“A Maré” atravessa o Potengi e chega à Mostra de cinema de Gostoso
O Rio Potengi, que molda a geografia e a memória de Natal, agora ganha corpo e ritmo na tela grande. A Maré, documentário dirigido por Jair Libanio e produzido pela Rabicó Produções, coletivo formado por estudantes de audiovisual da UFRN, acaba de estrear oficialmente na Mostra Poti Sesc de Cinema e, antes mesmo de chegar ao público potiguar, já havia sido selecionado para a 12ª Mostra de Cinema de Gostoso, um dos eventos mais prestigiados do audiovisual do Nordeste.
O filme, contemplado pelo Edital Poti Cultural Sesc 2024, mergulha nas histórias de quem vive às margens do Potengi, revelando o fluxo das marés como metáfora de memória, pertencimento e resistência. Entre o mangue, o estuário e a cidade, o documentário captura a força de um rio que ainda pulsa apesar das transformações impostas pelo tempo e pelo concreto urbano.
Uma estreia inundada
A primeira exibição pública ocorreu no dia 13 de novembro, na reabertura do Teatro Sesc Sandoval Wanderley, na Mostra Poti Sesc de Cinema. A sessão, gratuita, lotou o espaço e antecedeu uma exibição especial para escolas no dia seguinte. A programação reuniu três obras potiguares frutos do mesmo edital.
A Rabicó Produções nasceu em sala de aula, um exercício da disciplina de TV, em 2022, transformou-se em coletivo e, desde então, a produtora vem acumulando experimentação e reconhecimento. A Maré é seu projeto mais ambicioso até agora e o primeiro viabilizado por um edital público.
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Para Jair Libanio, diretor do filme, a relação com o Potengi antecede a câmera. É biográfica:
“Foram muitas vivências em torno do Potengi, momentos de meditação ao pôr do sol na Pedra do Rosário, o cheiro do mangue nas travessias pela Ponte Velha. O rio me atravessa. Durante o projeto Jornada no Potengi, ouvimos histórias que nos encantaram, e ali o filme já existia.”
A ideia surgiu em 2023, durante as atividades do Instituto Casa D’Água na ADIC (Associação para o Desenvolvimento da Criança e do Adolescente), onde oficinas com moradores e crianças abriram caminhos afetivos que se tornariam pilares do documentário. Ainda na graduação, Jair e a assistente de direção, Ion Cavalcanti, inscreveram o projeto na disciplina de Documentário e visualizaram ali o início de uma obra maior.
O filme é construído como experiência sensorial. A fotografia de Ana Clara e Tiago Saza e o desenho de som concebido desde as primeiras imersões formam uma narrativa que respira no ritmo das águas.
“Pensamos A Maré como algo vivo e orgânico, como o próprio Potengi. Na montagem, o ritmo das águas se tornou ainda mais evidente”, explica Jair.
Os sons do casco do barco, o murmúrio do rio entre o manguezal, a cidade que se insinua ao longe: cada elemento se entrelaça para dar conta daquilo que não cabe apenas nas palavras.
Ion Cavalcanti reforça o caráter político dessa construção estética:
“Percebemos como alguns pontos do rio são negligenciados. Mesmo assim, as comunidades ribeirinhas demonstram muito afeto e cuidado. Essa força do que é marginalizado atravessa o filme.”
O Potengi é mais que paisagem: é memória coletiva de Natal. Representá-lo exigiu sensibilidade e escuta:
“Entendi que o filme não era só sobre o rio, mas sobre como nos relacionamos com ele. É um convite a repensar nossos ritmos", explica.
A etapa das oficinas “Todos os Caminhos Levam à Maré”, realizadas na ADIC antes das filmagens, marcou o diretor: “Quando ouvi as crianças falando do mangue e do que a maré representava, percebi que o filme já estava sendo construído ali.”
A Mostra de Cinema de Gostoso, que acontece de 20 a 24 de novembro, inaugurou em 2025 a Mostra Potiguar, dedicada exclusivamente à produção local. A Maré está entre os nove curtas selecionados.
Para a equipe, a notícia chegou como um presente antecipado.
“A Mostra de Gostoso sempre esteve no coração da nossa equipe. Assistimos filmes ali desde o início da graduação. Lançar nosso filme no telão com o pé na areia é profundamente simbólico”, conta.
Ion Cavalcanti reforça:
“Ver nosso nome na programação parece surreal. É um reconhecimento das produções feitas dentro da universidade.”
Desafios e aprendizados de um cinema que nasce na universidade
A produção foi marcada por muitas primeiras vezes: primeiros editais, primeiros equipamentos adquiridos com recursos, primeira grande logística.
“Foi incrível ver a galera no modo profissional, trabalhando coletivamente e com sede de fazer tudo certinho”, recorda Jair. “Ver o filme pronto dá um orgulho imenso.”
O avanço da Rabicó no circuito audiovisual acompanha o fortalecimento do curso de audiovisual da UFRN, que recebeu nota máxima pelo Inep em 2022. Desde a adaptação de Venha Ver o Pôr do Sol até o novo documentário, o coletivo combina ousadia, pesquisa, afeto e técnica.
O que move o grupo, no entanto, permanece o mesmo: o desejo de contar histórias que partem do território, escutam as margens e devolvem dignidade ao que costuma ser invisibilizado.
E, em A Maré, essa escuta encontra o rio que molda a cidade, um rio vivo, que insiste, que retorna, que resiste. Um rio que também é cinema.
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