A dor que herdamos: por que a ditadura ainda nos persegue
Natal, RN 13 de jun 2026

A dor que herdamos: por que a ditadura ainda nos persegue

26 de março de 2025
3min
A dor que herdamos: por que a ditadura ainda nos persegue

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Nasci em 1983, mas minha história começou muito antes. Começou nos porões escuros da repressão, onde meu pai, Glênio Sá, foi torturado. Começou nos passos apressados da minha mãe, sempre atenta aos olhos que espreitavam. Começou nos gritos que ecoavam em celas clandestinas, nas cartas que nunca chegaram, nos corpos que nunca foram encontrados.

A ditadura militar acabou, diziam. Mas não para nós. Não para os filhos e netos daqueles que ousaram resistir. Crescemos no silêncio de uma história que tentaram enterrar, carregamos o peso de um passado que nunca se tornou apenas passado. Quando a tortura arrancou a pele dos nossos pais, nos deixou cicatrizes invisíveis. Quando o Estado os perseguiu, nos condenou também.

Meu pai sobreviveu à ditadura, mas nunca deixou de ser alvo dela. Foi preso, torturado, ficou entre os sobreviventes da Guerrilha do Araguaia e, mesmo após a redemocratização, continuou vigiado. Sua morte, em 1990, foi registrada como um acidente. Mas sabemos que a ditadura tinha suas formas de continuar matando. E matou. Matou meu pai e destruiu a vida de tantos outros, sem nunca prestar contas.

Nesta quarta-feira, dia 26 de março de 2025, filhos e netos de perseguidos políticos da ditadura civil-militar de 1964 protocolarão na Comissão de Anistia um pedido histórico: o reconhecimento oficial de que os impactos da violência estatal não ficaram no passado, mas atravessaram gerações. Esse ato simboliza não apenas a busca por justiça, mas a reafirmação de que o Brasil ainda não enfrentou integralmente sua história.

O pedido de anistia coletiva é inédito e carrega o peso de um país que falhou em sua justiça de transição. Nossos pais e avós foram perseguidos, torturados, exilados e assassinados pelo Estado. Mas o trauma não se restringiu a eles. Suas famílias também foram punidas, suas crianças cresceram sob vigilância, sem acesso a direitos fundamentais, e carregam até hoje as consequências psicológicas, sociais e materiais dessa repressão.

O que estamos pedindo agora, com o protocolo de anistia coletiva, é o reconhecimento dessa dor. Porque a repressão não acabou com a assinatura de uma nova Constituição. Ela permaneceu na negação da justiça, na impunidade dos torturadores, no silêncio dos arquivos fechados.

Hoje, Bolsonaro é julgado no STF por tentativa de golpe. E é impossível não ver o fio que o conecta aos generais de 64. Ele e tantos outros que celebraram a tortura, que riram da dor das nossas famílias, que mantiveram viva a herança maldita da impunidade.

O que queremos é justiça. Não a que vem tarde demais, mas a que impede que isso aconteça de novo. Queremos que o Brasil reconheça sua dívida com aqueles que sofreram e com aqueles que herdaram esse sofrimento. Porque a democracia só será real quando o Estado admitir o que fez e reparar, de verdade, aqueles que viveram — e ainda vivem — as consequências do seu terror.

A ditadura nos marcou, mas não nos calou. O Brasil ainda nos deve justiça e nós cobraremos.

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