CIDADANIA

Tradição, subsistência e criatividade: quem são as bordadeiras de Timbaúba-RN que subiram a rampa com Janja na posse de Lula

A escultura do pórtico anuncia a vocação de Timbaúba dos Batistas-RN: o bordado. De lá saíram as folhas e os arabescos que finalizaram e enriqueceram de significado o terno dourado da primeira-dama do Brasil, a socióloga Rosângela da Silva, Janja. O conjunto foi usado na posse do presidente Lula, dia 1º de janeiro de 2023, em Brasília-DF.

Dessa forma, o Rio Grande do Norte subiu a rampa do Palácio do Planalto, não só pelas pernas do potiguar Ivan Baron, mas também em um dos elementos de maior destaque da cerimônia. A roupa mais comentada dos últimos tempos tem muito do estado nordestino, a começar pelas estilistas.

Helô Rocha e Camila Pedrosa, também responsáveis pelo vestido de noiva da socióloga, são potiguares. Diversos veículos de comunicação repetiram que Helô é do Rio Grande do Sul e estimaram o preço da roupa, mas a própria designer corrigiu as informações. Em rede social, publicou:

“NÃO sou gaúcha! Sou Potiguar com muito orgulho e nossas roupas não custam 250 mil”.

Janja descreveu a vestimenta:

“O Brasil diverso, criativo e potente que tanto nos orgulha subiu a rampa do Planalto no domingo até nos mínimos detalhes do meu casaco – e isso me deixa muito feliz! Agradeço às Bordadeiras de Timbaúba RN, que fizeram o bordado em palha do meu casaco. E também aos artesãos de Dianópolis (TO) e Novo Gama (GO), responsáveis pelas maravilhosas peças feitas em capim dourado e capim colonhão que complementam o bordado. E, claro, a Helô Rocha e Camila Pedroza, pela reunião de tudo isto nestas peças lindas, confeccionadas com tecido de reaproveitamento e tingidas naturalmente, com caju e ruibarbo”.

Mulheres bordaram sem saber que o trabalho estaria na posse de Lula. | Foto: Isabela Santos

Mães, avós e tias costumam ensinar as meninas já crescidas, por volta dos 10 anos de idade, a darem os primeiros pontos. A história é parecida para as mais de 800 profissionais registradas em Timbaúba dos Batistas, que reivindica o título de capital do bordado do Brasil. Distante 304 quilômetros de Natal, com 2.427 habitantes (IBGE, 2021), as bordadeiras representam um terço de toda a comunidade local. Pelo que se conta, só  três homens também bordam na cidade.

Elas se organizam na Associação das Bordadeiras de Timbaúba, desde 1984, e 23 pessoas participam atualmente da Cooperativa das Mãos Artesanais de Timbaúba dos Batistas, que ocupa a Casa das Bordadeiras – usada principalmente para cursos, eventos e venda dos produtos, conquista do grupo coeso e dedicado ao artesanato, que já almeja a exportação internacional. O espaço abre de segunda a sexta, das 5h às 10h e das 13h às 17h, com o auxílio da funcionária Vereana, natural de São Bento, Paraíba, que também sabe bordar.

Vereana é quem costuma receber os clientes da loja da Casa das Bordadeiras. | Foto: Isabela Santos

Pessoas e processo

O junco

Na roupa da companheira de Lula, a palha seca do junco, cuidadosamente selecionada e aplanada, substitui a linha de algodão no “ponto rústico” costurado por cinco mulheres nos confins da região Seridó. Mas antes delas, outra mulher teve que colher a folhagem que nasce no fundo da Lagoa do Ferreira, município de Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte.

Só as folhas mais fortes vão ser costuradas no tecido. | Foto: Isabela Santos

Daquela água saem as folhas afiadas do junco, extensas como em nenhum outro ponto do estado, segundo Josa Artesã:

“Em uma câmara de ar, eu retiro o junco de dentro da Lagoa do Ferreira, onde ele tem três metros de comprimento. Nas outras lagoas, como Alcaçuz e Ilhota, o junco é pequeno”, conta Josa, explicando que o tamanho do capim é proporcional à profundidade da água e que isso depende também das chuvas.

Junco colhido na Lagoa do Ferreira. | Foto: cedida

“A ponta dele fica fora da lagoa. A gente vê uns fiapinhos. E o resto fica dentro, enraizado. A gente puxa e depois coloca pra secar por uma semana pra poder trabalhar”, detalha, ao acrescentar que a parte visível é descartada na seleção do material e o que fica no fundo da lagoa é usado.

Josa mora em Pirangi do Norte e borda à mão desde os 10 anos de idade. O pai, Francisco Estevam do Nascimento, que era chamado de Chico Vitor, contratou uma senhora para lhe dar o curso. Hoje, uma irmã, filho, filha, neta e quatro vizinhas se somam a Josa no alinhavar das folhas.

