Soledad Magno: “RN mostra que há outro caminho para a América Latina”
Natal, RN 3 de jun 2026

Soledad Magno: “RN mostra que há outro caminho para a América Latina”

21 de julho de 2025
15min
Soledad Magno: “RN mostra que há outro caminho para a América Latina”

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No cenário de retrocessos políticos que atravessam a América Latina, o avanço das forças ultraliberais e autoritárias não se limita a uma nação. A vitória de Javier Milei na Argentina, a tentativa de reabilitação da ditadura chilena por setores conservadores ou a permanência de resquícios do bolsonarismo no Brasil evidenciam uma disputa regional que ultrapassa fronteiras e se manifesta em diversas frentes: econômicas, culturais, legislativas e institucionais.

Nesse contexto, a integração latino-americana volta a ser um dos principais pontos de pauta entre militantes e dirigentes de governos progressistas que resistem ao desmonte de políticas públicas e tentam consolidar espaços de soberania popular. É a partir dessa perspectiva que Soledad Magno, cientista política, militante de La Cámpora e integrante do Partido Justicialista, analisa os riscos e os caminhos possíveis para os povos da região.

Soledad conhece de perto os bastidores da política regional. Com passagens por ministérios estratégicos da Argentina, como o das Relações Exteriores, o da Cultura e o do Interior, além de ter atuado no Senado e na Câmara dos Deputados, ela acompanhou de dentro processos fundamentais de articulação institucional e diplomática do país. Foi, inclusive, candidata a Assuntos Parlamentares do MERCOSUL nas eleições de 2023, pela coalizão Unión por la Patria, que tentou impedir a chegada da extrema direita à Casa Rosada.

Nesta entrevista concedida à Agência Saiba Mais, Soledad comenta os desafios enfrentados atualmente pelas forças progressistas argentinas, denuncia o desmonte das políticas de memória e direitos humanos promovido por Milei e alerta: “a democracia não está garantida”. Ela também destaca o papel que governos como o da professora Fátima Bezerra, no Rio Grande do Norte, exercem na construção de políticas que aproximam os povos latino-americanos.

Para a militante, experiências regionais desenvolvidas nos estados brasileiros, como o fortalecimento da educação pública, da cultura e da cooperação internacional, são sementes de resistência. “As províncias, os estados, os municípios, estão cada vez mais sendo atores chave na integração e no bem-estar dos povos”, afirma Soledad, ao defender uma articulação multiescalar das lutas populares.

Na entrevista, ela também fala sobre o impacto da perseguição judicial a Cristina Kirchner, o papel das juventudes, o esvaziamento de programas sociais e os limites e potências das instituições regionais. O texto a seguir é a íntegra da conversa, sem cortes, como forma de preservar a densidade e a generosidade do diálogo.

Confira entrevista completa com Soledad Magno.

1. Soledad, a gente tem acompanhado com preocupação o cenário argentino. Como você definiria o momento atual do país sob o governo de Javier Milei? O que está em jogo com as reformas e decretos que ele vem implementando?

Soledad: O momento atual é muito difícil. Para além da perseguição política à presidenta do Partido Justicialista, Cristina Fernández de Kirchner, também há perseguição a outros militantes políticos do peronismo. Mas isso está diretamente ligado à crise econômica vivida pelo país, resultado das medidas adotadas pelo atual governo.

No ano passado, foi aprovado um conjunto de leis que concedeu superpoderes ao presidente, permitindo que governasse por decreto. Esses poderes foram válidos por um ano e se encerraram na semana passada. Durante esse período, o governo promoveu uma série de reformas do Estado que incluíram a demissão de funcionários públicos e a completa paralisação dos investimentos em obras públicas.

Hoje, isso já é visível: estradas em péssimo estado, ausência de novos hospitais e a deterioração dos que já existem. O mesmo acontece com a educação — escolas e universidades estão em situação crítica.

Além desse pacote de leis, houve um avanço preocupante na repressão às manifestações sociais. A ministra Patricia Bullrich instituiu um novo “protocolo antipiquetes”, voltado a reprimir protestos. Ainda assim, diferentes setores da sociedade — como saúde, educação e aposentados — seguem se manifestando quase diariamente nas ruas da Argentina.

