“Somos seres humanos”: A realidade de ser migrante africana em Natal
Natal, RN 28 de mai 2024

“Somos seres humanos”: A realidade de ser migrante africana em Natal

6 de março de 2024
8min
“Somos seres humanos”: A realidade de ser migrante africana em Natal
À esquerda: Eliane Sofia, de 30 anos. À direita: Tânia Alves, de 35 anos.

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O sonho e a curiosidade de conhecer o Brasil trouxeram Tânia Alves, 35, e Eliane Sofia, 30, de países africanos para Natal, no Rio Grande do Norte. A proximidade de culturas despertou o interesse de ambas para viver a experiência de morar no país.

Em Cabo-Verde, o Brasil é muito presente”, conta Tânia, cabo-verdiana que chegou aqui em 2007 por meio de um programa que oferece vagas em universidades públicas a estudantes africanos. “O Brasil está praticamente em todos os lugares no meu país. Desde as músicas, as roupas… lá, se o biquíni for brasileiro, ele é o melhor”, relata.

De acordo com informações do Sistema de Registro Nacional Migratório (SISMIGRA), em 2023 o RN era o 4º estado da região Nordeste a ter a maior quantidade de migrantes, atrás da Bahia (1º), Ceará (2º) e Pernambuco (4º), com residências principalmente em Natal, Tibau do Sul, Parnamirim e Mossoró.

Tânia chegou aqui em Natal para estudar Ciências Contábeis na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atualmente, ela trabalha como trancista, realiza alguns trabalhos informais na área em que se formou e também é estudante de Pedagogia. Ela conta que a língua, o clima tropical, a questão financeira e a diversidade que “mostravam afora” sobre o Brasil foram fatores que a fizeram escolher o país.

Sempre foi um sonho conhecer o Brasil, independente de vir para cá estudar ou não. Por que eu vim? Na verdade, quem escolheu isso foi o meu coração”, conta.

A história é parecida com a de Eliane Sofia, que veio de São Tomé e Príncipe para o Brasil há dez anos, em 2014, inicialmente para o estado do Ceará (CE). Atualmente, ela faz mestrado em Serviço Social na UFRN. “Eu cresci dizendo que queria estudar fora e depois voltar para o meu país, para dar à minha mãe e aos meus familiares uma vida melhor”, conta. Ela finalizou a graduação no Ceará e, há um ano, chegou em Natal, também para estudar.

As duas mulheres compartilham vivências parecidas no que diz respeito aos objetivos que as fizeram chegar até aqui e também a respeito do processo de adaptação em terras estrangeiras. Logo ao chegar no Brasil, a cabo-verdiana Tânia precisou lidar com dificuldades que até então não conhecia. Além da dificuldade com a língua, já que, como ela conta, em Cabo-Verde a língua portuguesa tem o sotaque mais parecido com o de Portugal do que com o Brasil, ela também sentiu os obstáculos de ser uma mulher negra africana em terras brasileiras. 

Temos a visão do Brasil como um país muito diverso, então a gente compreende que o jeito que a gente é não vai fazer muita diferença”, explica. “Então, pra mim, o racismo foi um choque de cultura. No início a gente não entende, porque não estamos acostumados com o racismo. A gente aprende na teoria, mas na prática, lá [em Cabo-Verde e na África como um todo] todo mundo é igual. No início, a gente só se incomoda e fica estranho, mas não entende os comentários. Entender que aqui é um país racista foi muito doloroso”, relata.

A carência de conhecimento dos brasileiros com relação ao continente africano foi uma decepção para Tânia. “A falta de informação foi uma das coisas que mais me decepcionou. A forma com que a mídia mostra a África atrapalha bastante. Quando cheguei na universidade, as pessoas não sabiam literalmente nada da África, pelo menos não no setor onde eu estudava. Isso atrapalha bastante no sentido do pertencimento. É muito importante entender a história da África de antes da colonização”, reafirma a cabo-verdiana.

