Museu da Demolição: a resistência contra o apagamento da memória urbana de Natal
Entre demolições silenciosas e o avanço da especulação imobiliária, ela encontrou na memória uma forma de resistência: nasceu assim o Museu da Demolição de Natal, projeto que registra casas e edifícios prestes a desaparecer, ao mesmo tempo em que convoca a população a refletir sobre o futuro da cidade.
“Percebemos que muitas casas antigas, especialmente no eixo entre Petrópolis e Cidade Alta, estavam à venda ou simplesmente sendo demolidas para dar lugar a prédios residenciais e comerciais. Queríamos registrar essa versão de Natal que está deixando de existir”, explica a arquiteta e coordenadora do projeto, Wire Lima . Mais do que um arquivo de imagens, o museu virtual se propõe como espaço de debate público sobre urbanismo, habitação e o direito à cidade.
O projeto nasce como ramificação do Aqui Já Existiu Cinema, iniciativa que também viralizou nas redes sociais ao mapear antigos espaços de exibição na cidade. As duas propostas compartilham a mesma origem: a vivência cotidiana do centro, cafés, bares e esquinas que guardam histórias e inspiram inquietações. “São projetos que nasceram apenas da vontade de jogar nossas angústias para o mundo. Queremos que mais pessoas frequentem e discutam a cidade”, afirma a arquiteta.
Especulação
Para Wire, o patrimônio arquitetônico de Natal está desaparecendo sem que a população perceba a gravidade da situação. “Petrópolis tem casas belíssimas do século XX, mas quase nada tombado. Essas construções vão ruindo e sendo demolidas sem deixar vestígios. A ideia de ‘museu da demolição’ é justamente preservar, ainda que em imagens, uma cidade que está sumindo diante da especulação imobiliária.”
A crítica se estende também ao abandono das políticas públicas de habitação no centro histórico. Enquanto cidades como Recife, São Paulo e Rio de Janeiro avançam em projetos de retrofit habitacional, Natal segue atrasada. “Há anos ouvimos promessas de isenção de IPTU para a Cidade Alta, mas nada se concretiza. Sem gente morando no centro, não adianta pintar fachadas ou revitalizar praças”, diz.
Para além da denúncia, o Museu da Demolição também se coloca como um gesto artístico e político. “Qualquer ação contra o grande capital é resistência. O poder público não entende que demolir prédios históricos é também destruir parte da nossa identidade e desperdiçar um enorme potencial turístico. Cidades europeias recebem visitantes justamente para conhecer os espaços e as histórias que aquelas paredes guardam”, defende Wire.
A repercussão tem surpreendido a equipe. Assim como aconteceu com o Aqui Já Existiu Cinema, a página tem mobilizado centenas de pessoas, revelando uma demanda reprimida por debates sobre memória e direito à cidade. “A cada postagem, percebemos como esse assunto é urgente e mobilizador”.
Sonhos e urgências
Na visão da arquiteta, o futuro do centro histórico passa necessariamente por políticas concretas e continuidade administrativa.
“Espero que ao menos as obras iniciadas sejam concluídas, como a da avenida João Pessoa, hoje em situação precária. Nos últimos 30 anos, dezenas de projetos foram anunciados, mas sempre interrompidos. Falta vontade política”, critica.
Enquanto a utopia de uma Natal mais caminhável e humana não chega, o convite é simples: ocupar e valorizar o centro da cidade. “Frequentem os cafés, os sambas, as ruas. Olhem para cima, atrás das placas de ACM ainda existem fachadas ricas em história. Conversem conosco, mandem informações, mas sobretudo cobrem dos políticos o direito à cidade. Só assim poderemos resistir ao apagamento e sonhar com uma Natal que respeite sua própria memória”, conclui.