2. A Argentina é historicamente uma referência na luta por memória, verdade e justiça. Como esse novo governo tem se posicionado em relação a esse legado construído com tanta dor pelas Madres e Abuelas da Plaza de Mayo? Em meio aos ataques às políticas de direitos humanos, a recente localização do neto 140 pelas Abuelas reacendeu a esperança e reafirmou a importância dessa luta. Que significado esse reencontro carrega para vocês, especialmente nesse momento de ofensiva da extrema direita?

Soledad: Como se costuma dizer, a Argentina é historicamente uma referência na luta por Memória, Verdade e Justiça, graças ao trabalho das Mães, Avós e Filhos. Foi construída uma memória histórica que, apesar do desfinanciamento promovido pelo governo nos últimos meses, continua ativa. Prova disso é a recente identificação do neto 140.

Existe uma tentativa do atual governo de instaurar uma discussão pública sobre esse tema, mas ela tem muito pouco respaldo. São setores muito pequenos da sociedade que sempre defenderam a ditadura militar.

A última marcha de 24 de março deste ano, data que marca o aniversário do golpe de Estado, foi massiva. Os organismos de direitos humanos seguem em sua luta, mesmo sem o apoio do Estado Nacional, mas ainda contando com o apoio de alguns governos provinciais, além de muitos deputados e senadores.

A luta por direitos humanos sofreu muitos reveses, mas para nós continua sendo um exemplo de perseverança. E, mesmo que este seja um momento difícil, essa batalha vai continuar. Apesar do tempo nos fazer perder muitas mães e avós que vêm falecendo, seus filhos — e inclusive seus netos — estão assumindo esse legado e continuam a mesma luta por Memória, Verdade e Justiça.

3. A perseguição política à ex-presidenta Cristina Kirchner se intensificou nos últimos anos. Como você enxerga esse processo? Trata-se de uma tentativa de interditar lideranças populares através do chamado lawfare, como ocorreu com Lula no Brasil?

Soledad: Sim, a perseguição contra Cristina Fernández de Kirchner começou durante o governo de Mauricio Macri, em 2016. Essa causa pela qual ela foi condenada se intensificou naquele período, e há muitas outras ações judiciais contra ela. Foi claramente parte da política do governo Macri.

Não é coincidência que essa causa tenha seguido exatamente os tempos do calendário eleitoral: sempre às vésperas de eleições ou do fechamento das listas de candidaturas, surgiam novidades no processo. Muitas vezes, essas informações eram antecipadas pelos meios de comunicação, sob forte pressão midiática.

Como vocês mencionaram na pergunta, é muito parecido com o que aconteceu com Lula no Brasil. Trata-se, sim, de uma tentativa de proscrição da ex-presidenta, que hoje é a principal líder da oposição e a pessoa mais bem colocada nas pesquisas eleitorais para enfrentar o atual governo.

Por isso, em 2019, ela decidiu não se candidatar à presidência, optando por ser candidata a vice. E não é à toa que essa sentença foi publicada exatamente uma semana depois de ela anunciar sua intenção de disputar uma vaga como deputada nas eleições deste ano.

A condenação incluiu, além de seis anos de prisão, a proibição de ocupar cargos públicos — uma proscrição política vitalícia. Essa pena foi incluída no Código Penal em 2002, a pedido do Fundo Monetário Internacional, o que também não é coincidência.

Portanto, essa proscrição é uma tentativa clara de anular politicamente não apenas Cristina, mas todo o peronismo.

4. Você é militante da Cámpora, uma organização que nasceu na juventude e que teve papel central nos governos Kirchneristas. Como está sendo resistir diante desse cenário de ataques ao campo popular? O que mudou na forma de mobilização?

Soledad: Sim, faço parte da La Cámpora desde a sua criação. A Cámpora é uma organização política fundada durante o governo de Néstor Kirchner, com o objetivo de constituir uma força militante própria. Surgimos também como resposta à crise dos partidos políticos dos anos 1990, um período em que muitos jovens, como eu, não acreditávamos mais na política. Por isso, a organização foi pensada como uma nova forma de fazer política.

Atualmente, vivemos uma nova etapa de resistência, mas também de construção de propostas. Temos deputados e senadores nacionais, além de prefeitos que hoje estão à frente da administração de suas cidades.

Devo dizer, inclusive, que todos os nossos prefeitos foram reeleitos por conta da gestão que realizaram, reconhecida e valorizada pelo povo. E, claro, hoje nosso objetivo é seguir lutando pela liberdade de Cristina Kirchner e pela construção de uma alternativa ao governo de Javier Milei.

