Ex-embaixador na Palestina lança livro em Natal sobre memórias no Oriente Médio
O ex-embaixador do Brasil junto à Autoridade Nacional Palestina (ANP) e atual cônsul-geral em Lisboa, Alessandro Candeas, 59 anos, lançou o livro “Peregrinação e Guerra – Anotações de um Diplomata na Terra Santa”, na última terça-feira (18), no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), em Natal. Dividida em quatro partes, a obra é uma espécie de diário de memórias reunindo as mais diversas experiências sociais, culturais e diplomáticas que ele vivenciou entre 2020 e 2024, período em que esteve à frente da representação em Ramallah, no território ocupado da Cisjordânia. Ele analisa desde as raízes do conflito na chamada “Terra Santa” até eventos recentes como a atual guerra de Israel em Gaza.
Nascido em Recife (PE), Alessandro Candeas tem ligações profundas com o Rio Grande do Norte: sua mãe é de Guamaré, município localizado na região Central Potiguar. Ele também morou com a família em Natal, onde cursou o ensino fundamental e o médio no Colégio das Neves. Os pais, aliás, ainda vivem na capital potiguar, cidade que o diplomata diz “adorar” e onde, sempre que pode, volta para “passar férias e rever os amigos”.
“Por isso eu quis ter o privilégio de poder lançar esse livro no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e ter oportunidade de compartilhar com meus amigos, professores e novos alunos toda essa experiência como ex-embaixador brasileiro na Palestina”, contou, em entrevista exclusiva à Agência Saiba Mais.

Alessandro Candeas conta que, desde o primeiro momento em que começou ase preparar para assumir o posto de embaixador do Brasil na Palestina, teve a ideia de escrever a obra, porque intuía que “a experiência seria tão rica que mereceria escrever um livro”.
“Essa foi a minha primeira missão como embaixador. Eu sou diplomata já há mais de 30 anos, mas esse foi meu primeiro posto como embaixador. Eu sabia que a experiência valeria tanto a pena que desde o início tive esse desejo de escrever um livro”, narra. As raízes nordestinas, segundo ele, facilitaram sua adaptação na Cisjordânia: “O Oriente Médio, a Palestina e também Israel lembram muito o Nordeste, as pessoas se parecem muito com os nordestinos. Por isso, a adaptação foi muito fácil”.
Na entrevista, ele confirma que a experiência que mais lhe marcou foi a complexa operação para resgatar os brasileiros que viviam na Faixa de Gaza, logo após o início da guerra de Israel, em outubro de 2023. “Nós fizemos a maior evacuação por via aérea da história do Brasil, num total de mais de 1.500 pessoas, saindo tanto de Israel quanto de Gaza e da Cisjordânia”, conta.

Para o diplomata, apesar do anúncio recente de cessar fogo, o conflito na região “continuará enquanto suas causas estruturais, políticas e culturais não forem resolvidas”. “Uma dessas causas é a ausência do Estado Palestino, a autodeterminação palestina, o direito de se constituir com um Estado independente nunca foi exercido”.
Leia, a seguir, a íntegra da entrevista com o diplomata Alessandro Candeas:
Saiba Mais: O senhor acaba de lançar seu livro em Natal. Qual sua ligação com a cidade e com o Rio Grande do Norte?
A minha ligação com Natal é porque minha mãe é potiguar, minha mãe é do interior do Rio Grande do Norte, de uma cidade chamada Guamaré. Eu morei em Natal, meus pais moram hoje ainda em Natal, eu estudei o ensino fundamental e todo o ensino médio em Natal, no Colégio das Neves.
Então, uma boa parte da minha família portanto mora em Natal. Eu adoro Natal, sempre que posso volto para passar férias e ver os meus amigos. Por isso eu quis ter o privilégio de poder lançar esse livro no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e ter a oportunidade de compartilhar com meus amigos, professores e novos alunos toda essa experiência. Mas eu amo o Natal, eu amo o Rio Grande do Norte e sempre que puder estarei aí.
Saiba Mais: O que o inspirou a transformar suas anotações diárias em um livro de memórias como Peregrinação e Guerra? Houve algum momento específico durante sua missão em Ramallah que funcionou como “gatilho” para isso?
