Janela de oportunidade: como o hidrogênio verde pode transformar a indústria do RN
Mizu cimentos I Foto: reprodução
Por Isabela Santos e Mirella Lopes
Baraúna é um município, na região Oeste do Rio Grande do Norte, que fica a 317 quilômetros de Natal, na divisa com o Ceará, e conta com quase 27 mil habitantes. O número é insuficiente para encher a arquibancada do estádio Arena das Dunas em uma partida de futebol, considerando que o local tem capacidade para mais de 31 mil pessoas. Mas é nesta pequena cidade onde será instalada a primeira fábrica movida a hidrogênio verde (H2V) do Brasil.
A iniciativa é resultado do entendimento, assinado em agosto deste ano, entre o governo do estado, a CPFL Energia, empresa do grupo chinês State Grid, e a Mizu Cimentos, do grupo Polimix. A estimativa é que a cadeia produtiva da fábrica seja movida a H2V a partir de 2027, em substituição aos tradicionais combustíveis fósseis derivados do petróleo. Com isso, 12,5 toneladas de dióxido de carbono (CO2) deixarão de ser jogadas na atmosfera por ano. A redução total da emissão de gases na unidade da Mizu Cimentos, em Baraúna, será de 56% até 2030, considerando os níveis de 2021.
“A China quer ampliar as relações comerciais e o Brasil e o Rio Grande do Norte têm grande potencial para negociações bilaterais. A China valoriza a cooperação com os estados do Nordeste, especialmente o RN, hoje o maior parceiro comercial”, comentou a cônsul-geral da China, Lan Heping, durante assinatura do contrato, em agosto deste ano.
Até 2030, serão investidos R$ 40 milhões em tecnologia na fábrica. A planta piloto vai utilizar energia renovável de um parque eólico da CPFL para a geração do hidrogênio verde que, por sua vez, será usado nos fornos rotativos da fábrica para a produção do clínquer, principal componente do cimento.“Esse é o primeiro contrato de produção e comercialização do Brasil. Isso foi muito emblemático e teve repercussão muito grande no mercado, no governo federal e até internacional. Já recebemos várias empresas interessadas nesse modelo que desenvolvemos, que é buscar as indústrias locais com potencial para fazer a transição energética, saindo dos derivados de petróleo para o hidrogênio. Isso exige um mapeamento e rendeu um parceiro que vai produzir o H2V a um custo competitivo”, revela o secretário Adjunto de Desenvolvimento Econômico do RN (Sedec-RN), Hugo Fonseca.

Por causa da alta produção de energias renováveis, o Nordeste guarda o maior potencial do país no setor. Depois de perder algumas disputas econômicas para estados vizinhos, como o Hub da Latam para Fortaleza (CE), desta vez o Rio Grande do Norte saiu na frente e, além da primeira fábrica do país movida a hidrogênio verde, também possui 12 protocolos de intenções. De acordo com informações da Sedec-RN, até o momento, os demais estados têm apenas memorandos de entendimento, que não têm valor de contrato.
Na Bahia, por exemplo, a Unigel anunciou em 2022 o investimento de US$1,5 bilhão na construção de uma fábrica de hidrogênio verde. O projeto nunca saiu do papel, a empresa está em recuperação judicial e os fornecedores contratados tentam vender os equipamentos encomendados. Já no Ceará, os primeiros investimentos concretos no segmento estão previstos apenas para 2025.
“No Rio Grande do Norte, há projetos em licenciamento, parcerias já firmadas e projetos de menor porte, focados na indústria nacional, porque quando você consegue desenvolver a indústria nacional ou local, isso ganha escala. Você começa menor, ganha expertise, consegue desenvolver o mercado, consegue desenvolver os fornecedores e a partir daí aumenta os projetos e infraestrutura necessária. Com isso, você tem mais rapidez no desenvolvimento e foi isso que o estado fez”, metrifica Hugo Fonseca.
O fator RN
Fontes de energias renováveis são responsáveis por 98% da matriz energética do Rio Grande do Norte, com a energia eólica correspondendo a 86% da potência instalada. Ao todo, o RN tem 304 parques eólicos, além de 16 parques em construção e 63 já contratados, o que garantirá um acréscimo de três GWs de potência instalada nos próximos anos.
Em meio a tantos dados e informações, é importante saber que a vantagem potiguar na produção de hidrogênio verde está no excedente de energia renovável produzido pelos parques eólicos, necessário para a geração dessa nova energia.
Atualmente, o RN gera 12 gigawatts (GW) em eólicas por hora, mas consome apenas 2 GW, o que faz do estado o maior produtor do país, com 32% de participação na geração de energia nacional. É esse excesso que será empregado na indústria do H2V. O mercado é promissor, segundo a Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV), que espera superávit de R$ 75 bilhões até 2030.
Falar sobre a troca de um tipo de energia poluente por outra limpa pode parecer simples, uma questão de vontade. Mas a verdade é que isso envolve ainda uma complexa cadeia e elevado custo de produção, na casa dos bilhões de dólares.