Aos 63 anos de idade, ela viaja  para vários lugares apresentando bolsas e outros produtos que costura: Natal, Recife, Belo Horizonte, São Paulo, Brasília – enumera.

Josa artesã enviou junco para Timbaúba. Foto: cedida

Assim como as mulheres de Timbaúba, a artesão trabalha com as estilistas há algum tempo e foi novamente procurada para esse trabalho, de maior repercussão.

“Eu sempre bordo pra Camila Pedrosa. Já fiz cintos e bolsas. Então, ela veio para eu fazer o bordado. Até então eu não sabia que era para Janja. Pedi para ela mandar as costureiras de ‘Caicó’, pois eu não dava conta. Como as meninas também já trabalham para ela, era mais fácil. Doei o junco para as meninas bordarem na máquina delas”.

Bordado tradicional do Seridó é feito em máquinas de pedal, que não precisam de energia elétrica para funcionar. | Foto: Paulinho

Josa achou que “não dava conta” porque sua especialidade é bordar com palha e agulha na mão, em juta, uma fibra vegetal de trama grossa, muito diferente da fina seda usada no final da confecção.

“Quando saiu na reportagem eu fiquei encantada”, lembra.

O bordado deveria ser feito de palha na organza tingida no chá mate.

Vários testes foram realizados até se chegar ao resultado. | Foto: Isabela Santos

Patinha

Quem aceitou o desafio de juntar os materiais antagônicos foi Valdineide Dantas, conhecida como Patinha. Ela tem 32 anos, é presidente da Cooperativa e coordena a equipe de trabalhos de Helô e Camila em Timbaúba. É responsável pelo design dos bordados (também  chamam “risco” o desenho feito no tecido antes de receber a linha) e revelou que a ideia inicial era fazer raios de sol, mas o processo levou a folhas e arabescos.

Desenho é feito primeiro à mão. | Foto: Isabela Santos

Até 1º de janeiro, guardou o segredo das estilistas na cidade. Nem mesmo as colegas que trabalharam no projeto sabiam do produto final.

“Eu convidei as meninas dizendo que era um teste para uma coleção nova de Helô. Foi incrível, porque eu sabia que quem tava fazendo ia ficar muito feliz quando descobrisse. E ao mesmo tempo eu imaginava o rosto das que não puderam fazer. Eu tive que guardar o segredo e se eu dissesse que era de Janja ia faltar tecido na cidade, todo mundo ia querer fazer ao menos um lado da folha”.

Patinha aprendeu a bordar com a mãe, Ana Francineide, aos 11, e nunca fez curso na área. É graduada em Ciências Contábeis, já atuou como contadora e ainda é requisitada para esse tipo de trabalho entre os familiares, mas não se identifica como com o bordado.

Patinha era a única em Timbaúba dos Batistas que sabia para onde iam aqueles bordados. | Foto: Isabela Santos

Daliane

Daliane Rucelli, 30, casada e com duas filhas, começou por volta dos 9 anos de idade. Também aprendeu com Ana Francineide, que é sua tia. Assim, é prima-irmã de Patinha, já que moraram juntas na época, começo em que dividiram a mesma máquina de bordar. Até o dia em que teve uma surpresa. E um susto.

“Minha avó comprou uma máquina, dividiu em 12 vezes de 50 reais e disse: agora você vai trabalhar pra pagar. E eu comecei a trabalhar. Eu tinha uns 11 anos. Eu comecei com o ponto matiz, acabamento, bainha crivo e Richelieu. Depois fiquei fazendo bordado recém-nascido (granito e ponto doido) e sempre quis aprender o ponto rústico. Fiz um curso e comecei a trabalhar ele também”, esmiuçou a trajetória.

Daliane trabalhou aos 11 anos para pagar a primeira máquina. | Foto: Paulinho

Aline

Aline Fernandes, 33 anos, também filha de bordadeira, quando chegou à Casa das Bordadeiras só sabia um ponto. Aprendeu todo o resto lá. Ela morava na zona rural e no início ia todo dia no transporte escolar, sentia que com orientação aprendia melhor.

“Eu sempre tive muita força de vontade de aprender. Se você fizer o curso e não ficar treinando, vai esquecer os pontos. Helô [Rocha] sempre tem uma coisa nova, um ponto novo. Cada vestido de noiva que chega é um desafio”.

Aline comemora a conquista de saber que o trabalho está em todos os lugares, em reportagens e na Presidência da República. “Espero que abra muitas portas pra Helô, inclusive porque ela sempre quer colocar a gente nas coisas dela”.

Aline se dedica a aprender mais. | Foto: Paulinho

Iranilda

“Era assistindo a posse e chorando. Ver nosso bordado em uma rampa daquela…”, contou da emoção Quena, nascida Iranilda Batista. Os primeiros contatos com bastidores e máquina foram aos 12 anos. Ela é a quinta filha de sete. Aos 52, é a mais velha no grupo das bordadeiras e lembra que as meninas aprendem cedo pra ajudar às mães.

