Da roça à academia: documentário revela a jornada da mãe de santo potiguar Iyá Luciene
Filha do campo e guiada pelos ventos de Oyá, também conhecida como Iansã, Luciene trilhou um caminho marcado por fé, resistência e conhecimento. De menina do interior a Iyalorixá em Natal, construiu o Ilê Axé Obeotogundá Iré, hoje um espaço de cultura viva e referência para comunidades tradicionais. Ao longo dessa jornada, alcançou um feito inédito no Brasil, tornou-se a primeira mãe de santo a se formar em Ciências da Religião, reafirmando a educação como força para combater o racismo e abrir caminhos de igualdade.
Essa história chega agora às telas no documentário Iyá Luciene, Nascida do Fogo, obra que mergulha em sua trajetória pessoal e espiritual. A narrativa é conduzida pelo tempo iorubá, onde passado, presente e futuro se entrelaçam, e evidencia o papel político das religiões de matriz africana. Com estética poética, tons terrosos e azuis que remetem a Oyá e Ogum, o filme combina espiritualidade, território e resistência. Os sons do rum de Oyá e elementos da Jurema Sagrada criam uma atmosfera sensorial que aproxima quem assiste da força ancestral que move Luciene.
“Receber a proposta da minha Iyá de contar sua história foi um presente da ancestralidade”, afirma a diretora e roteirista Auana Câmara. “Passei a ter sede de entender o caminho que ela construiu e de entrelaçar a fundação do barracão com meu próprio desenvolvimento espiritual.”
Para Auana, o filme nasce também como um ato político e de expansão de saberes: “Espero que ele percorra todo o Brasil e, com apoio, também chegue a outros países. Iyá Luciene, Nascida do Fogo fala de direitos humanos, educação, empoderamento e tecnologias ancestrais em diálogo com o presente.”
Lançamento em Natal
A pré-estreia de Iyá Luciene, Nascida do Fogo acontece neste sábado, 27 de setembro, às 18h30, na Travessa Santa Ana, 14, no bairro Jardim Progresso, em Natal. O evento faz parte da Mostra Cine Irè, iniciativa da Escola de Axé, que fortalece saberes afro-brasileiros por meio de cursos de Yorùbá, oficinas de audiovisual, escrita criativa e outras ações culturais.
Na programação, além do documentário, serão exibidos os curtas potiguares Felis, de Caio Medeiros e Jane Gomes, e Oxóssi, o Senhor da Comunidade, de Ysmael Ventura. O público também poderá prestigiar uma feira cultural com artesanato e produções da comunidade, transformando a noite em um encontro coletivo de arte, memória e afeto. A entrada é gratuita e a classificação indicativa é livre.
O curta foi produzido pela Produtora Passa Visão em parceria com o Ponto de Cultura Viva Ilè Asé Obéòtògúndá Iré, com apoio da FUNCARTE, Prefeitura do Natal, Ministério da Cultura e Governo Federal, por meio da Lei Paulo Gustavo, na categoria de novos realizadores.