Além de desenvolver a indústria local, o Rio Grande do Norte tem potencial de passar a ter importante papel na indústria nacional. No Brasil, 85% da matriz energética é de fontes renováveis e 15% de fontes que emitem CO2. Porém, a maior parte da fonte de energia utilizada na indústria ainda é poluente, incluindo as áreas têxtil e de cimento, que utilizam calor como da queima de carvão mineral na maioria de suas fábricas. Apenas 47% da energia utilizada pelo setor é renovável. Ou seja, há um mercado a ser explorado no processo de descarbonização da indústria.
“O Rio Grande do Norte está com o cavalo selado! Aprendemos com eólica onshore [em terra] como gerar energia limpa e para nós faz todo o sentido produzir energia verde. Temos condições de atender diversos tipos de mercados consumidores, desde aqueles que procuram um hidrogênio de baixo carbono até aqueles que procuram o mercado do hidrogênio verde”, opina o pesquisador do Serviço Nacional da Indústria (Senai-RN) em energias renováveis Raniere Rodrigues.
“Estamos no melhor momento para mostrar ao mercado exterior que podemos produzir esse hidrogênio e colocar valor agregado. Faz muito mais sentido que transportar somente a molécula, transportar o que esse hidrogênio pode produzir, amônia, aço verde e outros elementos.”, completa, considerando que o mercado internacional tem necessidade não apenas da energia, mas de produtos considerados verdes, ou seja, cujo processo de produção tenha responsabilidade ambiental.
“Uma empresa dinamarquesa acabou de fechar contrato com a Mercedes Benz para produzir o aço verde que será utilizado nesses carros. Por que não pegarmos todo o nosso potencial de exploração de minério de ferro e, ao invés de exportar commodities [produtos primários], produzir o aço que vai para essa indústria? O segredo agora é estruturar essa cadeira produtiva, formar a mão de obra, para que a gente deixe de produzir somente a commodity e passe a produzir aquilo que tem valor agregado. Precisamos aproveitar esse momento de grande produtor de energia elétrica e começar a colocar produtos de valor agregado no mercado. Por que não atender a demanda industrial que a Europa não tem mais condição de assumir?”, sugere o pesquisador do Senai-RN.
A indústria europeia é mais limpa, apesar de ter menos fontes de energia e mais metas de descarbonização, acrescenta o pesquisador e professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Mario González.
“É onde o hidrogênio verde entra para descarbonizar a indústria, deixá-la mais limpa. Podemos aproveitar esses excedentes para produzir hidrogênio verde para uso na indústria nacional e exportação. Não dá para exportar energia elétrica para Europa… se tivéssemos uma linha de transmissão até daria, mas teria um custo e seria complexo. Hoje o que existe é exportação de gás natural, petróleo, amônia…pode-se negociar o hidrogênio, que é de interesse de países asiáticos e da Europa, um dos principais é a Alemanha, que vem investindo no Brasil, Chile, Marrocos e Austrália, distribuindo mercado para comprar esse hidrogênio para que a matriz energética dela seja limpa e eles cumpram a meta deles tratada no Acordo de Paris sobre os objetivos de descarbonização”, relata.
Se no presente, o Rio Grande do Norte já disponibiliza 10 GW por hora na rede do Sistema Nacional de Abastecimento só de energia eólica, a estimativa é que o estado alcance os 140 GW/h nos próximos anos com a chegada das usinas offshore (no mar). Existem 14 usinas em licenciamento no Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente) que somam mais de 20 GW de potência instalada.
Entenda o que é hidrogênio verde e como é produzido
O hidrogênio é um dos elementos químicos mais abundantes na Terra. Ele está, por exemplo, na fórmula da água (H2O) e, para transformá-lo em “verde”, é preciso ter dois recursos em grande quantidade: água e “energia limpa” para quebrar as moléculas do líquido, já que o H₂V é produzido a partir da eletrólise (reação química provocada pela passagem de corrente elétrica).
Cerca de 70% do custo de produção do hidrogênio considerado ecológico está na eletricidade. Para ser verde, o H₂V não pode ser produzido a partir de fontes poluentes, como usinas térmicas (com queima de carvão) ou uso de combustíveis fósseis, que emitem gás carbônico.
Há seis tipos de hidrogênio e suas cores estão ligadas à sustentabilidade:
CINZA: produzido a partir do uso de combustíveis fósseis, principalmente gás natural, liberando CO2 na atmosfera;
AZUL: também é produzido a partir da queima de combustíveis fósseis, como o gás natural, tendo como sobra o dióxido de carbono (CO2), que é capturado. Porém, uma parte ainda escapa para a atmosfera;
ROSA: produzido com energia nuclear;
BRANCO: obtido a partir de processos geológicos, como no caso da liberação de gases do magma;
AMARELO: feito a partir de fontes mistas;
VERDE: é considerado limpo por ser produzido com recursos renováveis e fontes de energia verde.

