Ex-babá lembra convívio com Maria Boa no cabaré mais famoso de Natal
Maria Boa ocupa um lugar único na história de Natal. Dona do cabaré mais famoso da capital potiguar durante boa parte do século XX, ela se tornou uma personagem que atravessou gerações e continua despertando curiosidade décadas após sua morte. Seu estabelecimento, instalado na Ribeira, viveu o auge em um período em que o bairro concentrava hotéis, bares, cinemas e a intensa vida noturna da cidade.
A movimentação cresceu ainda mais durante a Segunda Guerra Mundial, quando Natal passou a receber milhares de militares brasileiros e norte-americanos por causa da Base Aérea de Parnamirim Field, conhecida como Trampolim da Vitória. Nesse cenário, o nome Maria Boa deixou de identificar apenas uma mulher para se transformar em parte da memória urbana da capital.
Filha de um sapateiro e nascida em Campina Grande (PB) Maria de Oliveira Barros, a Maria Boa, construiu uma trajetória marcada por superação e controvérsias. A literatura sobre sua vida reúne diferentes versões, mas todas convergem para o fato de que partiu de uma origem humilde para comandar um dos estabelecimentos mais conhecidos da cidade.
A casa dele tornou-se referência na boemia potiguar, frequentada por comerciantes, empresários, políticos, artistas e militares que passavam por Natal. Ao mesmo tempo, Maria Boa construiu uma reputação de administradora rigorosa, conhecida por manter disciplina dentro do estabelecimento e por cultivar relações duradouras com funcionários que permaneceram ao seu lado por décadas.
Entre essas pessoas está Alzenir da Silva, de 64 anos. A história das duas começou muito antes dela compreender quem era aquela mulher que tanta gente comentava. Do convívio não sobraram fotos, mas a memória guarda muitas histórias.
Toalhas bordadas, peças de linha e goma de araruta
A mãe de Alzira trabalhava para Maria Boa como lavadeira e cozinheira. As roupas de cama, toalhas bordadas e peças de linho da empresária eram lavadas nas águas que cortavam o Passo da Pátria, engomadas com goma de araruta e passadas em pesados ferros de carvão.
“Minha mãe criou cinco filhos lavando roupa para Dona Maria”, conta em entrevista à Agência Saiba Mais.
Ainda pequena, Alzenir acompanhava a mãe durante o trabalho e foi crescendo entre a residência de Maria Boa e o cotidiano das lavadeiras da comunidade.
A infância de Alzenir também ajuda a reconstruir uma Natal que praticamente desapareceu. Ela lembra que o rio era limpo, a areia era branca e as mulheres lavavam roupas sentadas sobre pedras, enquanto a água corria naturalmente. As famílias cozinhavam à sombra das árvores, as crianças passavam o dia brincando na maré e os pescadores distribuíam parte do pescado entre os vizinhos.
“Naquele tempo a gente vivia. Hoje a gente sobrevive”, resume.
É dessa paisagem que surge sua ligação com Maria Boa. Enquanto a mãe lavava roupas, a menina circulava pela casa da empresária até que, por volta dos 13 anos, recebeu um convite inesperado.
Maria Boa precisava de alguém em quem confiasse para cuidar de sua primeira neta de criação. Escolheu justamente a filha da lavadeira que havia trabalhado tantos anos ao seu lado. A partir daquele momento, Alzenir passou a dividir a rotina entre a escola e a casa da empresária. Dava banho nas crianças, preparava mamadeiras, lavava fraldas de pano, organizava as roupas e acompanhava o crescimento das meninas.
“Ela dizia que eu era filha dela“, lembra.
A confiança era tanta que um carro enviado por Maria Boa buscava a adolescente para que ela pudesse estudar e depois retornar à residência.
Um cabaré de respeito e com regras rígidas
Essa convivência permitiu que Alzenir conhecesse uma Maria Boa muito diferente da personagem que ficou famosa na cidade. Segundo ela, o cabaré funcionava com regras rígidas. O salão principal tinha mesas de madeira, um barman responsável pelas bebidas e acesso controlado. Homens não entravam de sandálias ou roupas informais, só com sapatos fechados e terno. Havia quartos destinados aos programas, cozinha, refeitório para as mulheres e uma equipe permanente de funcionários. A segurança, segundo recorda, era feita por policiais federais que atuavam no estabelecimento.
“Era uma boate de respeito“, afirma a ex-babá, para quem a disciplina era uma das marcas da empresária.
