UFRN diploma post mortem estudantes assassinados pela ditadura militar
Natal, RN 26 de jun 2026

UFRN diploma post mortem estudantes assassinados pela ditadura militar

28 de novembro de 2024
9min
UFRN diploma post mortem estudantes assassinados pela ditadura militar

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Os sons de tiros e os relatos de enfrentamentos policiais não apenas continuam ecoando no imaginário brasileiro, mas seguem acontecendo, atualizando cotidianamente as marcas da repressão. Essa realidade reverbera a narrativa oficial construída pelos agentes da violência desde o golpe civil-militar de 1964. A história, no entanto, guarda outras versões — aquelas que não foram contadas, mas apagadas ou silenciadas pela ausência de uma Justiça de Transição efetiva. Hoje, enquanto a sociedade civil organizada, especialmente vítimas e familiares dos mortos e desaparecidos políticos, pressionam pelo reconhecimento das violências do passado, as universidades, alvos da repressão, tornam-se palcos de um esforço simbólico para reescrever a história. É nesse contexto que a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) se prepara para diplomar post mortem dois estudantes potiguares brutalmente assassinados pela ditadura: Emmanuel Bezerra e José Silton Pinheiro.

No próximo dia 6 de dezembro, a UFRN realiza uma cerimônia no auditório da reitoria, às 15h30, que, embora tardia, carrega o peso do reconhecimento histórico. Emmanuel Bezerra, estudante de Ciências Sociais, e José Silton Pinheiro, aluno de Pedagogia, tiveram suas trajetórias interrompidas pelo aparato repressivo do Estado brasileiro. Emmanuel, nascido em Caiçara do Norte, destacou-se como líder estudantil e militante do Partido Comunista Revolucionário (PCR), sendo preso e torturado até sua morte, em 1973. José Silton, natural de São José de Mipibu, foi perseguido pelo regime e morreu em 1972, aos 23 anos, em uma operação do DOI-CODI no Rio de Janeiro. O corpo de Emmanuel foi sepultado no dia 14 de julho de 1992 em na sua cidade, Caiçara do Norte. José Silton Pinheiro permanece sem seus restos mortais localizados e identificados sendo, portanto, desaparecido.

Primo de Emmanuel Bezerra, Jessé Andrade Alexandria ressalta que “a importância da diplomação de Emmanuel Bezerra pela UFRN não é apenas uma reparação tardia à memória do estudante potiguar morto pelo Estado terrorista durante a ditadura de 1964, é também (ou deveria ser) um ato político capaz de mostrar à sociedade brasileira que a luta de Emmanuel não foi em vão, pois é memória viva, exemplo de irresignação diante da injustiça social, da perseguição política, vale dizer, combate por uma sociedade livre justa e solidária. O reconhecimento por sua militância deve ser também a luta por verdade, memória e justiça, a constante vigília contra a ameaça fascista“.

A diplomação, reivindicada por estudantes, servidores e ativistas, representa mais que um ato simbólico: é uma tentativa de resgatar as histórias de vidas interrompidas pela violência política e de inserir essas narrativas no espaço de memória coletiva da universidade. Segundo o Comitê Estadual de Memória, Verdade e Justiça do RN (CEV-RN), “esta é uma ação fundamental no avanço que precisamos promover em direção à plena realização da Justiça de Transição. A diplomação de Emmanuel Bezerra e José Silton Pinheiro, em um ato de reparação histórica, reforça a importância de manter viva a memória coletiva e garantir que as lutas por memória, verdade e justiça sejam reconhecidas”.

As Universidades na mira da ditadura

Durante o regime militar, as universidades foram alvo de intensa vigilância e repressão. No caso da UFRN, isso incluiu a atuação da Assessoria Especial de Segurança e Informações (AESI), que monitorava alunos e professores considerados subversivos. Diversos membros da comunidade acadêmica foram presos, torturados ou tiveram suas carreiras interrompidas. Emmanuel e José Silton são exemplos emblemáticos dessa perseguição.

O trabalho da Comissão da Verdade da UFRN, instaurada em 2012, lançou luz sobre esses episódios, mapeando violações de direitos humanos cometidas no âmbito universitário. O relatório final da comissão, apresentado em 2015, apontou em 489 páginas para a necessidade de preservar a memória institucional por meio de iniciativas como a criação de um memorial da resistência, a colocação de placas em locais de repressão e a revogação de resoluções autoritárias emitidas durante o regime. O esforço envolveu 27 sessões ordinárias, três audiências públicas e 51 depoimentos, além de recorrer a publicações de Mário Moacir Porto e Otto de Brito Guerra (Edufrn) e consulta a 20 DVD’s do Programa Memória Viva, produzido e veiculado pela TV Universitária.

Esse é um tema de grande relevância para a nossa universidade, que já teve sua própria Comissão da Verdade, a qual produziu um relatório riquíssimo. Estamos empenhados em cumprir as recomendações feitas por essa comissão”, destacou o reitor da UFRN, José Daniel Diniz.

