Engenheiro aponta dois crimes ambientais na obra de engorda de Ponta Negra
Natal, RN 19 de jun 2026

Engenheiro aponta dois crimes ambientais na obra de engorda de Ponta Negra

26 de agosto de 2024
7min
Engenheiro aponta dois crimes ambientais na obra de engorda de Ponta Negra

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O professor aposentado do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), João Abner, denuncia que a Prefeitura do Natal estaria cometendo dois crimes ambientais por causa da obra de engorda da Praia de Ponta Negra, cartão postal na Zona Sul de Natal. O 1º seria uma infração ao Artigo 54 (parágrafo 2º, inciso IV), que considera crime o ato de dificultar ou impedir o uso público das praias; o 2º seria uma violação ao Artigo 55, que define como crime quem executa pesquisa, lavra ou extração de recursos minerais sem a competente autorização, permissão, concessão ou licença, o que pode resultar em pena de detenção de seis meses a um ano, além de multa.

Não há nenhuma licença ambiental que permita àquela empresa se instalar ali e colocar aquelas tubulações na Via Costeira! Por causa das tubulações, as pessoas não poderão passar pela praia, é uma tubulação de alta pressão. Teria que haver um acompanhamento e fiscalização. Essa obra não foi licenciada, não há estudo sobre isso, se limitaram a levantar informações apenas de Ponta Negra. Deveria ter feito um cronograma, avisar a população, os proprietários dos hotéis, mas não fizeram nada!”, denuncia João Abner, que além de professor foi fundador do curso de pós-graduação de Engenharia Ambiental da UFRN.

Imagem: reprodução legislação ambiental
Canteiro de obras com tubulações da DTA Engenharia na Via Costeira I Foto: Mirella Lopes

O engenheiro detalha outro agravante, o de que o licenciamento obtido junto ao Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) não contempla a área da jazida e que, para conseguir conquistar a opinião Pública, foram divulgadas informações deturpadas.

“O mais grave é executar pesquisa, lavra ou extração de recursos minerais sem a competência, autorização ou licença. A licença que se tinha era para a engorda, não para exploração de jazida. A dragagem é um ponto muito preocupante porque existe uma desinformação muito grande sobre isso. A mídia do estado está desinformando a população. Eles estão dizendo que a captação dessa areia vai ser a sete quilômetros, mas é mentira. Vai ser entre 400 e 500 metros da praia. Sete quilômetros é a distância em linha da Praia de Ponta Negra até a frente do Farol de Mãe Luíza”, esclarece.

A área de engorda terá quatro quilômetros de comprimento por 100 de largura. Segundo a Prefeitura do Natal, a obra vai garantir uma faixa de areia de 50 metros na maré cheia e de até 100 metros na maré seca. 

Imagine a quantidade de areia que será preciso para formar um milhão de metros cúbicos. Esse material vai ser retirado da frente da Via Costeira, a 400 metros da praia e pode chegar a cinco metros de profundidade. Pode gerar um impacto extraordinário nas praias de Via Costeira que já vem sofrendo perda de solo, também vai atingir a Praia de Areia Preta, Miami, Praia do Meio…”, projeta o professor.

Estudos realizados durante o período de licenciamento apresentaram diferentes locais para a possível extração da areia, mas foi escolhido o local mais perto da praia.

“Eles escolheram foi o mais próximo possível da praia para facilitar o transporte, mas não tem um estudo ambiental, nada, nada, nada que identifique o impacto disso sobre a própria Via Costeira e as praias de Areia Preta, Miami e Praia do Meio. Isso é um absurdo”, alerta Abner.

Canteiro de obras da DTA Engenharia na Via Costeira I Foto: Mirella Lopes

O professor aposentado da UFRN conta que tentou fazer a denúncia junto a diferentes instituições, como Ministério Público Estadual, Ministério Público Federal e Procuradoria do Estado, mas sem sucesso. João Abner também conta que só tomou conhecimento da obra da engorda de Ponta Negra depois que a questão se tornou pública, devido ao embate entre o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) e a Prefeitura do Natal.

Ao procurar os documentos referentes ao pedido de licenciamento para a obra, o professor aposentado conta que ficou surpreso com as lacunas de tempo entre a entrega de documentos e com a falta de estudos.

Data de 04 de outubro de 2017 o pedido inicial feito pela Prefeitura do Natal de licenciamento prévio para as obras de contenção da erosão que já havia sido identificada numa área que vai desde o Morro do Careca, na Praia de Ponta Negra, até o Hotel Serhs, na Via Costeira.

Em resposta a esse pedido, o Idema entregou, em julho de 2018, o Termo de Referência para elaboração do estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), que devem ser realizados por quem solicitou a autorização para a obra. Após receber o Termo, a Prefeitura do Natal tinha um prazo de 180 dias (cerca de seis meses) para entregar os estudos do EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental/ Relatório de Impacto Ambiental). Porém, esses documentos só foram entregues pela administração municipal ao Idema em 25 de agosto de 2022, ou seja, 3 anos e 7 meses depois.

Imagem: reprodução

A primeira surpresa foi com o espaço vazio entre o pedido e entrega de estudos. No material descritivo, que é o 1º documento com orientações para o Executivo, notei que são três obras diferentes e não uma só: a dragagem de uma jazida, a engorda, que é a alimentação costeira, e o prolongamento do enrocamento”, expõe.

“São três obras diferentes com impactos diferentes. O impacto da engorda é mais durante a execução da obra, o que preocupa é a dragagem da jazida subaquática. Apesar de ser a primeira no memorial, não há nada de estudo sobre isso. Há vício de origem”, reforça Abner.

Apesar da licença emitida pelo Idema, a obra de engorda da Praia de Ponta Negra ainda não foi iniciada até esta segunda (26). A DTA, empresa vencedora da licitação para executar o serviço, instalou um canteiro de obras na Via Costeira.

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