Comerciantes denunciam abandono de obra no centro de Natal
Desde dezembro de 2024 Amadeus Penha não vê mais um trabalhador nas obras da rua João Pessoa, no bairro da Cidade Alta, Centro Histórico de Natal.
“Já caiu até gente topando nessas calçadas. Desde dezembro está tudo parado”, lamenta o comerciante de uma loja de capaz para celular.

O serviço de requalificação do Centro Histórico de Natal, iniciado ainda em 2023, deveria ter ficado pronto em outubro do mesmo ano. A promessa era criar uma via “instagrámavel” com áreas de convivência para pedestres e turistas. Porém, o relato de comerciantes e frequentadores é que a obra inacabada tem ajudado a afundar o já escasso movimento do centro da cidade.
“Eu costumava vir mais, mas com as lojas fechadas, ficou desfalcado. Pra ir à C&A, por exemplo, tenho que ir ao shopping, apesar de preferir vir aqui, acho mais prático. Às vezes vou ao Alecrim, mas nem gosto porque é muito movimentado. Essa arrumação que fizeram aqui só deu vazão para as pessoas em situação de rua”, observa Ana Maria Alves, autônoma.
A reclamação vai de uma ponta à outra da Rua João Pessoa. No trecho entre a Praça Padre João Maria e o antigo Cine Nordeste, as calçadas de um dos lados foram completamente destruídas.
“No início até achávamos que seria bom, mas a obra parada está prejudicando o acesso das pessoas. Se chegar um cadeirante aqui, ele não tem como entrar”, aponta Késia Santos, funcionária de uma imobiliária.
“O movimento caiu 90%. Vendo frutas e verduras, meu público é idoso e eles não conseguem vir aqui assim”, reclama José Francisco da Silva, que improvisou algumas pedras no que antes era a calçada para conseguir chegar ao próprio estabelecimento.


Em dezembro do ano passado o ex-prefeito Álvaro Dias inaugurou um trecho do calçadão da João Pessoa. Mas, desde então, pouca coisa mudou.
“Não temos nenhuma notícia em relação a quando vai iniciar novamente. Abandonaram a obra. Em alguns trechos, falta apenas pintar. Todos que estavam na João Pessoa foram para a praça Tamandaré lá no Baldo. Depois da Rio Branco no sentido igreja matriz, estamos sem calçadas, prejudicando quem quer andar e os lojistas para entrar nas suas lojas, sem falar na poeira”, denuncia Rodrigo Vasconcelos, presidente da Associação Viva o Centro.

Além dos problemas durante o dia, à noite a escuridão toma de conta do trecho entre a Rua Princesa Isabel e a Avenida Rio Branco.
“Toda fiação de onde seria um centro de convivência foi roubada em dezembro, inclusive, o local fica vizinho à base da Guarda Municipal, que não foi suficiente para evitar esse roubo”, lamenta Rodrigo.

Por meio de nota, a Secretaria de Mobilidade Urbana (STTU) explicou que tem seguido os prazos e que a requalificação da Rua João Pessoa tem duas etapas: uma área na região tombada da Cidade Alta que vai da Rio Branco até a Praça Padre João Marian – antiga Catedral; e outra no trecho que compreende a Avenida Rio Branco até a Deodoro da Fonseca – na altura da nova Catedral.
“Com relação aos prazos da obra, a STTU segue o cronograma de execução dos serviços com a regularização das calçadas, o tingimento do concreto e a instalação do mobiliário. Para a etapa que compreende a Deodoro até a Princesa Isabel, o trecho já foi entregue. Já no trecho entre a Deodoro e a Rio Branco, que contará com uma cobertura, foram realizadas as fundações e a implantação das colunas da base. O órgão aguarda agora a conclusão da remoção do cabeamento aéreo por parte da Semsur. Após, a conclusão deste serviço, será finalizada essa etapa com a colocação da cobertura”, traz um trecho do documento.
Ainda segundo a STTU, no trecho do lado do Centro Histórico ainda está sendo realizada a remoção do cabeamento.

A promessa/ a realidade
No papel, a promessa era revitalizar a Praça Padre João Maria com a criação de um espaço de brincadeira para crianças, além de novos espaços de contemplação e descanso com a inserção de mobiliário urbano, vegetação e iluminação.
Também foi anunciado um espaço exclusivo para pedestres desde o trecho entre a Av. Rio Branco e a Rua Princesa Isabel, com um palco que permitiria a visualização de qualquer ponto do trecho, em 360º, para apresentações culturais.
Além disso, foi projetada uma cobertura com vegetação, inspirada na rua coberta de Gramado (RS), que é um ponto turístico da cidade gaúcha. Outra promessa é de que a João Pessoa não teria mais fios e os postes teriam a fiação embutida, permitindo um céu mais limpo.
“Uma obra tão esperada e que era uma das esperanças para o comércio do centro sendo tratada dessa forma… É desrespeitoso com todos os lojistas e clientes”, critica Rodrigo Vasconcelos.