Outra curiosidade revelada pela ex-funcionária é que Maria Boa raramente aparecia no salão. Apesar de ser dona da casa, preferia permanecer em sua residência, localizada ao lado da boate, enquanto gerentes administravam o funcionamento diário. Muitas mulheres que trabalharam no local, segundo Alzenir, jamais chegaram a conhecê-la pessoalmente. As orientações eram transmitidas por telefone ou pelos administradores. Esse distanciamento contribuiu para fortalecer a imagem quase misteriosa que a empresária construiu ao longo dos anos.
Embora tenha se tornado conhecida pelo cabaré, Maria Boa também é lembrada pelo acolhimento oferecido às mulheres que trabalhavam para ela. De acordo com Alzenir, quando alguma delas engravidava e não tinha condições de criar o bebê, a empresária assumia a responsabilidade. Foi assim que criou filhos posteriormente reconhecidos como herdeiros.

De presente, um vestido de noiva
A relação entre as duas ficou ainda mais evidente quando Alzenir decidiu se casar. Ela tinha iniciado um namoro ainda adolescente e, antes do casamento, contou a novidade para Maria Boa. A resposta veio em tom de brincadeira:
“Não invente de casar para não me abandonar”, lembra.
Dias depois, perguntou se a jovem já tinha vestido de noiva. Diante da resposta negativa, assumiu toda a organização da cerimônia. Comprou o vestido, providenciou o enxoval, escolheu o buquê, contratou o maquiador e pediu que Alzenir passasse a tarde de seu casamento em sua casa. Quando chegou, encontrou outra surpresa: as três meninas que havia ajudado a criar estavam vestidas como damas de honra, usando roupas semelhantes à da noiva e carregando buquês iguais ao seu.
A saída da residência de Maria Boa virou um acontecimento. Alzenir lembra que dezenas de pessoas se concentraram na porta apenas para ver a empresária e acompanhar o início da cerimônia. Ela deixou a casa em um carro de Maria Boa com destino à Igreja de São Pedro, enquanto curiosos observavam a movimentação. Antes disso, porém, a empresária chamou o noivo para uma conversa reservada.
“Você pode levar ela. Mas, se um dia não quiser mais, devolva inteira. Não machuque, porque ela é minha”, disse a empresária.
Décadas depois, a frase continua sendo uma das lembranças mais emocionantes da entrevistada.
“Ela me tratava como filha“, repete.
Após o casamento, Alzenir mudou-se para Santos, onde viveu durante alguns anos e teve dois filhos. Mais tarde retornou a Natal e voltou a visitar Maria Boa, que já enfrentava problemas de saúde. Segundo ela, a empresária foi diagnosticada com câncer e passou por uma cirurgia da qual nunca conseguiu se recuperar completamente. Antes de deixar Natal para seguir tratamento em São Paulo, tomou uma decisão que ainda hoje é lembrada pelos antigos funcionários: determinou que o imóvel fosse vendido e que todos os trabalhadores recebessem integralmente seus direitos trabalhistas.
“Todo mundo recebeu. Ninguém ficou sem nada”, afirma.
A morte de Maria Boa mobilizou Natal. O enterro, realizado no cemitério de Nova Descoberta, reuniu familiares, antigos funcionários e uma multidão de curiosos. Alzenir acompanhou toda a cerimônia ao lado da mãe. Ela lembra que o número de pessoas era tão grande que a família precisou restringir o acesso ao velório.
“Parecia enterro de artista”, compara.
Para ela, aquele movimento mostrava o tamanho da influência exercida pela empresária na cidade.
“Muita gente foi só porque era Maria Boa”, relembra.
Cajueiro plantado por Maria Boa permanece no terreno onde funcionou o cabaré
Hoje, parte do terreno onde funcionava o cabaré foi modificada pelas transformações urbanas da Ribeira, mas alguns vestígios permanecem. Entre eles está um cajueiro que, segundo Alzenir, foi plantado pela própria Maria Boa quando se estabeleceu no imóvel. Sempre que retorna ao local, ela recorda os anos vividos ali e lembra de episódios que, para ela, parecem manter viva a presença da empresária.
“Ela gostava muito daquele cajueiro”, conta.
Mais do que recordar uma personagem famosa da boemia natalense, as memórias de Alzenir ajudam a revelar um lado pouco conhecido de Maria Boa. A mulher que administrou o cabaré mais célebre da cidade também sustentou famílias, acolheu filhos de criação, financiou o casamento de uma jovem criada ao seu lado e encerrou suas atividades garantindo os direitos de quem trabalhou para ela. Histórias como essas ajudam a compreender por que, tantas décadas depois, seu nome continua presente não apenas nos livros sobre a noite natalense, mas também nas lembranças de quem conviveu diariamente com ela muito longe dos holofotes do cabaré.
Saiba Mais: Drag queen Kaya Conky resgata memória de Maria Boa em novo álbum