Tipos de hidrogênio representado por cores
No Rio Grande Norte, o hidrogênio verde já é produzido em pequena escala, nos laboratórios da UFRN e do Senai.
No momento, a Usina de Itaipu é a que possui uma planta mais adiantada com produção de hidrogênio verde em pequena escala para alimentar um veículo de maneira experimental. A Unicamp (Universidade de Campinas) e Maricá (Rio de Janeiro) também desenvolvem projetos experimentais.
“O hidrogênio ainda está em desenvolvimento. Alguns estados dizem que estão usando ou são maiores produtores… mas, não é nada disso. São cartas de intenção, que podem vir a ser concretizadas ou não. Por enquanto, não há nada construído, nem na Europa! O país que primeiro se desenvolveu para usar o H2V foi o Japão, que nas Olimpíadas de 2021 utilizou o hidrogênio nos veículos de transporte dos atletas. Eles também têm a empresa Toyota, que tem um modelo de carro chamado Mirai, movido a hidrogênio. Tive a oportunidade de conhecer isso na fábrica da Toyota”, conta Mario González, que também coordena o grupo de pesquisa em Inovação de Produtos e Processos em Energias Renováveis (Creation).
No Brasil, o quilograma de H2V chega a 4,50 dólares. Para produzir 1kg, é preciso nove litros de água. Em uma região caracterizada pela seca, a solução tem sido o reuso de água e a dessalinização.
“Os projetos hoje desenvolvidos no mundo usam água de reuso, que é esgoto industrial tratado, para que não haja competição com a água usada para abastecimento humano, animal e agricultura, além de dessalinização. Dependendo da rota que você for seguir para produzir o hidrogênio, ela pode ficar mais ou menos cara. Se eu for dessalinizar, tem um custo, consome bastante energia e tenho os resíduos para dar destino. Não posso pegar uma água pesada, super salina, e jogar no mar porque posso causar um desequilíbrio ambiental. Usar a água tratada tem suas vantagens, mas também tem um custo para purificá-la para que entre no eletrolisador, mas a um custo menor. Nossa vantagem no RN é que temos as duas opções”, explica Hugo Fonseca, secretário adjunto da Sedec.
Nesse caminho, a Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern) vai colocar em operação, a partir de 2025, duas novas Estações de Tratamento de Esgoto (ETE), que serão capazes de tratar 18.144.000 litros de esgoto por dia: a ETE Jaguaribe (Zona Norte), com entrega em 2025 e capacidade de 1.050 l/s, além da ETE Jundiaí/Guarapes, em 2026, que terá capacidade de tratar 1.260 l/s.
“Um problema enfrentado por outros estados é a falta de água. Nós aprendemos a conviver com a seca fazendo as adequações necessárias, e como a produção de hidrogênio verde consome muita água, essa oferta não existe em abundância, inclusive, para atender as necessidades de algumas grandes usinas de produção de hidrogênio. Estou falando de estados vizinhos que anunciaram grandes projetos, mas que podem não se tornar realidade por causa dessa situação, que é a de dependerem da energia que vem do sistema, enquanto temos energia excedente, e a oferta de água no próprio local. Por isso, a dificuldade em colocar grandes projetos de pé. Nós pensamos diferente. O diferencial foi que nós conseguimos juntar quem tinha interesse em produzir h2v [CPFL] com quem tinha demanda de consumo [Cimento Mizuno]. Temos muito excedente e isso é muito importante porque com esse excedente, consigo comercializar energia a um custo mais competitivo”, acrescenta Hugo Fonseca.
Aplicações
Além de tornar a indústria nacional mais sustentável, vender o hidrogênio verde como commodity (produto primário) não seria a decisão mais inteligente, segundo os especialistas. Isso repetiria o erro cometido com o petróleo, quando as refinarias foram vendidas e o país passou a exportar o óleo em estado bruto para comprar do exterior refinado, muito mais caro. O plano é vender produtos com valor agregado, como o aço verde.
“O Brasil é um grande exportador de minério de ferro para fabricação de aço. Se tenho o H2V em grande quantidade, posso transformar o minério de ferro no que chamam de aço verde. Só a indústria siderúrgica é responsável pela emissão de 7% de CO2 a nível global e esse setor está trabalhando para descarbonizar sua indústria. Uma alternativa, a mais promissora, é usar o hidrogênio verde, porque não tenho emissão de CO2. Há duas fábricas em construção no mundo, que eu conheça, uma na Suécia e outra na África, esse é um grande mercado para o Brasil”, avalia Mario González.
Assim como o cimento, metalúrgicas, siderúrgicas, fertilizantes, mineração, indústria cerâmica e de vidro são potenciais consumidores do hidrogênio sustentável. Há ainda indústrias que miram na descarbonização com a utilização do H2V e já consomem hidrogênio cinza em grande escala, como no caso do segmento de fertilizantes.