Desde o primeiro momento que comecei a me preparar para assumir o posto de embaixador do Brasil na Palestina, evidentemente estude, pesquisei, conversei com pessoas e autoridades e, imediatamente, me veio a ideia de escrever um livro, ou seja, antes mesmo de chegar a Jerusalém, eu já tinha a ideia de que a experiência seria tão rica que mereceria escrever um livro. Então, o próprio gatilho foi a designação como embaixador na Palestina.
Essa foi a minha primeira missão como embaixador. Eu sou diplomata já há mais de 30 anos, mas esse foi meu primeiro posto como embaixador. Eu sabia que a experiência valeria tanto a pena que desde o início tive esse desejo de escrever um livro.
Saiba Mais: O título “Peregrinação e Guerra” evoca tanto espiritualidade quanto violência. Como você equilibra esses elementos contrastantes na narrativa, especialmente ao descrever a “Terra Santa” como um diplomata brasileiro?
Interessante, verdade. O título evoca espiritualidade e violência. Na verdade, os títulos mais comuns sobre o tema são paz e guerra. Eu já conhecia Jerusalém, já tinha estado outras vezes na Palestina, como turista e em missões curtas, mas essa foi uma missão longa e havia a possibilidade de ser uma verdadeira peregrinação. Uma peregrinação espiritual, mas também profissional, peregrinação como diplomata.
Então, eu me imaginei como um diplomata peregrino, aquele que ia fazer uma missão profissional, chefiar uma embaixada, representar o Brasil, mas na Terra Santa e, portanto, sabendo tudo o que aconteceu ali, estando no lugar onde tantas coisas importantíssimas para a história da humanidade aconteceram, então você assume um desejo de peregrinação.
Mas não foi apenas uma peregrinação, eu conheci não só os lugares santos, visitei os lugares bíblicos por onde passou Jesus, mas também passei por uma guerra, o que mostra justamente esse contraste de estar em um lugar que a humanidade considera como santo, mas um lugar de guerra, de guerra perene. A guerra é um dado permanente da chamada “Terra Santa”.
Então, na verdade, não há um equilíbrio, há sim um desequilíbrio flagrante entre essas duas tensões, a tensão pela reverência, a tensão pela busca da santidade, da visita reverente aos lugares onde Jesus passou e onde as cenas bíblicas aconteceram num contexto de permanente tensão, guerra, ódio e ressentimento. Então não há possibilidade de equilíbrio, realmente há um desequilíbrio flagrante e essas duas tensões, tensão de vida e tensão de morte, estão sempre presentes ali.
Saiba Mais: O livro é dividido em quatro partes, analisando desde as raízes do conflito até eventos recentes como a guerra em Gaza. Qual parte foi a mais desafiadora de escrever e por quê?
Eu começo [o livro] com o que eu chamo de arqueologia ideológica ou arqueologia das ideias. O Michel Foucault fala sobre a arqueologia das ideias e, se a gente se aprofunda em tudo que faz, em todo o processo histórico ou social, tudo se baseia em ideias. Portanto, com mais razão ainda, uma vivência em Israel e na Palestina se baseia em uma série de ideias e utopias que foram construídas historicamente há pelo menos, eu diria, quatro mil anos, desde que Abraão saiu da Caldeia [Ur dos Caldeus, que se localizava na região da Mesopotâmia], onde hoje é o Iraque, foi até Canaã, se instalou ali e começou toda a saga tanto do povo judeu quanto dos antepassados do Islam.
A Bíblia é um livro que é um dos eixos centrais da civilização humana, portanto composto de ideias, mandamentos, ensinamentos, promessas, profecias e utopias. Você não pode compreender o que está acontecendo ali hoje usando apenas das categorias das ciências sociais, digamos, mais objetivas, como a história, a sociologia ou a economia e nem mesmo a filosofia. Você tem que realmente pensar nas ideias misturadas com a espiritualidade.
A segunda parte é simplesmente um relato, mais ou menos uma síntese, de todo o trabalho diplomático de 2020 e 2023. A terceira parte é também um relato da atividade diplomática, mas com foco na guerra de Gaza, que evidentemente merecia um capítulo à parte, destacado dos outros anos. Nós temos 2023, 2024, os dois últimos anos da minha missão, e, sobretudo, o trabalho de evacuação dos brasileiros de Gaza.
