OPINIÃO

Cannes com sotaque nordestino

A 74ª edição do Festival de Cannes terminou ontem (17), com a entrega da Palma de Ouro, o prêmio principal, ao filme Titane, de Julia Ducournau, fechando um festival memorável e muito comemorado pelos brasileiros. Céu de Agosto, curta da diretora e roteirista Jasmin Tenucci, foi premiado com a menção honrosa do Júri Oficial. Também em competição na categoria de curtas, Sideral, filme potiguar, foi aplaudido de pé, fazendo história, já que foi o primeiro curta potiguar a concorrer à Palma de Ouro. E tivemos, no júri, um cineasta pernambucano: Kleber Mendonça Filho. Quer mais?

Depois de ter sido adiado várias vezes em 2020, Cannes fez apenas uma edição especial em outubro do ano passado, somente com a competição de curtas, a exibição de quatro filmes da seleção principal, a exibição dos filmes da seleção Cinéfondation e a Semana da Crítica com exibições on-line. Com a melhoria das condições sanitárias decorrentes da pandemia de convid-19, o festival presencial aconteceu com fatos históricos: teve o primeiro presidente do júri negro, o diretor Spike Lee, e pela primeira vez este mesmo júri foi majoritariamente feminino.

“Neste momento, o Brasil ultrapassou 500 mil mortes na pandemia. Nós sabemos por dados técnicos que se o governo tivesse agido, 350 mil pessoas teriam sido salvas. Eu poderia mencionar o que está acontecendo na Cinemateca Brasileira, que está fechada há cerca de um ano; 95 mil títulos, 230 mil rolos de filmes e fitas de televisão. Todos os técnicos e especialistas foram demitidos e essa é uma demonstração clara de desprezo pela cultura e pelo cinema”, declarou Kleber Mendonça Filho sobre a situação atual do Brasil na coletiva de imprensa concedida pelo júri na abertura do festival, em 7 de julho.

Sobre Céu de Agosto, que é protagonizado pela atriz potiguar Badu Morais, a diretora Jasmin Tenucci falou à Rádio França Internacional: “A ideia para o curta veio do dia 19 de agosto de 2019, diante de uma súbita escuridão no meio da tarde. Ninguém sabia exatamente a razão. Depois ficamos sabendo que era por causa das queimadas na Amazônia. A fumaça tinha viajado milhares e milhares de quilômetros, deixando o céu escuro e quando eu vi aquilo eu sentia como se fosse a materialização de um sentimento, como brasileira, naquele momento, diante de catástrofes e descuidos políticos, sociais e humanos.”

Carlos Segundo, diretor de Sideral, agradeceu à torcida potiguar em um grupo de produtores audiovisuais: “A jornada por aqui foi linda, com fortes e distintas emoções. Sideral foi recebido de uma forma incrível, sendo considerado por muitxs ao final da sessão um dos grandes favoritos à Palma (inclusive por Tang Yi, diretora ganhadora do prêmio)”, relatou o diretor. Saio de Cannes com a alma lavada, feliz pelos diversos encontros (alguns bem especiais) e certo de que voltaremos em breve”, concluiu.

O vencedor do prêmio principal, Titane, da francesa Julia Ducournau, é o segundo longa da diretora, e teve uma recepção controversa. “Um dos meus objetivos foi trazer o cinema de gênero ou os filmes ‘ovni’ aos festivais em geral, para deixar de marginalizar parte da produção francesa”, disse Julia em Cannes.

 

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