“Como já sabemos produzir o principal insumo, que é a eletricidade, basta agora trabalhar em cima da cadeia dos equipamentos que geram esse hidrogênio, como a cadeia de eletrolisadores, formar a mão de obra para operar essas plantas, disseminar conteúdo; algo que o Senai faz por vocação, que é formar essa mão de obra e envolver pessoas nesse processo”, calcula Raniere Rodrigues.


Eletromobilidade
No setor de transporte, a utilização do hidrogênio não poluente apresenta grande potencial, inclusive, para navegação e fabricação do querosene de aviação. Projetos de P&D (pesquisa e desenvolvimento) tentam traçar novas rotas tecnológicas em todas as vertentes da mobilidade. No setor marítimo, o foco está no uso de hidrogênio, metanol e amônia verdes. No rodoviário, o hidrogênio e a eletricidade são as duas alternativas mais promissoras em substituição à gasolina e ao óleo.
O Senai-RN investe na nova tecnologia para a conversão de veículos elétricos. Por isso, submeteu projeto via edital do Banco do Nordeste para fazer com que um automóvel de pequeno porte use hidrogênio verde como combustível principal. A escola já tem expertise na área. Em agosto de 2022, apresentou o protótipo do Selvagem Elétrico, o primeiro buggy movido a energia elétrica concebido no Brasil.
A Selvagem é uma empresa local, com sede em Parnamirim, que está no mercado desde 1972 e recentemente passou a ter nova demanda: produzir veículos elétricos para substituir aqueles movidos a combustão, já que a partir de 2025, esse tipo de automóvel será proibido na ilha de Fernando de Noronha.
A parceria com a empresa foi parte do Projeto Verena, que o Senai-RN e o Centro de Tecnologias do Gás e Energias Renováveis (CTGAS-ER) executam desde 2018, no Brasil, com a Câmara de Indústria e Comércio da cidade de Trier (EIC Trier), da Alemanha. Também participaram pesquisadores do Departamento de Engenharia Elétrica da UFRN.
O CTGAS também foi pioneiro ao lançar curso profissionalizante para formação de mecânicos/as em conversão de automóveis elétricos.
“O objetivo desse curso não é só fazer a conversão. Também é abordado tudo o que o veículo elétrico tem, os principais componentes. O mesmo veículo de série que a BYD fábrica, vários componentes vão ter no veículo convertido. O que vai variar é a tecnologia embarcada (confortos), mais funções, mais sensores, regulagem. Na época que lançamos essa proposta de curso, o veículo elétrico mais barato estava em torno de 150 mil, hoje em dia está em torno de 99 mil. A briga também é deixar cada vez mais os kits de conversão mais acessíveis”, detalha o coordenador do projeto de desenvolvimento do Selvagem Elétrico no CTGAS-ER, Davinson Rangel, ao ressaltar que a longo prazo, a ideia é criar uma cadeira turística com emissões zeradas pelo hidrogênio verde, o turismo verde.
Davinson passou uma semana na Alemanha experimentando o transporte elétrico, desde metrô a veículos particulares. A meta é usar a parceria com o país europeu e a pesquisa desenvolvida para, futuramente, também criar embarcações turísticas movidas a energias renováveis, incentivando o turismo sustentável.
“Trabalhar a sustentabilidade com o turismo seria mais um diferencial para nós”, avalia o coordenador do projeto de desenvolvimento do Selvagem Elétrico no CTGAS-ER.
Formação de pessoas para a indústria
Em fevereiro de 2024, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e a agência de cooperação alemã GIZ instalaram em Natal o primeiro “Centro de Excelência em Formação Profissional para Hidrogênio Verde” do Brasil. O laboratório funciona no Centro de Tecnologias do Gás e Energias Renováveis (CTGAS-ER), localizado no bairro Cidade da Esperança, na Zona Oeste de Natal.
O hidrogênio passou a ser unidade curricular de cursos técnicos já ofertados, como Automação, Eletrotécnica e Eletromecânica. O espaço também será usado em aulas de especialização e graduação. A estrutura inclui estações de ensino capazes de mostrar – em condições reais de operação – desde a geração de energias renováveis para produção de hidrogênio verde até a obtenção e a aplicação prática do produto.
Antes da entrega, o Senai investiu também na formação de professores, inclusive em outros estados e em parceria com a Alemanha, com quem tem cooperação há mais de 10 anos. “Ações de bastidores aconteceram para que a gente se preparasse e se antecipasse para a demanda do mercado na área”, revela a diretora do CTGAS-ER, Amora Vieira, alertando que já existem vagas de trabalho e que oferecem ainda treinamentos para equipes. O interesse não se restringe a profissionais das engenharias. O tema tem atraído administradores, advogados, economistas e comunicadores.
