Editora Cosac traz Nísia Floresta em livro escrito por potiguar
Natal, RN 26 de jul 2026

Editora Cosac traz Nísia Floresta em livro escrito por potiguar

24 de março de 2025
7min
Editora Cosac traz Nísia Floresta em livro escrito por potiguar

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Se você é potiguar, provavelmente já ouviu falar de Nísia Floresta (1810-1885). Mas, a partir de abril, mais do que conhecer essa história “por cima” será possível mergulhar no universo no qual a escritora viveu. No livro “Viajantes de Saias”, que será lançado em abril pela editora Cosac, a também potiguar Ludmila de Souza Maia traça um paralelo entre as vidas de Nísia e da escritora francesa Adèle Toussaint-Samson (1826-1911).

Queria entender como era ser mulher e escritora no século XIX, fiz graduação e mestrado sem nunca ter ouvido falar de escritoras do final do período Imperial, tinha ouvido falar de viajantes inglesas, mas nenhuma brasileira”, revela.

O livro é dividido em três partes. Primeiro vem o despertar para a escrita e a dificuldade em ter acesso ao estudo, quando Ludmila investiga como era possível se tornar escritora e publicar no século XIX no Brasil e a outra na França.

Em 1849, por coincidência, elas cruzam o atlântico. A francesa vem para o Brasil e Nísia vai para a Europa. Era uma sociedade iletrada, se letrar já era difícil e as famílias procuravam educar os homens, educar mulheres não era interessante. Só a partir de 1840 que começam a surgir os primeiros colégios para moças, a proposta era treiná-las para o casamento. Também havia o discurso de que mulheres eram biologicamente inferiores e que elas eram incapazes. Ser pessoa pública era algo negativo, elas poderiam até se educar, mas não ser públicas, isso era mal visto, poderiam afetar a honra. Uma vez que escreviam e publicavam, as obras eram julgadas por características externas à obra, como a honra”, detalha Ludmila, que é doutora em História Social pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e pela Rice University (Houston, EUA). Atualmente, a potiguar realiza pós-doutorado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Ludmila Maia I Foto: cedida

Na segunda parte do livro o foco está na literatura de viagem que Nísia e Adèle passam a produzir, e como as viagens mudam seus modos de ver o mundo e de escrever sobre ele.

Já a terceira parte do livro é a mais longa, quando Ludmila expõe as contradições das escritoras, tanto a brasileira quanto a francesa.

“Elas viajavam quando isso não era comum, mas também reforçavam os papéis esperados das mulheres no período. Elas se construíam como mulheres honradas, mães e esposas em movimento. Faziam viagens transgressoras, mas reforçavam estereótipos da época. Transgrediam dentro do manto da domesticidade. Elas viveram muito para os padrões da época, Nísia morreu aos 75 anos e Adélia com 91. Elas pensaram sobre o envelhecer e escreveram sobre homens da família numa tentativa de se imortalizar na história, acabam falando mais delas ao escreverem os livros”, adianta Ludmila Maia, que explica que a intenção não foi escrever uma biografia, mas investigar a vida das duas escritoras e as contradições de seu tempo.

Estava fazendo doutorado sobre personagens femininas e quando estava preparando o projeto, recebi a biografia de Nísia. Conheço o município e a única coisa que sabia dela é que era poetisa, quando li a biografia achei interessante e chocante porque nunca tinha ouvido falar daquelas coisas, nem os professores e colegas da Unicamp, apesar de estar em centro de excelência. Quando comecei a pesquisar descobri um dicionário de escritoras brasileiras, além de outros títulos. Não queria uma biografia, mas a experiência de mulheres no século XIX, mesmo assim, ainda é muito biográfico, ao mesmo tempo que reflete sobre as mulheres contemporâneas. Queria saber como era o tempo dela, como se fizeram quando havia outras mulheres como elas. Nísia se constrói como grande mulher, como pioneira, embora não fosse. São figuras incríveis, escrevem muito e publicam muito, mas ao mesmo tempo pertencem àquele tempo. São mulheres com contradições a oferecer”, finaliza Ludmila.

Série Crioula

Jean-Baptiste Debret, “Negra com tatuagens vendendo cajus”, 1827, Aquarela.

Após retomar suas atividades em 2024, a Cosac consolida em 2025 a proposta de construir um catálogo renovado, mantendo sua marca registrada na originalidade, no cuidado editorial e na excelência gráfica. As áreas de publicação incluem literatura, artes, história, cinema, teatro, fotografia, ensaio e crítica, entre outras categorias.
Para inaugurar sua nova fase, a Cosac lança a Série Crioula, que busca dar visibilidade a trabalhos singulares baseados em fontes documentais expressivas sobre a História do Brasil no período entre os séculos XVI e XIX, lançando luz sobre aspectos de nossa sociedade muitas vezes esquecidos ou intencionalmente ignorados. As edições, no formato brochura, contêm rica iconografia em cores e incluem amplas referências documentais e historiográficas.

Livros da série Crioula

Os cinco primeiros volumes abarcam temas variados. Mulheres escravizadas que se tornaram libertas e ficaram ricas, santas e santos pretos cultuados pela população colonial do Brasil, o transtorno decorrente da Visitação da Inquisição portuguesa à Bahia no início do século XVII, mulheres escritoras que produziam e viajavam por várias partes do mundo publicando seus textos, e as milhões de baleias caçadas e desmanchadas por baleeiros estadunidenses e brasileiros no século XIX, para delas extrair óleo para iluminação e outras riquezas.
Os títulos são: Sinhás pretas, damas mercadoras, de Sheila de Castro Faria (Universidade Federal Fluminense – UFF); Segunda visitação da Inquisição à Bahia (1618-1620), de Angelo Adriano de Faria Assis (Universidade Federal de Viçosa) e Ronaldo Vainfas (UFF e Faculdade de Formação de Professores da UERJ); Devoção negra, de Anderson José Machado de Oliveira (UNIRIO); Viajantes de saias, de Ludmila de Souza Maia (Unicamp; UERJ); e Caçadores de baleia, de Wellington Castelucci Junior (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).
Com organização de Sheila de Castro Faria, a Série Crioula reúne historiadores oriundos de instituições acadêmicas de todo o país, com pesquisas e estudos sobre as peculiaridades de nossa experiência histórica. Daí a opção pelo nome “crioula”, cuja etimologia remonta ao verbo latino “creare” (criar), termo que traz como acepções primárias “aquilo ou aquele que não vem de fora”, ou “que é nativo do local de quem fala ou escreve”, enfatizando a produção acadêmica nacional.

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