Repórter trans ganha as telas no jornalismo televisivo do RN
Natal, RN 20 de jul 2024

Repórter trans ganha as telas no jornalismo televisivo do RN

16 de junho de 2024
5min
Repórter trans ganha as telas no jornalismo televisivo do RN
Foto: reprodução @mellreporter

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O Rio Grande do Norte tem uma repórter trans numa das principais emissoras de televisão do estado. Mellyssa Almeida, a Mell, estreou neste mês como repórter do Jornal do Dia, da TV Ponta Negra. É a realização de um sonho para a mulher nascida em Macau, no litoral do Rio Grande do Norte, que desde criança já sonhava em trabalhar com jornalismo.

“O meu interesse pela comunicação é desde que eu me entendo por gente, desde que eu nasci praticamente. Eu ficava assistindo aqueles programas de TV e me imaginava apresentando, sendo repórter. E sempre foi meu sonho. Eu nunca gostei de brincar com outras coisas. Meu sonho era ser apresentadora infantil”, conta Mell, hoje com 30 anos.

Uma das dificuldades, contudo, era conseguir fazer isso em Macau, pequeno município de 27.369 habitantes. A realidade mudou quando, aos 12 anos, surgiu uma emissora de TV na cidade. Mell, como é conhecida, tinha um grupo de dança na época e foi fazer uma participação no estúdio. O apresentador gostou do que viu e a convidou para fazer um teste. Ela passou e ficou na emissora por um tempo, até que a TV fechou.

“Então os meus sonhos do jornalismo ali na minha cidade acabaram. E aí eu fui seguindo outras coisas”, diz.

Acabou se formando como guia de turismo e técnica de eventos. Mas a comunicação nunca saiu de vez do seu coração.

“Eu não tinha condições de pagar uma faculdade de jornalismo e fui esquecendo aquilo, porque achava que era um sonho distante pra mim”.

Em 2020, contudo, conseguiu iniciar a faculdade de Jornalismo em uma faculdade privada de Natal. Era pandemia e as aulas aconteciam de modo EaD. Em 2021, se muda para Natal e começa a estudar presencialmente. Depois, por indicação de um amigo, participou de um concurso de repórter para a TV Futuro, filiada à TV Cultura. Estava reticente, mas topou o desafio, gravou um vídeo e foi aprovada, até ganhar a oportunidade de participar da transmissão do Carnatal de 2022. 

Através daquela participação, ganhou visibilidade e foi convidada para um outro projeto, o programa Deixa Comigo, nas manhãs de segunda a sexta-feira. Entrou como repórter, mas depois precisou sair por incompatibilidade de horários. O jogo virou novamente quando, em outubro do ano passado, a Ponta Negra lançou uma ação especial, o “Você na Nossa Casa”, em que convidava telespectadores para conhecerem a emissora. Lá, conheceu a apresentadora do Jornal do Dia e uma das donas da TV, Micarla de Sousa. Preparada, Mell já havia levado um currículo, que deixou com Micarla. A empresária gostou do que viu. Dias depois, recebeu uma ligação para passar por um período de três dias de teste.

“Desses três dias, passei 15 dias, e no 16º dia, fui contratada”, conta.

A partir disso, iniciou trabalhando na produção do programa É Notícia e depois do Patrulha da Cidade. Agora, está na produção do Tá na Hora. Em fevereiro e março, ainda fez participações na programação do carnaval. Já no início deste mês, recebeu um aviso da própria Micarla: estrearia como repórter do JD, atuando de vez como repórter.

“Eu me tremi na base, mas estamos aí. Essa é a segunda semana que a gente está no ar no JD, todos os dias, de 13h15. É um grande avanço na sociedade, uma quebra de barreiras, uma quebra de paradigmas o que a TV Ponta Negra está fazendo”, atesta Mell Almeida, na entrevista concedida à Agência Saiba Mais na última quinta (13). A estreia veio em 3 de junho, falando sobre a programação da Semana de Meio Ambiente. 

Desde então, vieram outras pautas e novos desafios. Para Mell, a oportunidade de trabalhar com jornalismo numa das principais emissoras do estado é também uma quebra de estereótipos e da marginalização das mulheres trans e travestis.

“Esse espaço que nós damos hoje é importantíssimo não só para mim, mas para outras que podem me ver e dizer ‘eu também posso’. Porque na minha época eu não tive em quem me espelhar e dissesse ‘eu sou que nem ela, eu vou conseguir’”, diz.

Mell segue estudando Jornalismo, desta vez na UnP, e quer seguir sendo exemplo para outras pessoas trans.

“Eu estou começando agora, mas eu já levo uma luta muito grande para a TV do Rio Grande do Norte. Então, eu espero que outras pessoas possam ver nisso uma oportunidade de crescer também”, afirma.

“Eu não quero ser a primeira e única. Eu quero ser a primeira de muitas que vão vir, até que todas possam conquistar esse espaço, que tenhamos pessoas trans na medicina, que tenhamos pessoas trans na educação, na cultura”, elenca.

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