Graças a Deus, nós conseguimos evacuar todos os brasileiros que estavam sob a guerra de Gaza. Todos saíram sãos e salvos. Infelizmente, sim, houve um brasileiro israelense que estava refém do Hamas, que morreu em cativeiro, mas conseguimos salvar todos os outros brasileiros palestinos de Gaza.
Esse foi, digamos, o capítulo mais inédito, que pode talvez despertar maior interesse imediato daqueles que acompanham a guerra, a história recente.
O último capítulo é aquele que, por viver na Terra Santa, evidentemente você tem um interesse de se aprofundar em temas de religião e de espiritualidade. Então, essa última parte é dedicada a isso.
Saiba Mais: Como foi o dia a dia de um embaixador brasileiro em Ramallah durante a pandemia de Covid-19 e o agravamento do conflito? Quais foram os maiores obstáculos logísticos e emocionais?
De fato, eu cheguei lá no meio da pandemia da Covid-19, assumi o posto em 2020, com toda a dificuldade de uma viagem internacional para isso, a mesma dificuldade enfrentada, evidentemente, pela minha família. Nós saímos do Brasil e fomos a Israel, nos hospedamos em Tel Aviv por duas semanas, fizemos uma quarentena em Tel Aviv, depois nos transferimos para Jerusalém.
Tudo é muito intenso, emocionalmente, em Israel e na Palestina, sobretudo morando em Jerusalém. Logisticamente não houve tanta dificuldade assim, a dificuldade maior, na verdade, são os checkpoints, porque o escritório do Brasil fica numa outra cidade dentro da Cisjordânia chamada Ramallah.
Então, todos os dias eu saía de Jerusalém e dirigia 40 km para Ramallah e passando pelos checkpoints, passando uma parte que é ocupada pelos israelenses e entrando em território palestino. A logística de um território em guerra sempre é muito complicada.
Saiba Mais: O senhor liderou a complexa operação de retirada de brasileiros da Faixa de Gaza em 2024. Olhando para trás, o que essa experiência revelou sobre a resiliência da diplomacia brasileira em zonas de crise?
A operação de evacuação dos brasileiros da Faixa de Gaza, graças a Deus, foi coroada de sucesso por três ou quatro fatores que eu diria que foram fundamentais. Em primeiro lugar, porque nós fazíamos consulados itinerantes em Gaza, nós já conhecíamos as famílias brasileiras que estavam em Gaza, já sabíamos as necessidades delas, já conhecíamos a Faixa de Gaza do ponto de vista geográfico e estratégico.
O segundo fator foi o plano de contingência. Nós tínhamos um plano de contingência em caso de crise e de guerra. As embaixadas dos países em conflito ou com possibilidade de desastres naturais têm planos de contingência. Nós já tínhamos elaborado isso antes, sabíamos o passo a passo o que fazer em caso de crise ou de guerra e executamos a risca esse plano.
O terceiro fator foi a estreita coordenação muito afinada entre as embaixadas do Brasil naquela região, ou seja, entre a minha embaixada junto à Palestina, mas também as embaixadas do Brasil em Israel, no Egito e em outros países da região, incluindo a Jordânia. Então, nós atuamos de uma maneira muito estreita, o que permitiu a coordenação e a proteção de segurança dos brasileiros até eles poderem atravessar a fronteira do Egito.
O quarto e último fator que eu mencionaria foi o apoio da Força Aérea Brasileira. Nós fizemos a maior evacuação por via aérea da história do Brasil, num total de mais de 1.500 pessoas, saindo tanto de Israel quanto de Gaza e da Cisjordânia. Então, esses quatro fatores foram fundamentais no êxito, no sucesso da nossa operação.
Saiba Mais: Durante seus quatro anos na Palestina, como evoluiu a relação bilateral entre Brasil e Palestina? Houve avanços culturais ou comerciais que o surpreenderam positivamente?
Nós avançamos muito a relação bilateral entre o Brasil e a Palestina. Na área cultural, por exemplo, nós investimos muito no ensino do português na Palestina, principalmente para a comunidade brasileira. Nós temos 6.500 brasileiros que moram na Palestina e alguns deles, uma boa parte mesmo deles, apesar de serem brasileiros, são também árabes e palestinos e não falam português. Apesar de as mães e os pais às vezes falarem português, os filhos não falam. Então nós criamos um centro de estudos brasileiros em Ramallah para ensinar português. Há aulas inclusive de capoeira e de futebol.
