Foguete e a vida depois de uma prisão injusta
Natal, RN 14 de jun 2026

Foguete e a vida depois de uma prisão injusta

9 de novembro de 2025
11min
Foguete e a vida depois de uma prisão injusta
Foguete na casa da irmã depois de recuperar a liberdade I Fotos: Mirella Lopes

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Para Hallison Silva da Costa, o Hallison Foguete, a vida mudou completamente depois de um episódio em 2015. Ele passava por uma rua de Macaíba, cidade da Região Metropolitana de Natal, quando viu um homem agonizando. Ele prestou socorro e chamou o Samu, mas com medo de ser apontado como o autor das agressões, se afastou do local antes da ambulância chegar.

Foi o suficiente para que ele fosse acusado homicídio. Desde então, ele tem passado por uma peregrinação que terminou nesse último dia 30 de outubro, quando o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte decidiu anular o julgamento e inocentar Foguete.

“Para mim o que pesou mais foi passar por um processo desses e, de repente, estar com mais 26 pessoas numa cela que era pra, no máximo, 13. Passei uns quatro meses dormindo no chão, porque não tem lugar para todo mundo. Quem chega vai para a chamada ‘BR’, que é o chão até conseguir uma cama, que eles chamam de ‘caixão’. Só estava tendo direito a um banho de sol por mês. É bem precário o sistema. Não tem possibilidade para ressocialização. É uma máquina que transformar as pessoas”, lamenta.

Já na casa da irmã, em Macaíba, Foguete conversou com a Agência Saiba Mais sobre o período que passou na prisão, os momentos mais críticos e como tem lidado com a liberdade.

Agência Saiba Mais – Como foi recebido pelos outros presos?

Foguete – Muitos deles viram que eu não tinha nada a ver e muitos até aconselharam a me revoltar e fazer parte de alguma coisa que eu não queria. Disse que tinha minha profissão aqui fora, sou capoeirista, não quero me envolver com nada. Talvez, se eu não tivesse o apoio do pessoal aqui fora, se fosse uma pessoa abandonada pela família e pela sociedade, poderia estar ainda mais encrencado lá dentro.

Foguete junto da irmã

SM – O que aconteceu para você ter sido acusado pela morte de um homem?

F – Minha falha não foi tentar ajudar, foi não ter ficado até o final do atendimento, quando o Samu prestou socorro. Vi um homem agonizando, me aproximei e prestei socorro ligando para o Samu. Eu estava em situação de rua, era apontado como uma pessoa sem estabilidade financeira, pouca gente sabia que eu trabalhava e fiquei com medo de ser acusado de ter machucado aquele homem. Por isso saí do local e fiquei próximo. O senhor morreu e, no outro dia, ouvi o boato de que eu havia sido o autor do crime. Eu não me via como em situação de rua, nunca fui usuário de drogas ou bebida. Falaram que fiz isso por causa de dinheiro, mas no dia do ocorrido eu tinha dinheiro suficiente para alugar uma casa, além disso, nunca trabalhei para aquele homem. Até hoje, essa é a única coisa da qual me arrependo, de não ter ficado no local esperando o atendimento, se tivesse feito isso, nada disso teria acontecido.

SM – O crime ocorreu em 2015, mas seu julgamento foi só em 2025, o que você fez durante todo esse período?

F – Nunca fugi, sempre mantive contato com a Justiça, tinha medo que interpretassem que eu estava me escondendo, sempre atualizava meu endereço, ficava visível nas redes sociais, fiquei mais em Natal porque fiquei preocupado em estar em um mesmo ambiente que os parentes da vítima e eles interpretarem que eu estava debochando ou algo do tipo.

SM – Como foi o período na prisão?

F – Quando há uma mini rebelião, todos pagam por isso. Infelizmente, quando cheguei ocorreram algumas mortes. Na minha cela tentávamos cumprir sempre a disciplina, mesmo assim, ocorriam algumas sanções. A única vez que sofri agressão foi na triagem quando o agente penal quis fazer uma brincadeira de fundo homossexual. Eu disse que era pai de família, mas ele disse ‘cale a boca’ e meteu minha cara na parede. A partir dali entendi que não tinha mais direito a nada e que o silêncio era o melhor para mim. Lá dentro tem muitas pessoas que estão só querendo cumprir sua pena, mas elas também acabam sofrendo punições por causa de outras. Não adianta ter 24 numa cela com bom comportamento se tem um que vai botar tudo a perder. Por causa de um, todos pagam. Tento esquecer algumas cenas. Um dos sentimentos que mais tentei controlar lá dentro foi a revolta, é do que mais se fala… todo esse tempo em que estive em liberdade, antes de ser preso, estava num ambiente que cultua Paulo Freire, a gente gosta da educação, da não violência, de exigir o direito, mas com o direito de exigir, dialogar. Isso é muito complexo porque a maior parte das pessoas que estão lá dentro aprenderam a gritar porque foram gritadas, não há diálogo. Um dos piores momentos é na visita porque, de uma maneira geral, os parentes dos presos são oprimidos pelo sistema. Não estou criticando, mas os parentes não praticaram nenhum crime, eles estão indo lá como parente, muitas vezes ele é mal visto. Outra questão é o atendimento médico. Existe um setor de saúde, mas pela superpopulação, é um setor que fica sem ter como atender. \há uma triagem muito falha. Tenho perda de audição e precisei de atendimento algumas vezes, mas era muito humilhante, era melhor tomar algum remédio na cela mesmo.

SM – Como você foi parar na rua?