“Quando a gente constrói o portfólio, esse itinerário da formação, tem uma metodologia Senai de composição, de ouvir a indústria, entender. A gente se associou a um parceiro internacional, a GIZ, que está com a gente na área de hidrogênio, refrigeração, além de formação de mulheres e meninas para energia solar fotovoltaica. São várias frentes de trabalho na formação de pessoas”, completa a diretora.
Com 21 kits didáticos exclusivos de conversão, os alunos conseguem reproduzir os experimentos. Cada estação de trabalho na sala de aula experimenta microgeração de energia. Para otimizar o aprendizado, o máximo é de 15 estudantes na bancada. Até o final de setembro, o Senai-RN registrou a participação de aproximadamente 70 alunos em formações ligadas ao hidrogênio verde desde que o Centro de Excelência foi inaugurado.
“Esse laboratório é um dos mais bem equipados do mundo. A nível nacional ele é referência para os demais laboratórios. Temos kits exclusivos que trabalham a gestão da energia elétrica, a parte de armazenamento, produção, o impacto de cada fonte, conseguimos ver nesse processo, conseguimos trabalhar todas as vertentes só com esse kit, o aluno consegue acompanhar tudo, também tem a parte de gestão [quanto irá usar de cada fonte renovável, como numa usina], tudo num circuito só. Em resumo, é uma planta de hidrogênio em escala industrial onde ele pode fazer todo o gerenciamento desse combustível e o impacto de cada fonte no sistema”, explica o engenheiro eletricista e instrutor de educação e tecnologias do CTGAS-ER em hidrogênio verde, Gerffeson Almeida.



Há kits com diferentes aplicações: alguns são apenas para consumo, outros para geração de energia, demonstrativos, unidade de purificação de água e sistemas de energias híbridas. O laboratório de energias renováveis e geração de hidrogênio verde é um equipamento exclusivo do Centro de Excelência.
Na escola há até um circuito com pequenos carros que se comportam como veículos comuns. “A gente consegue monitorar o processo de consumo, de transformação de energia. A gente consegue levantar os dados e realizar o estudo com ele. Apesar de parecer brinquedo, é também kit didático, com aplicação. Os veículos trabalham exatamente dessa forma com as células de combustíveis”, demonstra o engenheiro.
Desafios
Por causa da elevada potência energética e inflamabilidade, uma das dificuldades enfrentadas hoje é o transporte de hidrogênio verde com segurança. Para se ter noção, 1 litro de hidrogênio contém três vezes a energia de 1 litro de gasolina. Além da forma líquida, o H2V pode ser transferido por meio de carregadores, substâncias como o toluênio e a amônia.
“A amônia é NH3 e como o nitrogênio tem no meio ambiente, no ar, a amonização é um processo simples. Você transforma em amônia para transportar e quando chega ao destino faz o processo inverso, a desamonização. Dentro do Brasil, o transporte poderia ser como o gás natural, por tubulação. Mas não vamos querer exportar só o hidrogênio, aí entra um outro item, que são os setores”, pontua o professor da UFRN.
Outro desafio indicado pelo especialista é a infraestrutura, o que afeta não só o estado, mas todo o país. Por exemplo, já existem veículos movidos a hidrogênio verde, mas é difícil encontrar postos de abastecimento.
A Neoenergia está investindo cerca de R$ 30 milhões, do programa de Pesquisa e Desenvolvimento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), na instalação de uma usina de hidrogênio verde em Brasília, que funcionará como posto de abastecimento para veículos movidos a esse combustível. O projeto pioneiro tem previsão para ser inaugurado em 2025.
“Hoje, o que existe é a exportação de gás natural, petróleo, amônia…então, pode-se negociar hidrogênio. Esse é o interesse de países asiáticos e europeus que querem comprar hidrogênio. Um deles é a Alemanha, que está investindo no Brasil, Chile, Marrocos e Austrália, distribuindo mercado para que a matriz seja mais limpa e cumpra a meta tratada no acordo de Paris sobre os objetivos de descarbonização”, esclarece o pesquisador Mario González.
Segundo ele, a melhor opção para transporte desse produto a longas distâncias é na forma líquida. “Você comprime, ele baixa de volume, e quando chega ao destino e vai utilizá-lo, descomprime e utiliza. Existe hoje importação de H2V azul pelo Japão, que compra da Austrália e Brunei”, acrescenta González.
Porto-indústria: uma nova revolução industrial
O projeto do Porto-Indústria Verde será implantado em uma área de 13 mil hectares no município de Caiçara do Norte, no interior do RN. Orçado em R$ 5,6 bilhões, o porto despertou o interesse de investidores nacionais e estrangeiros. O modelo prevê uma estrutura especial, com indústrias de diferentes setores funcionando simultaneamente de forma complementar, com área para siderurgia, fertilizante verde, minério de ferro, além da produção de H2V, inclusive, com parte offshore (no mar).
Já está consolidada a parceria com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para lançamento do edital de concessão, que deve ser uma PPP (Parceria Público-Privada). Há também parceria com a Secretaria Nacional de Portos, com repasse de recursos para financiamento de estudos complementares para licenciamento ambiental.
