“Minha arma hoje é a literatura indígena”, afirma Eliane Potiguara na Flipipa
Natal, RN 12 de jun 2026

“Minha arma hoje é a literatura indígena”, afirma Eliane Potiguara na Flipipa

1 de novembro de 2025
5min
“Minha arma hoje é a literatura indígena”, afirma Eliane Potiguara na Flipipa
Foto: Gil Araújo

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O vento da Praia da Pipa carregava cheiros de maresia e murmúrios de expectativa quando, na última sexta-feira (31), a Tenda dos Autores, na Praça do Pescador, se encheu de gente. Era o início da mesa “História e histórias indígenas”, um momento representativo do Festival Literário da Pipa (Flipipa).

No palco, três mulheres costuravam palavras com gestos e ancestralidade: Eliane Potiguara, Auritha Tabajara e a mediadora Rita de Cássia Neves. O encontro, que uniu gerações e trajetórias distintas, mostrou como a literatura indígena se afirma hoje não apenas como expressão artística, mas como território de luta, cura e permanência.

“Minha arma hoje é a literatura indígena”, afirmou Eliane Potiguara, aplaudida pelo público presente. Aos 75 anos, a escritora potiguara, considerada a primeira mulher indígena publicada no Brasil, é uma das vozes mais importantes da literatura e do ativismo pelos direitos dos povos originários. Fundadora do GRUMIN (Grupo Mulher-Educação Indígena) e embaixadora da paz pela ONU, Eliane tem mais de 40 anos dedicados à defesa das mulheres indígenas e da ancestralidade.

A palavra como reza e resistência

Com voz calma e firme, Eliane abriu sua fala lembrando as mulheres que a antecederam:

“Minhas tias são a voz. É através delas que eu sou a representação dessa origem, dessas tradições que precisam ser repassadas para as futuras gerações.”

Em seguida, leu o texto que marcou seu despertar político e espiritual — a “Oração pela libertação dos povos indígenas”, escrita após um sonho:

“Parem de botar as minhas folhas e tirar a minha enxada.
Basta de afogar as minhas crenças e dourar minha raiz.
Não se seca a raiz de quem tem sementes espalhadas pela terra para brotar.”

Eliane contou que esse texto foi o ponto de virada de sua trajetória: “Foi com ele que compreendi minha missão. A literatura se tornou o meu modo de existir e resistir.”

Ela também refletiu sobre o percurso histórico da literatura indígena e o desafio de ser reconhecida como autora. “Durante muito tempo, a academia não aceitou nossa escrita. Diziam que não era literatura. Mas há 20 anos lutamos para mostrar que sim, que é uma literatura feita de corpo, sonho e ancestralidade”, defendeu.

A escritora também comentou a importância da oralidade em sua formação:

“Aprendi a escrever com a oralidade das minhas tias e das minhas avós. Antes de ser letra, a palavra era canto, era reza, era gesto.”

Eliane aproveitou para explicar a mudança na terminologia de índio para indígena: “O termo ‘índio’ nasceu do equívoco colonial de quem achou estar chegando às Índias. Ser indígena é se reconhecer como o povo da terra, o primeiro povo, é se ver como parte da origem do país.”

Ao final, ela agradeceu emocionada por estar em solo potiguar, lembrando suas raízes paraibanas e o povo Potiguara: “Eu agradeço imensamente estar pisando nesse chão sagrado. É a terra dos meus ancestrais, da minha gente. Cada palavra minha nasce dessa terra.”

Se Eliane representava a ancestralidade, Auritha Tabajara trouxe o frescor de quem segue plantando essa herança em novas gerações. Escritora, professora e vencedora do Prêmio Jabuti 2024 na categoria Livro Juvenil com Apytama – Floresta de Histórias, Auritha narrou sua descoberta da literatura com o mesmo encantamento de quem conta um mito ao redor da fogueira.

“Eu aprendi a escrever vendo meus avós plantar feijão. Eu queria entender como a semente nascia, e percebi que ela ficava barrigudinha antes de brotar. Pensei: eu quero ser um grão pra explodir por aí”, contou, arrancando risos e lágrimas da plateia.

A escritora também relembrou seu primeiro contato com uma biblioteca:

“Quando entrei na Biblioteca Estadual do Ceará, chorei sem parar. Era uma casa de livros, e era lá que eu queria morar. Mas cadê os livros indígenas? Não tinha nenhum. Então pensei: é aqui que eu vou morar, fisicamente não, mas através das palavras.”

Foi nesse caminho que ela encontrou Eliane Potiguara, ainda nos tempos do Facebook. “Eu sou da época do computador com tubo! Foi ali que conheci a Eliane, a Metade Cara, Metade Máscara. Foi quando entendi que nós, mulheres indígenas, também podíamos escrever nossas próprias histórias.”

Entre risadas, memórias e reflexões, a mesa revelou o quanto a literatura indígena é feita de presença e partilha.

Eliane e Auritha, em gerações diferentes, mostraram que escrever pode ser tão sagrado quanto plantar, cantar ou dançar. “As palavras são sementes”, disse Auritha. “E toda semente quer nascer.”

A literatura, como lembrou Eliane, continua sendo um território em disputa e também um abrigo:

“A literatura indígena é o que nos mantém em pé. É por ela que seguimos resistindo,com palavra, com amor e com memória.”

A mesa foi encerrada com música e palmas ritmadas. Confira:

Ana Miranda reflete sobre literatura e espiritualidade no Flipipa

Na sequência da noite, a mesa “Bionírica” reuniu o público novamente na Tenda dos Autores. A escritora Ana Miranda, uma das maiores vozes da literatura brasileira contemporânea, conversou com a pesquisadora Ângela Almeida sobre o processo criativo por trás de seu novo livro, Bionírica, e sobre as camadas que atravessam sua escrita.

Premiada com o Jabuti, Ana falou com doçura e lucidez sobre o fazer literário, a passagem do tempo e o poder do Nordeste.

“Amo o Nordeste. Vimos o poder de uma região pra mudar o destino de um povo”, afirmou, lembrando o papel decisivo da região nas últimas eleições.

Com humor e ternura, ela ainda emocionou o público ao lembrar da história de amor com o marido:

“Fizemos um filme ainda jovens e nos apaixonamos. Mas só 47 anos depois nos reencontramos, e ficamos juntos”, relembra.

O Flipipa 2025 segue até 1º de novembro, ocupando pousadas, restaurantes e praças com debates, feiras, saraus e apresentações musicais. Acompanhe a Agência Saiba Mais nas redes sociais para acompanhar a cobertura completa do festival pelos stories do Instagram.

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