F – Foi uma questão financeira, foi uma falta de segurança familiar, atenção. Hoje conversamos, mas antes não havia espaço para diálogo. Minha mãe era sobrecarregada, não tinha tempo de no orientar e tivemos que aprender a viver, vivendo. Como eu não tinha ouvidos em casa, a rua me escutava e está aí o problema, porque na rua você encontra alguém que fala e responde e cria vínculos que não são tão legais porque não se importam com você. No meu caso fui parar na rua por problemas financeiros, além da nossa fragilidade familiar. Me vi sem dinheiro, tinha me separado da mãe da minha filha, foi bastante doloroso, fiquei sem trabalhar, numa depressão profunda. Quando me vi, estava sem lugar para morar, minha mãe tinha ido morar noutro lugar, não pedi ajuda à minha irmã porque ela tinha a vida dela. Muita gente vai parar em situação de rua por vergonha de pedir ajuda a um parente, de falar da situação. Eu era assim.

SM – Depois de ser acusado você pensou em suicídio, mas acabou desistindo depois de um encontro com Sidarta Ribeiro, como foi?

F –Foi a palavra universidade que abriu um novo caminho. Era 15 de agosto, depois do meu aniversário, tinha pensando em suicídio em 2015 [quando foi acusado pela justiça], chegando na Ponte Newton Navarro, não tive coragem. Pensei em tentar a vida mais uma vez e voltei para a cidade. Nesse mesmo dia, um professor de capoeira que hoje é contra mestre, Sidarta Ribeiro, que é neurocientista, uma pessoa fantástica que tem um projeto de capoeira voltado para as ruas, ia no albergue. Ele perguntou se eu queria treinar capoeira na universidade. Até 2015 eu pensava que a universidade era coisa que não era pra mim, nem para entrar. Eu não sabia nem que eu podia transitar lá dentro, conhecer o local. Quando fui a primeira vez, entendi que aquilo era um mundo, tanto que esqueci das minhas amarguras e suicídio. Ele puxou o treino, tinha 60 pessoas na sala. Ao final, uma coisa importante que estava precisando muito foi o abraço. Nesse dia recebi 59 abraços. Voltei para a Cidade Alta andando e não vi as duas horas passarem, renovado, comecei a botar no meu coração que a capoeira iria me ajudar a não ter contato com a droga ou o crime poque, querendo ou não, estava ali, bem fácil. Tudo que eu fazia era treinar capoeira, me esforçando para melhorar, acabei me destacando nas rodas, foi o que me impulsionou. Esse momento com Sidarta foi o auge e eu nem sabia quem era ele, que me tratou de uma forma tão amorosa que realmente depositei toda minha fé nele, que queria ver meu bem. Depois disso não parei.

SM – Quais os planos daqui pra frente?

F – Meu intuito é seguir na capoeira voltada para as comunidades. Não é um hobby, é um direcionamento de vida, uma ferramenta de transformação social. Foi algo que aconteceu não só comigo, mas com várias pessoas que conheço, que mudaram sua história, ficaram bem socialmente, conheceram boas pessoas, bons lugares, o foco não é a luta, mas a educação. Meu foco é manter a capoeira viva porque foi ela que me manteve viva até agora. Também gosto muito do audiovisual, tenho um certo talento para a fotografia. Quando vou fazer uma crítica social não preciso de caneta, uso a fotografia. Também gosto da minha profissão de sapateiro. É uma arte milenar, quando existia Jesus já existia chinelo, gosto de saber o que faço.

SM – E de onde veio o apelido “Foguete”?

F – Foi um mestre de Dubai que me deu esse apelido porque eu, com 27 anos, depois de seis meses tive um batizado e eu fui muito bem jogando com os grandes mestres, daí o apelido, não pela velocidade do golpe, mas pela rapidez com que aprendi a ter a manha. Tem pessoas que passam a vida toda e não conseguem pegar. Ele chegou para mim e disse: você tem talento! Eu nunca tinha ouvido isso de ninguém, sobre nenhum assunto. Eu acreditava que não tinha qualquer talento porque tive um derrame cerebral aos 17 anos e fiquei com todo meu lado esquerdo do corpo paralisado e dez anos depois estava em jogando capoeira. Queria ser tão bom quanto aqueles que admirava. Minha mãe que me curou com mastruz com leite dentro de casa. Não tínhamos acesso a médico, aprendi a fazer fisioterapia sozinho, vendo televisão.

SM – Você se expressa muito bem, estudou até que ano?

F – Me vejo numa grande evolução não só mental, mas emocional porque antigamente não conseguia falar sobre nada. Era muito retraído, tinha medo de me expressar, achava que poderia ser chamado de homossexual porque pensava muito em poesia, fiquei muito retraído, a oportunidade veio com o pessoal da capoeira, um pessoal que fez muito por mim, fizeram alguns atos, chorei um pouco sozinho emocionado porque sabia que algumas pessoas gostavam de mim, mas não tinha noção. Sem a capoeira, muito provavelmente, minha história teria se encerrado em 2015, precocemente, aos 27 anos.

SM – Quais os planos daqui pra frente?

F – Terminei todo o segundo grau e quero fazer Enem [Exame Nacional do Ensino Médio] em 2026. Minha meta é pedagogia, gosto de trabalhar em escola, fui professor do +Educação, era professor de Esporte e Lazer do Pro Jovem Urbano e Recreador Infantil. Estou na casa da minha irmã, mas não quero que a rotina dela mude por minha causa. Quero ter meu lugar, uma companhia pra dividir a vida e me juntar novamente ao pessoal que milita pelos direitos da população em situação de rua.

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