“Por que o Rio Grande do Norte, em um espaço tão pequeno, é responsável por 32% da energia eólica do Brasil? Porque o recurso é muito bom. Tem velocidade, direção, constância, é isso que define a qualidade. Não adianta ir a um lugar com vento forte, tem que ter uma faixa de velocidade, não pode ter rajadas, por exemplo. O Brasil chegou a ter sete fábricas de aerogeradores, hoje há cinco, mas aqui no estado não temos nenhuma. Mas, espere, se produzimos a energia, por que não temos? Qual é a lógica? Fizemos a pesquisa com fabricantes sobre a localização, uma delas está em Santa Catarina. Questionamos o custo do transporte destes grandes componentes, mesmo assim, preferiram lá, uma das coisas que influenciou, foi a falta infraestrutura portuária”, revela González.

“Uma pá, que quando começou a ser implementada no estado, tinha 20 e poucos metros e era recebida pelo Porto de Natal, era levada pela Via Costeira e saia para a rota. Mas, quando a tecnologia foi aumentando e a pá também cresceu, com 40 metros, já não dava para passar. Os empresários responderam [a pesquisa] que até seria mais barato produzir aqui, mas como distribuiriam para outros locais? Essa foi a lição”, acrescenta o pesquisador da UFRN.
Atualmente, para instalação de um modelo de eólica em terra (onshore), há pás com 70 metros de comprimento. O estado precisava de um porto para dar suporte a fábricas de usinas eólicas e de turbinas offshore (no mar), que chegam a 128 metros e não existem no Brasil.
“Com certeza temos chances de ter uma fábrica aqui [com a construção do porto]. Viajamos bastante fazendo estudos para o porto e eólicas offshore e o que identificamos é que essa estrutura dá maior competitividade ao investidor, mas ela não é somente para isso”, aponta González.
A estimativa é que o edital para a construção do porto seja lançado em 2026, após emissão da licença prévia pelo Ibama. O RN tem três usinas de hidrogênio em processo de licença prévia, além de protocolos de intenções de projetos que estão em fase de elaboração. A proposta é que as indústrias se complementem, como no caso da de fertilizantes, que poderá utilizar os resíduos da produção de hidrogênio verde. Já a água de reuso que não fosse utilizada no processo poderia ser aplicada em descargas de banheiros públicos, como forma de tornar o processo mais limpo e a cidade mais verde.
“Por isso é preciso estar vinculado a uma estrutura maior, como o porto. Assim consigo colocar várias fábricas juntas que têm interlocução entre elas, produzir o hidrogênio, receber os resíduos gerados e transformar em fertilizante”, detalha Hugo.
O modelo, que já existe na Europa (Reino Unido, Dinamarca, Escócia, Irlanda) e Ásia (Hong Kong), tem aumentado a competitividade, principalmente, na indústria local, devido à proximidade geográfica.
“Estão todos juntos, não há custo de deslocamento, não tenho que me preocupar com caminhões trafegando em rodovias, com um custo de logística gigantesco, se precisar de insumos de fora, já vem perto pelo porto, que pode ser beneficiada na fábrica ao lado e já passa para a outra, que vai empacotar e já leva para o outro navio que vai despachar para outro lugar no mundo. É tudo muito rápido e concentrado”, projeta Hugo Fonseca.
O porto, nesse modelo, será o primeiro do Brasil e da América Latina. “É um porto disruptivo para o Brasil, até para o Ministério de Portos é novidade esse modelo, todos estamos aprendendo, as indústrias que têm interesse em utilizar esse porto, que já é usado na Europa e Ásia e agora vem pro Brasil, através do Rio Grande do Norte”, prevê Fonseca.
Com o porto no RN, há maiores possibilidades de instalação de uma indústria de aerogeradores e pás utilizadas nos parques offshore.
“Viajamos bastante fazendo estudos sobre portos para eólicas offshore e verificamos que essa é uma questão que reduz custos e dá maior competitividade ao empreendedor, ou seja, ao investidor em um parque eólico marítimo. Mas o porto não é apenas para isso. Além da área para as eólicas offshore, há espaço para produzir hidrogênio verde. A área de 13.300 hectares, é gigante. Em termos logísticos, para a Europa, aqui também é mais perto”, relata o pesquisador da UFRN González.
“Isso cria o que chamo e ‘economia cíclica’. Eólica offshore gera energia elétrica produzindo hidrogênio, usado para produção de minério de ferro, que produz aço, que é usado na produção de mais componentes de turbinas eólicas e assim, temos um ciclo”, exemplifica, destacando também que o fomento à indústria de fertilizantes é benéfico para as plantações de frutas.
“Somos o maior produtor de melão e melancia do país, além de outras frutas. Esse fertilizante verde já tem mercado interno, mas podemos ter mercado externo. Tudo isso passa pelo hidrogênio e o mundo quer hidrogênio verde, sustentável, que desacelere o aquecimento global do planeta”, ressalta González.