5. O Brasil e a Argentina compartilham semelhanças profundas, inclusive no avanço da extrema direita e nos ataques à democracia. Na sua opinião, o que explica esse movimento reacionário na região e quais os caminhos para enfrentá-lo coletivamente?

Soledad: Sim, acredito claramente que há um plano articulado para toda a região — o avanço da extrema direita e os ataques à democracia têm relação direta com os governos populares que tivemos, tanto na Argentina quanto no Brasil e em outros países da América Latina. Esses governos se posicionaram firmemente em defesa da soberania e promoveram processos de integração regional ao longo daqueles anos. Por isso, os ataques miram diretamente em figuras como Lula e Cristina.

Também por esse motivo, acredito que devemos enfrentá-los de forma coletiva. Precisamos entender que o que acontece no Brasil também nos afeta na Argentina, e vice-versa. É fundamental construirmos planos de integração regional — não apenas comerciais, mas também políticos — como fizeram Néstor Kirchner e Lula em seu tempo.

6. Você tem uma trajetória marcada por atuação em organismos regionais e espaços como o Parlamento do Mercosul. Como avalia o impacto do desmonte das políticas de integração regional promovido pelos governos neoliberais, tanto na Argentina quanto no Brasil pós-golpe de 2016?

Soledad: Essa questão está diretamente ligada à anterior — há uma relação direta entre democracia e integração regional.

Na nossa região, quanto mais integração regional tivemos, mais democracia também conquistamos. E não apenas democracia eleitoral, mas uma democracia mais ampla, com maior participação popular nas decisões políticas, e mais envolvimento do povo na organização política e social.

Por isso é que as políticas de integração regional são atacadas e desmontadas. Os governos de ultradireita querem reduzir a integração regional a um simples processo comercial — foi isso que vimos, por exemplo, no discurso de Javier Milei na última cúpula do Mercosul.

Felizmente, com Lula assumindo a presidência pro tempore do Mercosul, vimos um posicionamento totalmente diferente: seu discurso apontou para uma integração regional a serviço dos povos — e não do poder econômico.

7. Diante do avanço da agenda ultraliberal e autoritária, como está a articulação das forças progressistas na Argentina? Há possibilidade de recomposição de um campo popular forte nas próximas disputas?

Soledad: Estamos convencidos de que é necessária uma articulação entre as forças progressistas e do campo popular. Mas não se trata apenas de uma unidade eleitoral — é preciso construir uma unidade programática e política.

Hoje, o centro do nosso debate gira em torno de quem deve conduzir essa unidade, e defendemos que essa liderança deve ser exercida por Cristina Fernández de Kirchner. Ela é, não só pela sua trajetória, a principal liderança da oposição, mas também a mais forte em termos eleitorais — todas as pesquisas a apontam como a dirigente com maior intenção de voto. É um cenário muito parecido com o que aconteceu com Lula no Brasil.

Atualmente, estamos trabalhando nessa unidade programática e também na construção de uma frente eleitoral para as próximas eleições. Neste sábado, inclusive, se encerram os prazos para a apresentação das candidaturas na província de Buenos Aires.

Estamos formando uma frente unificada, e é nessa direção que temos que trabalhar até 2027, quando ocorrerão as próximas eleições presidenciais.

8. Aqui no Rio Grande do Norte, estamos num estado que, mesmo diante das dificuldades, tem buscado caminhos de inclusão e defesa dos direitos — com uma governadora mulher, do campo popular. Como essas experiências locais se conectam à luta maior por democracia e soberania na América Latina?

Soledad: Acredito, sem dúvida, que os governos locais hoje são uma espécie de ponta de lança para a integração regional e para a construção de bem-estar para os nossos povos.

Não é por acaso que, na nossa região, tenhamos presidentes que vieram da gestão local, como Gustavo Petro, que foi prefeito de Bogotá, ou Yamandú Orsi, recém-eleito no Uruguai, que foi prefeito de Canelones. Os governos locais permitem um contato direto com o povo e com suas necessidades reais.

Por isso, essa também deve ser uma frente de atuação para construirmos a integração regional a partir dos municípios e territórios.

Isso já está acontecendo hoje, com a articulação de redes como a Mercociudades, que têm cumprido um papel importante na troca de experiências exitosas, no intercâmbio de políticas públicas e na construção de processos de integração. Especialmente em cidades de fronteira — como entre Argentina e Brasil —, que muitas vezes têm mais semelhanças entre si do que com as próprias capitais dos seus países.

