OPINIÃO

Messi e o racismo nosso de cada Copa

A final da Copa do Mundo entre Argentina e França despertou um embate sobre racismo nas redes sociais que tem muito mais a ver com paixões do que com o preconceito em si.

Na ânsia de justificar a torcida pelos europeus, muita gente tem usado casos de racismo da imprensa e de torcedores argentinos contra o Brasil.

Amigos e colegas meus, inclusive.

Um amigo, ex-colega de faculdade, o maior fã de Luiz Gonzaga que conheço, é um deles.

Achou ruim quando disse que vou torcer para a Argentina de Lionel Messi.

E, bom provocador que é, disse que se Zico jogasse no Vasco contra o Liverpool ou Real Madrid eu não torceria para o time da cruz de malta.

Ele está certo.

Eu jamais torceria pelo Vasco. Mas não porque as duas situações se assemelham. É porque eu não tenho, com a Seleção Brasileira, a mesma identificação que tenho com o Flamengo.

Aliás, nem eu nem a maioria dos brasileiros.

Qualquer pesquisa que perguntar quem o torcedor prefere que seja campeão do mundo – o time do coração ou a Seleção – o clube ganha com mais de 80% de preferência. No barato.

Eu nasci no Brasil, torço pelo Brasil, fiquei puto quando a Croácia ganhou nos pênaltis, mas não deixei de almoçar nem de jantar – salve João Nogueira ! – quando Marquinhos mandou na trave o último pênalti das quartas de final.

Eu entendo a torcida contra a Argentina, o que pra mim tem muito mais a ver com a rivalidade alimentada por narradores ufanistas como Galvão Bueno do que com qualquer ódio gratuito entre os dois países.

Passei 14 dias em Buenos Aires em 2019 a trabalho. E só o que vi foi respeito e até devoção ao futebol brasileiro. No Obelisco, monumento que concentra torcedores após jogos importantes, fiz uma reportagem em vídeo com hinchas do River Plate, após a vitória contra o Boca Jrs, na semi da Libertadores.

Quando me identificava como jornalista brasileiro, sobrou abraço, elogios e, claro, aquela provocação básica de toda rivalidade.

Na festa da eleição de Alberto Fernandez, motivo da minha viagem a Buenos Aires, quando me identificava a eleitores argentinos como periodista brasileño o retorno era um sorriso, abraços e palavras como “Lula foi o maior presidente do mundo”, “Viva Lula!”, “Lula vai voltar!”.

Mas o que mais me cativou foi o trajeto do hotel até o aeroporto, na volta pra casa. No percurso que durou uns 30 minutos, fui despejando meu portunhol com o motorista da uber e, claro, futebol foi o tema central do papo.

Disse ao hermano que Messi era um gênio e perguntei se era essa também a percepção dele. Lembro dele ter desabafado sobre a ansiedade que os argentinos tinham de que La Pulga fosse tão bom na Seleção como era no Barcelona.

Eram outros tempos, Messi ainda não tinha conquistado nenhum título com a Seleção argentina. Em 2020, levou a Copa América, no final contra o Brasil, em pleno Maracanã.

Parecia, pela conversa, que eu gostava mais do Messi do que ele.

Depois perguntei sobre jogadores brasileiros, ele foi só elogios. Fui citando alguns nomes. Pelé, Rivelino (ídolo do Maradona), Zico, Romário, Ronaldo…

Todos grandes jogadores, na visão do meu amigo motorista. Mas quando eu disse o nome de Ronaldinho Gaúcho, o sujeito quase atravessa a pista e provoca uma tragédia emocionado.

Juro a você, que me lê agora, eu nunca vi nenhum brasileiro se emocionar tanto com um jogador como aquele motorista argentino, quando falei do Ronaldinho.

O sujeito falou tantos adjetivos num castelhano enrolado que só “malabarista” e “gênio” consegui guardar.

Os olhos dele brilhavam como, talvez, só dom Diego Maradona conseguisse.

Eu custo a acreditar que um brasileiro generalize os argentinos como um povo racista. O nosso umbigo é muito mais sujo que o do vizinho nessa pauta.

Não faz muito tempo, o Grêmio foi expulso da Copa do Brasil porque um torcedor chamou de macaco o goleiro Aranha, do Santos. Em Natal, o craque do ABC, Wallyson, foi vítima de racismo e injúria racial no futebol potiguar. Cânticos racistas e homofóbicos pululam nas arquibancadas e cadeiras especiais dos estádios brasileiros.

Na Europa, Daniel Alves comeu uma banana que atiraram da arquibancada. Vinicius Jr foi vítima de racismo da imprensa espanhola.

Para além do futebol, um funcionário do Carrefour asfixou até a morte João Alberto Silveira Freitas, um homem negro, dias após a execução de George Floyd, nos EUA. Homem negro com problemas mentais, Genivaldo dos Santos foi assassinado por policiais rodoviários em Sergipe dentro de uma viatura, transformada em câmara de gás.

A bala perdida nas favelas do Brasil sempre teve endereço certo: o corpo do preto pobre.

Essa semana, em Natal, uma mulher apanhou num condomínio por ter a cor da pele preta.

Há menos de um mês, num encontro de comunicadores em São Paulo, uma colega jornalista de um coletivo do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, falou uma frase que não sai da minha cabeça. Provocada sobre o que lhe dava esperança com o governo Lula que começa em menos de 15 dias, ela disse:

– Eu não tenho esperança porque eu tenho memória.

Silêncio na sala.

E desfiou uma lista de ações do governo Sérgio Cabral, com apoio do governo Federal, que empoderou milícias e acuou os moradores das comunidades periféricas.

Quando um brasileiro usa o argumento do racismo pra não torcer pela Argentina eu só consigo lembrar da obra-prima “Não somos racistas”, de Ali Kamel, diretor da Rede Globo.

É pra rir ?

Torçam contra ou a favor da Argentina. Torçam pelo Messi ou contra ele. Vibrem pelo MBappé, comemorem a França.

Façamos festa ou lamentemos a derrota em nome de quem a gente quiser.

Só não usemos o racismo como muleta para nossas frustrações.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"