diminuição do poder de compra. Parte significativa da classe média, que esbravejou contra o valor do preço da gasolina a R$ 2,80, do dólar a R$ 2,40, do aumento de R$ 0,20 centavos do transporte público e o surgimento da corrupção no Brasil, não poderá mais ocupar os shoppings centers para comprar o tênis para a corrida diária, a TV 100 polegadas ou o cafezinho depois do almoço. A classe média não poderá mais comprar o carro novo financiado, a casa nova financiada em 400 meses, a viagem para Europa em muitas parcelas de financiamento. Em breve, com o achatamento salarial, terá que cancelar a TV por assinatura, o plano de saúde, a escola particular e a diarista. Mas, e daí?

Eu não sou classe média. Constato no meu cotidiano o fato de que a maioria da população realmente não tem acesso aos bens, sejam eles materiais ou simbólicos. Vejo pessoas que vendem as TVs, o carro novo ou seminovo, a assinatura da TV; que trabalham nas pousadas, hotéis, escolas, supermercados, shoppings; que precisam trabalhar de 8 a 12 horas por dia. Esses trabalhadores que não terão mais seus empregos, em função da diminuição da massa salarial dos seus antigos cientes, também diminuirão a compra de bens de consumo.

Consequentemente, interromperão a cadeia econômica virtuosa, ou seja, o modo de produção capitalista doente, que, na versão tupiniquim, produz uma verdadeira antropofagia do capital nacional, que classifico como new lockdown à brasileira, um fenômeno que produz o fechamento dos postos de trabalho, o aumento da pobreza, a diminuição da massa salarial, o aumento da concentração da renda nas mãos de poucos, como constatamos pelos dados da ONG Oxfam.

Segundo o estudo desta organização, entre 18 de março e 12 de julho de 2020, o patrimônio dos 42 bilionários do Brasil passou de US$ 123,1 bilhões (cerca de R$ 629 bilhões) para US$ 157,1 bilhões (cerca de R$ 839,4 bilhões). Os dados compilados pela Oxfam foram extraídos da lista dos mais ricos da Forbes. Ou seja, no Brasil, a política econômica já produziu um fechamento ou cancelamento de sonhos.

E você, na condição de alienado, é que ainda não percebeu.

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