O processo de adaptação árduo também acompanhou Eliane Sofia. “Quando eu cheguei no Brasil, me deparei com questões raciais. Lá no Ceará, quando procurava casa pra alugar e perguntavam minha nacionalidade, eu respondia que era africana, e lá o pessoal costumava aumentar o valor do aluguel para nós africanos, colocando uma barreira”, relata. “Aqui em Natal, também enfrentei questões com a moradia. Enquanto esperava o resultado da residência universitária, tive que ficar numa casa onde o espaço não era adequado. Eu dormia num quartinho bem pequeno, no chão. Passei fome e adoeci. Minha saúde mental estava péssima. No meu país eu nunca passei por questões de fome, a gente come o que a terra produz.”

Já para Tânia, as dificuldades do racismo e da xenofobia também passaram a ser uma realidade em diferentes áreas da vida, incluindo as vivências na universidade. “Uma vez, na sala de aula, teve um momento em que o professor disse ‘por mais incrível que pareça, Tânia tirou a melhor nota’. Eu fiquei confusa e, na hora, não entendi se era um elogio”, conta a cabo-verdiana.

Eu fui entendendo que era racismo e que eu precisava me impor e me reafirmar como mulher negra para me fortalecer, porque lá [em Cabo-Verde], eu era só um ser humano, uma cidadã africana”, desabafa Tânia. “O racismo me atrapalhava muito na questão do silenciamento. Ele fazia eu me calar e me anular.”

Nas relações, o preconceito também se fez presente na vida de Tânia. “Nos relacionamentos, as pessoas não me assumiam. Terminavam comigo e do nada começavam a namorar com uma mulher branca e andava pra cima e pra baixo com ela de mãos dadas. E eu me perguntava o motivo por eu não merecer aquilo”. Para além dos relacionamentos amorosos, a dificuldade para fazer amizades também foi grande. “Eu era a única negra da minha turma e a única que pegava ônibus. Meus amigos eram da UFRN como um todo: os movimentos sociais, o Diretório Central dos Estudantes (DCE)... Mas da minha sala mesmo, não houve esse vínculo”. 

Ela ainda ressalta como a solidão da mulher negra perpassa todas as esferas da sociedade. “Essa solidão está até no silenciamento de não podermos falar das nossas dores, porque a gente já parte do princípio de que as pessoas não vão entender e ter empatia”, desabafa a estudante.

O preconceito e a discriminação é duplo: além de ser negra, a realidade de ser mulher migrante africana também passou a afetar as relações da cabo-verdiana. Por não ter se casado e nem ter tido filhos, ela entrou com o processo para conseguir a nacionalidade brasileira pelo tempo em que já morou aqui. “Mas, durante um período, me relacionei com uma pessoa que, além de retirar minha existência por eu estar sem documentação, e me ver como uma pessoa errada e não confiável, já olhou pra mim e falou: eu vou casar contigo pra te ajudar”, conta. “Isso me deu um nó na cabeça. Como assim pra ajudar, não é pra casar comigo de verdade, pra gente ficar juntos? Naquele momento, ele me desumanizou”, relata.

A vivência compartilhada como forma de enfrentamento ao racismo 

Foi no movimento negro e feminista que Tânia encontrou uma forma de se reafirmar como mulher negra e passou a entender mais sobre o racismo. “Eu comecei a entrar dentro das rodas de conversas desses movimentos para poder entender aquilo que me atrapalhava e que eu não entendia porque me atrapalhava. Também comecei a estudar sobre a história do Brasil e a entender o processo de embranquecimento e de como a mulher negra estava na base da pirâmide.”

Tânia narra sobre como entendeu que precisava se afirmar como mulher e negra para conseguir combater o racismo. “Diante das violências e dos abusos com as mulheres como um todo, eu entendi que as violências sobre meu corpo como mulher negra vinha muito mais forte. Eu compreendi pois senti na pele”, conta. “O Brasil não aproveita a potência da mulher negra. Se aproveitasse, seria maravilhoso”.

Para Eliane Sofia, as coisas começaram a tomar um rumo melhor quando ela passou a ter uma rede de apoio. “Minha orientadora, colegas de turma e o pessoal da universidade foram os que me acolheram”, relata. “Eu também tive acesso a profissionais da saúde maravilhosos.” 

Ela ainda ressalta que, depois que conseguiu essa rede, não se sentiu mais desamparada.  “Mas, uma coisa que acontece e que me deixa muito triste é a questão do racismo. Acredito que as universidades deveriam trazer mais diálogos em relação a isso. Nós estrangeiros e africanos temos os mesmos direitos e somos seres humanos”, desabafa.

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