Tenho certeza de que esses são espaços institucionais que devemos fortalecer. E, aliás, me esqueci de mencionar antes: a presidenta do México, Claudia Sheinbaum, também veio da gestão local — foi governadora da Cidade do México. Acredito que precisamos valorizar essas experiências de proximidade com o povo e prestar atenção especial às mulheres que hoje estão governando em várias províncias ou estados, como se chama em cada país. Elas têm transformado não só a política, mas também as políticas públicas nos territórios que administram.

9. A gente sabe que a memória é também um território de disputa. Qual o papel da cultura, da juventude e da comunicação nesse momento? Que recados você deixaria para quem está lutando, aqui no Brasil, para manter viva a memória das ditaduras, denunciar os retrocessos e seguir apostando na construção de um futuro mais justo?

Soledad: De fato, a memória é sempre um território em disputa — tanto quando estamos no governo quanto quando não estamos. E, neste momento, a cultura, a juventude e a comunicação cumprem um papel fundamental, não apenas de resistência, mas também de construção ativa dessa memória coletiva.

Acredito que temos o exemplo inspirador das Mães e Avós da Praça de Maio, que durante muitos anos construíram essa memória coletiva. Às vezes eram poucas, outras vezes mais numerosas, mas muitas vezes contaram com a adesão da juventude. Criaram meios de comunicação alternativos para poder dizer as nossas verdades.

Sem dúvida, para construirmos um país mais justo, é essencial fortalecer essa construção coletiva, com protagonismo das juventudes como motor de transformação. A cultura e a comunicação são ferramentas indispensáveis nesse processo — especialmente em um mundo onde esses campos estão, em grande parte, capturados pelos poderes econômicos.

Ao mesmo tempo, acredito que é possível aproveitar as redes sociais e outros meios alternativos para chegar ao povo e construir, de forma coletiva, uma alternativa real ao que a direita tem nos imposto.

10. ⁠Soledad, a Argentina tem eleições importantes em outubro. Diante desse cenário de tantos retrocessos, como estão as perspectivas para uma recomposição das forças progressistas? Há espaço real para reorganização do campo popular? E como você analisa o avanço da direita entre os jovens, especialmente numa geração que não viveu os horrores da ditadura, mas que hoje parece cada vez mais capturada por discursos autoritários, antissolidários e individualistas? O que está faltando nesse diálogo com a juventude?

Soledad: Como eu já dizia, estamos em pleno processo de construção — neste sábado se encerram os prazos para o registro das candidaturas na província de Buenos Aires, e vamos apresentar uma frente unificada. Está em curso uma recomposição das forças progressistas.

A partir da condenação e da proscrição da presidenta Cristina Fernández de Kirchner, abriu-se um espaço importante para a reorganização do campo popular. Houve uma reação, com diversas mobilizações e ações políticas realizadas em todo o território, não apenas em Buenos Aires.

Sobre o avanço da direita entre os jovens, como Cristina já explicou lá em 2017, isso está ligado a uma insatisfação democrática. Muitos jovens de hoje não viveram os períodos mais sombrios da nossa história e, por isso, não enxergam na democracia uma solução concreta para suas vidas.

Esse sentimento está diretamente relacionado ao sistema neoliberal que domina o mundo — e ao qual nossos governos populares têm tentado oferecer respostas. Mas vivemos nesse mundo, com todas as suas contradições, e precisamos continuar trabalhando na construção da memória coletiva entre os jovens.

A rebeldia precisa voltar a ser sinônimo de solidariedade, justiça social e construção coletiva — e não de autoritarismo e individualismo.

As redes sociais desempenham um papel muito forte nesse processo, e a pandemia contribuiu para o isolamento da juventude. Por isso, precisamos criar espaços de encontro presencial, cara a cara, onde os jovens possam experimentar, por si mesmos, que o caminho coletivo é mais potente. Precisamos manter abertos nossos espaços políticos — o que chamamos de “unidades básicas”, que são nossos comitês locais —, além dos clubes de bairro, das escolas, de todos os espaços coletivos possíveis. Devemos organizar e nos organizar em todos esses lugares.

Sem dúvidas, esse modelo proposto pela ultradireita não é sustentável. Ele vai cair — mais cedo ou mais tarde. E, para isso, temos que construir popularmente uma alternativa, como vocês vêm fazendo no Brasil: um modelo político coletivo, com justiça social.

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