Legislação
Reconhecendo a necessidade de base regulatória para impulsionar a área, o governo do estado enviou à Assembleia Legislativa projeto de lei que institui o Marco Legal do Hidrogênio Verde e da Indústria Verde. A iniciativa também visa criar o Programa Norte-Rio-Grandense do Hidrogênio Verde e da Indústria Verde (PNRH2V).
A intenção é normatizar todas as atividades relacionadas ao novo combustível, inclusive políticas de incentivos fiscais ao setor. Em abril, o projeto foi aprovado na Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ).
Enquanto isso, em agosto, em cerimônia no Ceará, o presidente Lula sancionou a Lei 14.948, regulamentando produção, comercialização e uso do hidrogênio verde, com vetos a trechos que tratavam do programa de subsídios para a nova cadeia industrial e previa a concessão de 18,3 milhões de reais.
O que todos deveriam saber…
Com energia sobrando, localização ideal e infraestrutura, o pesquisador da UFRN Mario Gonzalez, acredita que o RN tem um dos menores custos de produção de hidrogênio verde do mundo.
“As pessoas que tomam decisões pelo estado, digo em todas as instâncias, deveriam saber disso porque é o melhor que temos para aproveitar, para fazer políticas públicas. Se você fosse gestora de um aerogerador e visse qual o estado onde mais se implementa turbinas, que por consequência é onde mais se vai vender, onde se instalaria? Então porque não se instalar aqui?”, questiona.
O próprio pesquisador explica que as turbinas se instalaram no Brasil entre os anos de 2009 e 2011, época em que não havia infraestrutura do porto, que será construído agora. A janela de oportunidades está na instalação das fábricas das peças que serão utilizadas nas usinas offshore, que ainda não existem no Brasil e requerem equipamentos diferentes daqueles usados em terra (onshore).
“É a janela de oportunidade que temos para industrializar o estado naquilo que ele é forte, na natureza dos recursos do vento e industrializar. Por isso o Porto Indústria Verde é tão importante e isso inclui as decisões políticas. Deveria haver uma ação, integração, união, uma congregação em torno disso. Queremos o desenvolvimento do estado, mas isso passa pela industrialização. A geração de empregos em serviços é supérflua e varia de acordo com o tempo e dependendo de como a economia está, principalmente, o turismo. Se o país não está crescendo economicamente, as pessoas vão priorizar os bens básicos de consumo e deixar de viajar. Isso se vê nos países da Europa, aqueles menos industrializados sofrem rapidamente as consequências de uma queda na economia. Alemanha, Reino Unido e Dinamarca, por exemplo, que são mais industrializados, sofrem menos. A indústria gera emprego para o setor, mas também para serviços, já o contrário não acontece. Precisamos focar na industrialização. No mundo ideal, o RN é polo da indústria renovável e, também, da indústria verde”.
Segundo o pesquisador, a taxa de empregos na offshore é o dobro da empregada nas usinas onshore.
“A fábrica desses geradores é como uma montadora de carros. Quando a fábrica de Jeep se instalou em Pernambuco, por exemplo, junto com ela veio outras menores…fábrica de vidros, pneus, sistema de freios…. essa é a atração de emprego. Precisamos acelerar, as pessoas que tomam decisões precisamos entender que estamos de frente para a janela de oportunidades que vai permitir que o Estado se desenvolva”, apela o pesquisador.
*Bônus extra*
Breve panorama da história industrial potiguar
Quando o Rio Grande do Norte ainda se chamava Rio Grande, época das capitanias hereditárias, a região até ficou de fora da zona produtora de açúcar, que ia do sul do Recôncavo Baiano ao norte da Paraíba.
Considerado a primeira grande indústria no mundo, foi o açúcar que movimentou a economia, antes mesmo da indústria têxtil, na Inglaterra, conforme conta o professor do Departamento de Turismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Almir Oliveira.

“A primeira grande indústria da cana de açúcar no RN foi instalada em Canguaretama, no Engenho de Cunhaú, de Jerônimo de Albuquerque, que depois receberia mais um sobrenome: Maranhão. Ele é sobrinho de Duarte Coelho, que é o 1º donatário da capitania de Pernambuco, que era a grande capitania, e vai comandar a tropa que vai libertar o Maranhão dos franceses. Depois disso, que adota a alcunha de Maranhão. Essa família vai dominar o estado do Rio Grande do Norte por, aproximadamente, 300 anos. É só lembrar que André Albuquerque Maranhão foi considerado um grande revolucionário no momento da Revolução de 1817, mais para a frente temos um Albuquerque Maranhão no nome do Teatro, Augusto Severo também é, Pedro Velho e até o início do século XX a família ainda é muito presente e detentora do estado. O prédio onde hoje é o Hospital Universitário Onofre Lopes [que pertence à Universidade Federal do Rio Grande do Norte] era a casa de veraneio da família. Depois foi feita a doação à Universidade. Não à toa Ferreiro Torto, em Macaíba, é uma referência com sua produção desde a época colonial, mas nada comparável ao Engenho de Cunhaú”.
