Artista potiguar estreia em exposição que investiga memória e colonialidade
Natal, RN 19 de jun 2026

Artista potiguar estreia em exposição que investiga memória e colonialidade

19 de junho de 2026
6min
Artista potiguar estreia em exposição que investiga memória e colonialidade

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As paisagens do interior do Rio Grande do Norte, os ritos da espiritualidade, as marcas da colonização e os vestígios que permanecem no corpo e na memória se encontram em "Alfândega", nova exposição individual do artista visual potiguar Alcino Fernandes, aberta ao público a partir deste sábado (20), na Pinacoteca do Estado, em Natal.

Com curadoria de Maria Sucar e Walter Arcela, a mostra reúne pinturas, objetos e esculturas que atravessam temas como deslocamento, pertencimento, ancestralidade e memória. O percurso expositivo propõe uma reflexão sobre aquilo que permanece, mesmo quando não pode ser plenamente nomeado: gestos, lembranças, símbolos e afetos que atravessam gerações e se manifestam no corpo.

A origem do projeto remonta a uma residência artística realizada por Alcino em Tiradentes, Minas Gerais, através do Instituto Rouanet em parceria com o Festival Artes Vertentes. Ao chegar à cidade histórica, marcada pelas heranças do período colonial, o artista passou a observar semelhanças entre aquelas paisagens e os cenários do semiárido potiguar onde cresceu.

"Percebi que a relação do corpo com o território é sempre de uma memória seccionada, convertida em aproximação para dali se sentir parte", explica em entrevista à Agência Saiba Mais. A partir dessa percepção, começou a construir um conjunto de obras que aproximam experiências pessoais e coletivas, transformando elementos do cotidiano em imagens atravessadas por histórias, afetos e disputas de memória.

O título da exposição também nasce dessa investigação. Embora remeta ao espaço físico de controle de mercadorias e fronteiras, a "alfândega" imaginada pelo artista é um território simbólico.

"Aqui ela acontece de maneira muito mais subjetiva. Recolho dessa palavra a ideia de um espaço onde coisas ficam retidas, interrompidas. Imagino pensamentos e sentimentos como imagens não endereçadas a ninguém, habitando o inconsciente, produzindo desejo e produzindo sintoma", afirma.

Essa dimensão subjetiva se desdobra ao longo da mostra em trabalhos que transitam entre o sonho e a realidade. Nas pinturas, objetos e esculturas, elementos reconhecíveis aparecem reorganizados em novas relações, deslocando seus significados habituais. O resultado são cenas que evocam mistério e estranhamento, sem oferecer respostas prontas.

Para Alcino, o corpo não pode ser separado do território que habita. As paisagens, os sons, as crenças e os rituais também constituem a experiência corporal. Umbandista, ele reconhece a influência direta da espiritualidade em seu processo criativo.

"Há uma forte presença do imaginário de terreiro nas obras, mas ele interage com uma maneira muito onírica de observar a mim, ao mundo e às relações sociais. Tudo se organiza como em um sonho febril", diz.

Essa relação entre espiritualidade, ancestralidade e criação aparece em imagens que dialogam com matrizes afro-ameríndias, ao mesmo tempo em que incorporam referências do semiárido nordestino. Em vez de representar diretamente essas tradições, o artista busca reorganizar símbolos e objetos em novas narrativas visuais, convidando o público a experimentar as obras mais pela sensação do que pela interpretação literal.

A exposição também marca um novo momento em sua trajetória. É a primeira vez que Alcino apresenta uma escultura dentro de uma mostra individual. O trabalho tridimensional vem sendo desenvolvido desde 2025, quando participou de uma residência artística no Rio de Janeiro, explorando processos com madeira e barro fermentado.

Segundo ele, a pintura e a escultura se alimentam mutuamente. Algumas formas surgem primeiro sobre a tela e depois ganham corpo no espaço; em outros casos, o caminho ocorre de forma inversa.

"Não existe necessariamente uma ordem. Às vezes a pintura cria a escultura ou o contrário. Todos os trabalhos possuem um não dito que se escancara em dúvida", explica.

Mais do que transmitir uma mensagem específica, o artista espera que os visitantes se permitam permanecer diante das obras e construir suas próprias relações com as imagens.

"Torço para que caminhem por entre os trabalhos e se sintam convidados a entrar nesse espaço, a observar. Há algo muito bonito sendo construído que dialoga bastante com o silêncio das coisas", afirma.

Para ele, a experiência da exposição não termina quando o público deixa a galeria. Se as imagens continuarem reverberando na memória dos visitantes, a travessia proposta por "ALFÂNDEGA" seguirá em curso.

"A ideia de alguém ver meu trabalho e, de alguma forma, continuar pensando sobre aquelas imagens já é uma maneira de prolongar uma alfândega."

Trajetória

Formado em Design pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Alcino Fernandes desenvolve uma pesquisa artística centrada na terra como espaço de elaboração simbólica e fabulação. Sua produção articula pintura, processos vivos e construção de corpos-objeto, explorando imaginários afro-ameríndios e materialidades do semiárido para pensar questões relacionadas à racialidade, memória e território.

Em 2024 realizou sua primeira exposição individual, "Você disse que sabia amar", na Galeria Yves Alves, em Minas Gerais. Também integrou a Coleção Potiguar do Banco do Nordeste, apresentada na Pinacoteca Potiguar, participou da circulação da mostra "Nordeste Expandido" e foi o primeiro artista residente do Instituto Rouanet em parceria com o Festival Artes Vertentes.

Entre 2025 e 2026 participou do programa GAS, da Galeria Anitta Schwartz, no Rio de Janeiro, além de integrar a exposição "Incorpografia – Exposição de Performance Arte", realizada na Galeria Álvaro Santos, em Sergipe. Atualmente, também participa da mostra de acervo da Aura Galeria, em São Paulo.

Serviço
Exposição: ALFÂNDEGA
Artista: Alcino Fernandes
Abertura: 20 de junho de 2026
Local: Pinacoteca do Estado do Rio Grande do Norte

SAIBA MAIS:
Exposição usa ruído imagético para pensar corpo e identidade transmasculina

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