Fui diagnosticada com TDAH e altas habilidades há pouco tempo. Termos que estão na moda, e todo mundo mais agitado gosta de dizer que é também, sem ter noção do que realmente significa isso na prática. É angustiante ter uma mente que não para e não conseguir regular bem nossas emoções. Durante toda a minha vida, me culpei por atitudes que julgava serem desrespeitosas com pessoas que eu amo e que, na verdade, eram apenas a minha condição de pessoa neurodivergente.
Mas, na coluna de hoje, não pretendo aprofundar nesse campo. Vamos deixar isso para um outro momento. Gostaria de falar de forma mais abrangente com todas essas pessoas de mente acelerada. Desde o período de colonização, vivemos em um modelo de vida voltado para o desenvolvimento e o progresso. Na lógica colonialista, tempo é dinheiro; logo, parar e ter momentos que não envolvam produtividade é sinônimo de fracasso.
A maioria de nós se levanta cedo para trabalhar e passa o resto do dia “nos corre” para dar conta de uma agenda que, na maioria das vezes, é desumana. Fazemos um lanche porque não temos tempo para almoçar com tranquilidade, ouvimos os áudios dos nossos amigos na velocidade dois porque estamos com pressa, adiamos aquela visita à casa de um parente querido porque sempre existe algo mais urgente a ser resolvido, e assim a vida vai passando… por nós.
Pela minha condição, hoje tomo remédios e faço terapia, mas muitas coisas ainda precisam ser elaboradas na minha cabeça para que façam sentido no dia a dia, porque, quando associamos capitalismo, neurodivergência e racismo, temos o combo perfeito para destruir a psique de qualquer ser humano. Pessoas não brancas passaram por longos períodos de escravização. Isso é algo que jamais pode ser esquecido, porque desestrutura todas as gerações vindouras, se não quebrarmos o ciclo. Nos foi imposto, ao longo dos séculos, um esquema de exploração do trabalho e ausência de descanso que só não nos destruiu porque nossos mais velhos nos ensinaram a importância de parar e respirar, quer fosse cantando, dançando ou rezando para os nossos Orixás, Voduns ou Nkisis.
Mas foi uma pequena que me trouxe essa reflexão de hoje. Uma Erêzinha, me vendo inquieta em um dia de folga, perguntou-me o que estava acontecendo. Falei que achava que estava com depressão ou talvez fosse tédio mesmo. Ela abriu um sorriso divertido e disse: “Ou talvez titia só esteja em paz.” Desmoronei, e rimos juntas. A gente passa tanto tempo no automático que, quando para, sente falta da rotina estressante e acha que está sendo preguiçosa ou falhando de alguma forma. Aí vem a culpa… A gente nem descansa, nem faz o que acha que deveria estar fazendo.
Nosso cérebro, muitas vezes, está condicionado a viver em alerta, na defensiva e na expectativa de resolver conflitos que muitas vezes nem são nossos. Estamos sempre hipervigilantes e, quando finalmente estamos experienciando um momento de paz, a cabeça buga. Nosso cérebro não entende bem a diferença entre estarmos em paz ou estarmos entediados pela falta de conflitos, e isso sim precisa da nossa atenção, porque, até em relacionamentos, quando encontramos alguém que não nos desestabiliza e não nos deixa em alerta, achamos que não há paixão envolvida e buscamos o que nos é conhecido: aquilo que tira nossa paz. Mas isso também é tema para um outro sábado.
E você, já descansou hoje?
Ana Paula Campos (Lua Callin)- Indígena Potyguara, Cigana Calon, mãe atípica, candomblecista e juremeira, Professora da rede pública, escritora, pesquisadora orgânica, bailarina e cartomante.