“Os pais não tinham emprego, só roça. Mamãe sempre bordou pra sustentar a casa”.

Assim ela também criou os filhos, hoje com 26 e 14 anos de idade. Por muito tempo bordou pra outra pessoa vender e cita Carminha (Maria do Carmo), que era considerada a mãe das bordadeiras de Timbaúba.

Na tarde da entrevista, mostra um bordado com o nome de Lula em vermelho e dourado e com orgulho lembra do dia que foi convidada com o grupo para um almoço com a socióloga e, ao chegar, se depararam com o casal.

“A surpresa foi grande. Foi um dia de princesa. A gente nunca imaginava encontrar com Lula e Janja. Ele perguntou sobre a cooperativa e falamos sobre a organização do trabalho.”

Quena fala da emoção de ver o seu trabalho subir a rampa do Planalto. | Foto: Isabela Santos

Acileide

Acileide Cavalcante, 47, fala com orgulho de já ter vivido tanto. Ela começou a bordar escondida da mãe, que achava 10 anos de idade muito cedo pra começar.

“Ela dizia que eu era muito nova, dizia que eu ia me furar. E eu me furava mesmo. Pra puxar aquela agulha do dedo era horrível, mas eu ficava bem caladinha, não dizia nada. Quando saía pra cozinha pra fazer o almoço eu sentava lá”, se diverte com a própria travessura.

A mãe criou os três filhos com o bordado e parou agora, aos 75 anos:

“A maioria das mulheres aqui é assim, só deixa de bordar quando adquire uma aposentadoria, porque depende do bordado pra sustentar suas famílias.”

Acileide aprendeu a bordar escondida da mãe. | Foto: Isabela Santos

A exposição nacional aumentou a curiosidade em torno do tradicional bordado seridoense. O perfil no Instagram das Bordadeiras de Timbaúba saiu de 1.600 seguidores para mais de 10 mil e outros estilistas as procuraram para conhecer o processo e os valores.

Para além das produções maiores, a vida segue normal no pequeno município e elas continuam vendendo em casa, na loja e sob encomenda o artesanato.

Espaço fica localizado no Centro de Timbaúba. | Foto: Isabela Santos

Simbolismo e valor agregado

De acordo com a professora do curso superior de Tecnologia em Design de Moda, do IFRN Caicó, Layla de Brito Mendes, a roupa em destaque é cheia de simbolismo, tanto por mostrar o belo trabalho das mulheres que o executam em comunidade, quanto “pela valorização das vocações locais, por enfatizar que, apesar de a moda ser um fenômeno global, os aspectos locais, culturais podem ser trabalhados com inovação e criatividade”.

Timbaubenses demonstram pontos do bordado. | Foto: Paulinho

Layla, pesquisadora da área de Estudos de Tendências, lembra que apesar de haver tanta tecnologia disponível à indústria da moda, o trabalho manual é capaz de agregar muito valor a uma peça, pela exclusividade e história.

“O bordado manual, por ser uma prática que faz parte da nossa história, muitas vezes é visto como ultrapassado e ‘fora de moda’. Mas a roupa da primeira-dama nos mostra que as tradições podem ser revisitadas e apresentadas com elegância e modernidade. A grande graça da moda é essa, é a mistura entre o local e o global, a tradição e a inovação.”

Janja subindo a rampa ao lado de Lula e Janja com a cadelinha Resistência | Foto: Agência Senado/ Reuters

Questionada se há um traço sexista nos holofotes dados à vestimenta da primeira-dama, a especialista alerta que seria machismo resumir a roupa apenas ao aspecto estético, gosto pessoal, ou se fosse traduzida em valores que a sociedade ainda considera essenciais a uma mulher: recato, submissão e fragilidade.

“Moda também é comunicação”, atesta Layla Brito.

“Ela fez escolhas muito assertivas e isso sim precisa ser comentado, pois reflete um posicionamento político.”

No artesanato, nos materiais e na forma. Com a calça, Janja “comunicou que a mulher não pode mais ser vista na sociedade apenas como uma figura frágil. A calça permite o movimentar do corpo, coisa que é necessária pra quem está ali para trabalhar, para exercer um papel ativo”, destacou a professora, ressaltando que calça é uma historicamente relacionada ao trabalho e por muito tempo foi limitada aos homens, os responsáveis pelo trabalho não doméstico e pelo sustento das famílias.

“Eu vejo essa simbologia da primeira-dama vestindo calça no dia da posse, como se dissesse ‘eu estou aqui para trabalhar e enquanto mulher também faço parte da construção da sociedade’.”

Bordado feito por Quena, em Timbaúba dos Batistas. | Foto: Isabela Santos

 

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais