Letramento racial: as vivências de uma mãe solo negra em Natal
Natal, RN 19 de jun 2024

Letramento racial: as vivências de uma mãe solo negra em Natal

19 de maio de 2024
8min
Letramento racial: as vivências de uma mãe solo negra em Natal
Flávia Carvalho I Foto: reprodução redes sociais

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Desde março de 2023, Regina dos Santos Araújo e Suedja Marcia dos Santos Araújo são rés por agressão contra uma vizinha de apartamento. As duas ficaram incomodadas com o fato da vítima, uma mulher negra, morar no mesmo condomínio, localizado na Zona Sul de Natal, que elas.

As imagens das agressões captadas pelas câmeras de segurança do elevador se tornaram públicas e foram anexadas a um processo cível e outro penal aos quais Regina e Suedja, mãe e filha, respondem atualmente, apesar da tentativa de esconder-se do oficial de Justiça para evitar receber a notificação.

Saiba +

Acusada de racismo diz não ter tido tempo para defesa; caso é de 2022

Morando em outro endereço desde as agressões, em dezembro de 2022, Flávia Carvalho, que trabalha como gerente comercial, também é empreendedora e possui negócios em diferentes ramos. Ela falou com a Agência Saiba Mais sobre como está a vida desde o episódio de racismo, como isso impactou sua rotina e como explicou o ocorrido para as duas filhas, que à época tinham 9 e 14 anos. Confira:

Saiba Mais – Você já havia passado por algum caso de racismo anteriormente?

Flávia Carvalho - O racismo é uma estrutura, ele está presente e permeia toda a sociedade. É impossível uma pessoa negra, mesmo que ela não tenha conhecimento do fator histórico de todo o peso da escravidão, de toda desumanização da pessoa negra, de todo o genocídio, essa herança da subserviência da pessoa negra presente até hoje, não viver racismo diariamente, né? Isso fala sobre as pessoas da favela, que são majoritariamente negras, estamos falando sobre um fator social que é um monstro. As coisas são muito mais difíceis para mim enquanto mulher negra, enquanto base dessa sociedade, dessa estrutura em todos os aspectos. Dos espaços conquistados, de carreira, de acesso para tudo. Já fui xingada de macaca em restaurante quando era muito mais jovem, quando ainda não tinha consciência do que significava aquilo, do quanto e porque aquilo me ofendia tanto de não saber reagir. Já fui convidada a utilizar o elevador social de um condomínio de classe média, que não era o meu. São muitos, inúmeros, os, os relatos, os fatos que a gente vive por causa do racismo diariamente... é absolutamente cotidiano. 

Flávia Carvalho I Foto: reprodução redes sociais

SM - No dia das agressões você disse que não gritou pedindo ajuda para que suas filhas não vissem aquela cena. Como foi explicar isso para elas?

FC - Essa segunda pergunta é a mais difícil de responder, porque é revisitar o momento que eu acho que foi mais difícil para mim, de fato. É muito difícil falar sobre isso sem chorar até hoje. Quem estava em casa era a Ágata, morávamos eu, Ágata e Helena naquele apartamento. Eu sou separada do pai das meninas já há bons anos e o Adriano é meu companheiro atual. Nós estamos juntos há cinco anos, mas no Quatro Estações [condomínio onde moravam] éramos eu e as meninas. A Helena eu tinha deixado na escola naquele dia e voltei para casa porque a Agatha estava sozinha e eu estava me sentindo muito vulnerável naquela circunstância por causa da discussão do dia anterior, quando ela [Regina] havia me ameaçado. Eu tinha colocado a Ágata no meu quarto exatamente pra ela ficar quietinha, protegida enquanto eu voltava, ela estava com 9 anos. Eu tinha muito medo de gritar porque eu tinha medo dela aparecer, dela abrir a porta. Quando eu voltei no apartamento, depois que a polícia subiu comigo e o Adriano chegou, ela me viu machucada e...nossa, horrível. Ela começou a chorar desesperada. O Adriano pegou a Ágata, passou na escola e pegou a Helena, e levou para casa da mãe dele. Minha sogra é um amor de pessoa, trata as meninas como netas. Ela me ajudou muito nesse momento e acolheu as crianças na casa dela. O mais difícil foi a meninas me verem machucada e ter que explicar para elas o que é que tinha acontecido. É muito triste ainda lembrar de tudo isso. 

SM - Como trabalha essa questão em casa? 

FC - As meninas são conscientes. Falo para elas que são filhas de uma mãe negra solo, que a vida delas não vai ser facinha, que a educação é a única porta, é o único caminho para que elas consigam ter uma vida digna. E eu invisto bastante na educação das meninas, para mim é fundamental que elas estejam em uma boa escola e que elas construam esse futuro. Eu bato muito nessa tecla da educação, educação, educação. Tem que estudar porque é a única via que a gente pode ter, construir dignidade e melhoria, além desse letramento racial. Entender qual é a posição no mundo, o que passa, porque passa por situações de racismo, como enfrentar isso... não baixar a cabeça. A melhor maneira de tratar é com diálogo, conhecimento, educação, educação. É a base para a dignidade. 

SM - Esse episódio chegou a interferir no seu psicológico?

FC - Profundamente... pelo medo que eu sentia... primeiro foi a surpresa. Parece que foi em câmera lenta, aquele um minuto e pouco... 2 minutos... não sei quanto tempo foi exatamente, mas durou uma eternidade. A raiva com que a Regina me segurava no chão, me prendendo pelo cabelo, me apertando sobre o chão e a Suedja sobre mim, ela montou em mim para me bater e eu fiquei absolutamente imóvel. Eu não tinha reação, eu tive medo de morrer, eu não sabia o que que poderia acontecer comigo. Eu tive medo da minha filha abrir a porta e ver aquela cena. Foram muitas coisas que me afetaram naquela circunstância de violência. Quando a gente passa por uma situação de violência física, você não sabe qual é o limite, você não sabe onde é que aquilo vai dar... além da humilhação, de se sentir diminuída, impedida de voltar para a própria casa. É um misto de sensações. Não tenho palavras para descrever essa sensação de impedimento, de ter direito de estar onde você quer estar, onde você pode estar, de ter pessoas incomodadas de você estar ali e qu te impedem de ter uma vida normal. Não tem como passar ileso. Eu faço terapia até hoje, já fazia antes, mas foi extremamente necessário esse suporte psicológico e durante os três primeiros meses ali foi bem árduo. Fiquei muito abalada, muito triste, não tenho palavras para descrever. 

Flávia Carvalho I Foto: reprodução redes sociais

SB – Como era a relação com os outros moradores do condomínio, afinal você já morava lá há cinco anos?

FC - Eu sempre tive uma boa relação com os meus vizinhos, inclusive duas das minhas vizinhas fizeram um depoimento a meu favor. A Regina falava mal de mim para os vizinhos, eu sabia disso porque as vizinhas me contavam, induzindo as pessoas a irem contra mim, falando sempre desse barulho que ela escutava da minha casa, perguntando se as pessoas também não ouviam, sabe? Mas a minha relação com as pessoas do entorno sempre foi boa. Eu tinha um bom relacionamento com a dona Ana, que é a síndica e foi a única pessoa do condomínio que me deu algum suporte, também com os porteiros, com o pessoal da administração. Nunca fui uma pessoa de estar na casa de vizinhos ou conviver diariamente, até porque trabalho bastante e fico muito tempo fora de casa. Mas sempre tive uma relação amigável e tranquila com todas as outras pessoas. 

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.