Nós fizemos várias iniciativas culturais, como, por exemplo, um documentário sobre a viagem de Dom Pedro II à Terra Santa em 1876, por ocasião do bicentenário da Independência do Brasil em 2022.
Trabalhamos também na área de futebol, cooperação técnica, combate à fome e, na área comercial, nós fizemos missões empresariais palestinas no Brasil, para que o Brasil pudesse conhecer os produtos palestinos e a Palestina pudesse também comprar mais do Brasil. Então, a relação comercial cresceu bastante nesse período. Enfim, há um potencial muito grande de aprofundamento e diversificação dessa relação para além da relação política. Nós investimos nisso e tivemos, felizmente, bons resultados.
Saiba Mais: Como um diplomata nascido no Recife, com formação acadêmica, o senhor se adaptou culturalmente à Cisjordânia?
Interessante essa pergunta. A adaptação cultural é muito fácil na Cisjordânia, na Palestina, eu acho que em qualquer país árabe, porque eu sou nordestino, nasci no Recife, minha mãe é potiguar, meu pai paraibano. O Oriente Médio, a Palestina e também Israel lembram muito o Nordeste, as pessoas se parecem muito com os nordestinos.
O Brasil tem muito da cultura árabe, do Oriente Médio, da África do Norte e do Sul da Península Ibérica. Tudo isso nós herdamos durante a colônia e está muito presente, sobretudo no Nordeste. Então, foi muito fácil essa adaptação cultural. Não linguística, porque eles falam árabe, eu não falo, conheço apenas algumas expressões, mas não sei falar árabe, apesar de ter estudado um pouco, não falo também o hebraico, mas culturalmente é muito fácil para qualquer brasileiro, sobretudo nordestino, se adaptar ali.
Saiba Mais: O senhor declarou que “GPS Ocidental” não resolve o conflito em Gaza. O que isso significa na prática e qual papel o Brasil poderia desempenhar em uma mediação mais equilibrada?
Essa metáfora do GPS, na verdade, tem um duplo sentido. O primeiro é porque o próprio GPS não funciona mesmo. O Waze ou o Google Maps, enfim, esses aplicativos de geolocalização, são embaralhados propositadamente para que não indiquem com exatidão as posições para qualquer pessoa que esteja dirigindo ou caminhando pela Cisjordânia. Há uma espécie de bloqueio ou confusão deliberada dos algoritmos, as programações feitas pelos programadores visam justamente dificultar a mobilidade ou as viagens pela Cisjordânia.
Então, o GPS ocidental literalmente não funciona naquela região e isso é proposital, porque há uma guerra eletrônica, digamos assim, uma guerra cibernética de alguma forma para gerar a confusão. Aproveitando esse fato, eu faço a ponte com o GPS no sentido de mentalidade ocidental, ou seja, o posicionamento mental, os valores do Ocidente, a forma de pensar, a racionalidade do que a gente chama de Ocidente, Europa, Estados Unidos, ela não se adapta, ela não explica, ela não compreende e ela não pode dar soluções viáveis a uma realidade muito mais complexa, que é a realidade do Oriente Médio, com uma mentalidade muito mais complexa, muito mais caótica de algum sentido, ao mesmo tempo inclusiva e excludente.
Essa racionalidade binária de certo ou errado, direita e esquerda, preto e branco do Ocidente, que é muito simplificadora, muito simplista, não consegue compreender a complexidade e a riqueza mental, espiritual e histórica do Oriente Médio. É por isso que muitos planos de paz que nascem no Ocidente e tentam ser impostos ali não dão certo, porque um plano de paz para aquela região tem que nascer da mentalidade daquela região, tem que nascer da cabeça da sociedade e da experiência, que é a experiência traumática daqueles povos.
Não pode ser imposto por fora, por cima, por países imperialistas, como acontece na história, sobretudo na história do século XX, desde a Primeira Guerra Mundial, desde o Acordo de Sykes-Picot [pacto secreto de 1916 entre a Grã-Bretanha e a França, com o conhecimento da Rússia e Itália, para dividir as terras do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial em esferas de influência], enfim, a ideia da partilha da Palestina.