Paralelamente ao açúcar foi desenvolvida a economia do gado, que deixou de ser produzido no litoral após uma normativa da Coroa Portuguesa que impedia qualquer outro tipo de uso da terra, até 10 léguas a partir do litoral, que não fosse para cultivo da cana de açúcar.
“Fica a subsistência para manutenção das famílias e escravos. Natal não se desenvolve, é a mesma desde a fundação até o final do século XIX, com uma população de cerca de 2 mil habitantes. Ela só cresce quando passa a receber migrantes por causa da seca e no segundo grande processo de refundação da cidade, que é com a II Guerra Mundial”, explica o professor da UFRN.
Enquanto no final do século XIX Natal tinha de três a cinco mil habitantes, chegando a no máximo dez mil, nas primeiras décadas do século XX vai para 20 mil e entre o inicio da II Guerra e final da década de 40/50, passa para quase 80 mil habitantes.
A ocupação do Seridó
“O gado será levado para áreas com pasto abundante, onde temos a presença de sal natural e espaço. Com isso, teremos a ocupação do Seridó, Currais Novos, que era uma contraposição aos currais velhos que tínhamos na região, Caicó e toda essa região… o interessante é que essa ocupação se dará tanto do litoral para o interior, quanto do sul para o norte”, detalha Almir Oliveira.
“Do boi se aproveita até o pé”
O ditado popular é referente a um tipo de produção que ainda não era industrial, mas que já dava sinais de um trabalhado mais elaborado, manipulado, como uma indústria insípida, emergente.
“Também tempos, concomitantemente a produção do algodão, que se acelera muito com a Guerra de Secessão Norte Americana porque a indústria têxtil nascente da Inglaterra deixa de receber algodão dos Estados Unidos e vem comprar do Brasil. Mas, evidentemente, isso não se mantém”, esclarece Almil Oliveira, que ainda relata a existência de uma indústria de óleos no século XX, como o óleo de algodão, mas que também desaparece com o tempo.
Um dos problemas para a falta de continuidade seria a ausência de inovação tecnológica. Uma das características desse processo é o beneficiamento de matéria prima sem agregar valor e garantir condições de concorrência.
“A falta de inovação tecnológica é algo patente porque como estamos sempre dependendo da tecnologia que vem de fora, como não produzimos nossa própria ou produzíamos muito pouco até pouco tempo, só beneficiávamos matéria-prima e isso todo mundo faz. Isso diminui o potencial do que poderia ser aproveitado com o algodão”, ressalta o professor da UFRN.
O processo de industrialização do Brasil e do Nordeste tem início a partir do final do Império e início da República, que com a entrada das indústrias multinacionais, vão perdendo referência.
“Tínhamos fábricas de cigarro no Rio Grande do Norte que, simplesmente, desaparecem, que é algo parecido com o que ocorreu com o óleo de algodão. Tinha uma fábrica de vinho de Caju na Paraíba que era muito consumido e depois perde referência porque as multinacionais de venda de vinho, principalmente franceses e europeus, vão tomar conta do mercado”, acrescenta.
Esse cenário só começa a mudar no século XX a partir da produção de scheelita, tipo de minério de onde é retirado o tungstênio, usado na produção de computadores e pelo setor aeroespacial.
“Na década de 1950 temos a era do governo desenvolvimentista de JK e o 2º ou 3º governo Vargas, que vai culminar com o suicídio do presidente e ascensão do potiguar Café Filho. Pense que temos tanto a criação da Petrobrás em 1953 e a criação da Sudene em 1959, marcada pelo papel que terá para tentar recolocar o Nordeste como um grande centro produtor econômico brasileiro. Para o RN isso representará o retorno de grandes indústrias como Guararapes, que havia ido para Recife, mas volta com os incentivos. O problema é que boa parte dessas indústrias sobrevivem por conta dos investimentos estatais, quando eles saem, elas vão caindo e se acabam, mas a Guararapes foi uma das que conseguiu se manter”, analisa Almir Oliveira.
Na década de 1970 foi a vez dos poços de petróleo perfurados na região de Mossoró.
“Essa indústria do petróleo e, posteriormente, do gás, ganha enorme importância para o RN, que foi um dos maiores produtores de petróleo em terra do Brasil”, relembra o professor da UFRN.
Nesse mesmo período, é a indústria salineira, que já existia há cerca de 100 anos, que passa por um processo de mecanização, quando o RN passa a ser o maior produtor do Brasil, além de exportador. Já a partir de 1950 há uma diversificação e é o turismo que passa a ser considerado uma indústria, o terceiro setor (serviços), pela sua capacidade de mudar realidades como o transporte e alimentação, mobilizando outras indústrias.