Juan Almeida, que integrou o trabalho da Comissão da Verdade da UFRN, diz que, quando a Comissão finalizou seus trabalhos, foi protocolado no gabinete da Reitoria um processo para implementação de diferentes recomendações.

“Há um conjunto de recomendações de nomeação de espaços e retirada das homenagens ao Presidente Castelo Branco e Emílio Garrastazu Médici, e vários outros: incentivo às pesquisas, a publicação de edital, construção de lugares de memória aqui no campus universitário. Então eu acho que esse processo pode se agregar hoje, mas além da dimensão individual das homenagens a Emmanuel e José Silton, nós estamos reparando a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, porque essa coletividade, essa comunidade, esse organismo aqui foi afetado”, reflete Juan Almeida.

Recomendações e reflexões para o futuro

Entre as principais recomendações da comissão, destaca-se a criação de um espaço permanente para a preservação da memória, como o uso do prédio histórico da antiga Faculdade de Direito para abrigar um acervo sobre a ditadura. Além disso, foi sugerida a aposição de placas simbólicas em locais como o subsolo da Biblioteca Central Zila Mamede, onde funcionou a AESI.

Essas propostas refletem a importância de institucionalizar a memória e reconhecer publicamente as violações cometidas, mas também evidenciam o quanto ainda falta avançar. A diplomação de Emmanuel e José Silton é um passo significativo, mas isolado, em um país onde o passado ditatorial ainda se manifesta nas práticas de violência e exclusão que marcam o presente.

Para Ana Beatriz de Sá, neta do guerrilheiro potiguar Glênio Sá e militante do coletivo Nacional de Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça, “no ano em que se completam 60 anos do golpe militar fascista no nosso país, exigir a efetivação da memória, da verdade e da justiça para os verdadeiros heróis do nosso povo nunca foi tão urgente. Deve estar na ordem do dia. Pra além de um ato simbólico, isso representa que a memória sobre a história do nosso país não pode se perder”.

Memória e Justiça: um debate urgente

A luta por Memória, Verdade e Justiça no Brasil segue sendo conduzida, sobretudo, pelos familiares de mortos e desaparecidos e por organizações da sociedade civil. A resistência em enfrentar os crimes da ditadura de forma ampla e efetiva deixou marcas profundas: a manutenção de estruturas repressivas, a continuidade das práticas de tortura e o desprezo pela vida de populações marginalizadas.

No espaço acadêmico, iniciativas como a da UFRN apontam para a possibilidade de um futuro onde a memória não seja apenas um exercício do passado, mas uma ferramenta ativa na construção de uma sociedade mais justa. Emmanuel Bezerra e José Silton Pinheiro não terão suas vidas de volta, mas suas histórias, finalmente reconhecidas, poderão iluminar a luta contra as violações que persistem até hoje.

RECOMENDAÇÕES GERAIS DO RELATÓRIO DA COMISSÃO DA VERDADE DA UFRN

Primeira: Utilização do prédio histórico onde funcionou a Faculdade de Direito da UFRN para abrigar o acervo documental e audiovisual sobre o período da ditadura civil-militar e o material produzido pela Comissão da Verdade da UFRN, em forma de memorial da resistência universitária. 412 Comissão da Verdade da UFRN 

Segunda: Fazer o reconhecimento simbólico e público da violação aos direitos humanos contra membros da UFRN; e homenagear, com as cautelas estatutárias, os professores e alunos assassinados e, de alguma forma, vilipendiados pelo regime discricionário, consoante já registrados neste Relatório com a colocação dos seus nomes em memoriais e logradouros das unidades pertencentes a UFRN e espaços da administração universitária em cerimônia oficial; criação de obras ou painel artístico em que se registre os reflexos do regime de exceção nas atividades acadêmicas e administrativas, mediante abertura de Concurso Público destinado aos artistas plásticos da própria universidade. 

Terceira: Fazer aposição de placa simbólica no local onde funcionou a extinta Assessoria Especial de Segurança e Informações da UFRN (Subsolo da Biblioteca Central Zila Mamede), com alusão à sua função repressiva. 

Quarta: Recomendar que a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a título simbólico e com as cautelas estatutárias, proponha ao Conselho Universitário a revogação de todas as Resoluções autoritárias dele emanadas, durante o período da ditadura, que tiveram por objeto o tolhimento das liberdades constitucionais de manifestação, pensamento e liberdades didático-científica, patrimonial, financeira e administrativa. 

Quinta: Providencie um acondicionamento ideal para o acervo de documentos do Arquivo Geral da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, notadamente os que dizem respeito à memória institucional e administrativa, na parte que toca às antigas Faculdades, Escolas e Institutos. 

Sexta: Que a Universidade Federal do Rio Grande do Norte incentive a publicação de trabalhos sobre o período da Ditadura Militar e os seus reflexos no Rio Grande do Norte e na UFRN, como igualmente criando bases de pesquisa sobre esse tema.

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