Mas se você quiser recuar na história até a época das cruzadas, as cruzadas foram a tentativa do ocidente europeu de se impor militarmente, geograficamente e politicamente ali e não deu certo. As cruzadas não deram certo e hoje o imperialismo tampouco dá certo. É por isso que eu digo que o GPS ocidental não funciona porque a mentalidade ocidental não traz respostas adequadas e por isso não funciona ali. A paz não pode vir imposta de uma mentalidade externa, ela tem que nascer da complexidade das mentes e das culturas locais.
Saiba Mais: Com o conflito se prolongando em 2025, quais lições de sua experiência em Ramallah o senhor acha que o mundo ainda ignora para uma resolução duradoura?
O conflito continuará enquanto suas causas estruturais, políticas e culturais não forem resolvidas. Uma dessas causas é a ausência do Estado Palestino, a autodeterminação palestina, o direito de se constituir com um Estado independente nunca foi exercido. Enquanto isso não for resolvido, o problema de segurança continuará. Inclusive a própria segurança de Israel depende do sentimento de segurança dos palestinos. Os palestinos precisam se sentir seguros. Quando eles se sentirem seguros, Israel também se sentirá seguro.
A segunda causa é a falência do sistema internacional, do direito humanitário e de segurança para aquela região. As Nações Unidas ficaram inoperantes por meses, a comunidade internacional via aquelas cenas de guerra e não conseguia dar uma solução por oposição dos principais atores. O problema do terrorismo continuou, o problema do antissemitismo infelizmente está crescendo por causa disso. Então, eu vejo o sistema internacional muito frágil, muito ineficiente, porque não conseguiu dar solução à maior crise humanitária desse século 21.
Então, o resumo dos resultados dessa guerra é o pessimismo e a necessidade urgente de se repensar o sistema humanitário, o sistema multilateral e torná-lo mais eficaz para que esse tipo de guerras que têm motivação política, evidentemente, a guerra não é um fenômeno unitário, é um fenômeno político, mas para que isso não possa mais ser admitido no nosso tempo.
Saiba Mais: Como o senhor vê o futuro da Palestina sob a ótica de um ex-embaixador do Brasil na Palestina? Há espaço para otimismo em meio à escalada de violência ou prevalece o risco de consequências regionais maiores?
Essa resposta é um pouco a continuação da anterior. Eu vejo, infelizmente, o futuro daquela região com muito pessimismo, porque não só não estão solucionadas as questões estruturais, a mais importante delas é o estabelecimento do estado palestino, como eu vejo a continuação da ocupação do território palestino por colonos israelenses. Nós vimos guerras em todos os quadrantes ali, com o Hezbollah, com os Houthis, com o próprio Irã, o bombardeio pela Força Aérea de Israel às instalações nucleares do Irã… Enfim, uma guerra muito contundente aconteceu, mas que pode voltar a acontecer, porque as razões, os motivos continuam presentes, não foram solucionados, não houve solução política e a solução militar, como a gente sabe, é sempre provisória.
Saiba Mais: Refletindo sobre as origens do conflito discutidas no livro, o que uma nova geração de líderes – israelenses, palestinos e internacionais – precisa aprender para romper o ciclo de guerra?
Essa pergunta é central. A nova geração de líderes, infelizmente, nasceu no contexto dessa guerra ou viveu ou está vivendo o contexto dessa guerra. Então, essa nova geração de líderes tende a ser mais radical do que a anterior, que tinha personalidades moderadas, que poderiam haver chegado a um processo de paz, mas que não foram ouvidas, o sistema se radicalizou nos dois lados, se polarizou, tanto em Israel quanto na Palestina. Quem assumiu o poder há vários anos são justamente os extremistas, os radicais, os que não querem a paz, os que querem a destruição do outro.
Então, essa atual geração é muito polarizada, qualquer movimento que propõe a paz, que propõe construir pontes, é considerado traidor do país. É, portanto, necessário que surjam pontes nos dois lados, entre israelenses e palestinos moderados, que tenham sofrido e que decidam não sofrer mais, decidam reconhecer que o futuro das duas sociedades depende do entendimento da paz e não basta o sofrimento.
Infelizmente essa guerra ainda está muito viva na memória e nas almas e, portanto, um movimento de abertura para o outro lado de construção de pontes ainda é muito improvável, até porque o cenário político continua polarizado.