Mulheres potiguares celebram a força feminina no cordel no Flipipa
A manhã de sábado (1º) amanheceu tomada por versos, xilogravuras e vozes femininas. A primeira atividade do dia no Festival Literário da Pipa (Flipipa) foi a mesa “Cordelutas: mulheres que andam com cordéis – RN”, uma celebração da presença, da luta e da poesia das mulheres que fazem do cordel o seu território de expressão, arte e resistência.
O encontro reuniu nomes como Adélia Costa, Célia Bombom, Fátima Régis, Geralda Efigênia, Ester Havenna, Janaína Leite, Jussiara Soares e Sofya Julyana, mulheres de diferentes gerações que representam o vigor da literatura popular potiguar. A plateia, composta por estudantes da Escola Municipal Vicência Castelo, participou com entusiasmo: ao final, uma das alunas, subiu ao palco para declamar um poema que havia acabado de escrever.
Durante a mesa, foi lançado oficialmente o Manifesto Cordelutas: Mulheres que andam com cordéis, movimento idealizado pela poeta e xilogravurista Adélia Costa, presidente da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins (SPVA/RN). O documento é uma convocação poética e política que busca dar visibilidade às mulheres cordelistas e garantir condições de igualdade dentro do meio literário popular.

“Ser Cordelutas é lutar para que toda mulher cordelista seja respeitada como tal, sem ser invisibilizada ou receber cachês menores. É fazer parte de uma rede de apoio e empoderamento, onde a ajuda mútua fortalece o trabalho de cada uma”, declarou Adélia.
Ela explicou que a ideia do movimento nasceu a partir de um convite para escrever sobre o papel das mulheres no cordel para uma revista do Tribunal de Contas do RN. Ao revisitar o tema, percebeu o quanto a exclusão feminina ainda atravessa a história do gênero: “Talvez tenha sido isso que me afastou por tanto tempo dessa prática. Mas agora, com o Cordelutas, queremos transformar esse apagamento em presença.”
Além do manifesto, duas obras foram lançadas: um cordel dedicado à Praia da Pipa e outro sobre o próprio movimento Cordelutas, ambos com xilogravuras de Adélia Costa, uma delas recém-premiada com menção honrosa pelos Amigos da Pinacoteca Potiguar.
Cordel como patrimônio das mulheres
As participantes relembraram as origens do cordel e denunciaram o apagamento histórico das mulheres nesse campo. Uma das falas mais marcantes recordou Maria das Neves Patrícia Pimentel, paraibana que, em 1938, precisou adotar o pseudônimo masculino Altino Alagoano para poder publicar seus cordéis:
“Ela usou o nome do marido para ser escutada. Essa é a raiz do machismo no cordel. Mas nós estamos aqui para reverter essa história.”
A mesa também ressaltou o reconhecimento do cordel como patrimônio cultural brasileiro, reforçando que a herança popular dessa arte é, e sempre foi, também feminina. “Por muito tempo, a mulher pôde ser personagem, mas não autora. Hoje, o lugar da mulher é onde ela quiser, inclusive na capa do cordel”, afirmou Geralda.
Entre as participantes, estavam mulheres com trajetórias diversas, que atravessam tanto a oralidade das feiras quanto o universo acadêmico. Entre as participantes estavam Célia Bombom, cordelista, atriz e historiadora, militante da causa das mulheres e da cultura popular; Fátima Régis, pesquisadora e poeta que une o teatro à literatura de cordel; Geralda Efigênia, idealizadora das Cordeltecas nas escolas públicas; Ester Havenna, jovem cordelista de Barcelona (RN) e estudante de jornalismo; Janaína Leite, musicista e vice-presidente da SPVA/RN; Jussiara Soares, professora e contadora de histórias; e Sofya Julyana, cordelista mirim de apenas 11 anos, que publica desde os oito.
Elas compartilharam lembranças sobre como o cordel entrou em suas vidas, ora pelas rodas de leitura em casa, ora pelas vozes dos avós e pais cantando repentes no quintal. “Muitos de nós fomos alfabetizados pela batida e pela métrica do cordel”, disse uma das poetas. “A poesia tem esse poder: educa, cura e liberta.”
O movimento Cordelutas nasce, portanto, como um gesto de continuidade: um “reparo histórico” nas palavras das autoras. É uma tentativa de garantir que o legado das mulheres que vieram antes não se perca e que as novas gerações possam trilhar um caminho de autonomia e criação.
“Nós, mulheres cordelistas e xilogravuristas, levantamos nossas vozes em uníssono, como versos que dançam ao vento”, diz o texto do manifesto. “É um convite à luta, à escrita e à celebração das nossas próprias histórias.”
A manhã terminou em clima de festa. Cordéis foram lidos, versos ecoaram pela praça e o público aplaudiu de pé. Em meio às rimas, ficou a certeza de que o cordel, enquanto arte do povo, segue vivo, e agora, cada vez mais, com o rosto e a voz das mulheres.
SAIBA+
“Minha arma hoje é a literatura indígena”, afirma Eliane Potiguara na Flipipa
Com Paulo Betti, abertura do Flipipa 2025 é marcada por humor, afeto e política