“Quebradas de Natal”: motoboy anônimo viraliza mostrando periferia da cidade
Natal, RN 10 de jun 2026

“Quebradas de Natal”: motoboy anônimo viraliza mostrando periferia da cidade

16 de novembro de 2025
8min
“Quebradas de Natal”: motoboy anônimo viraliza mostrando periferia da cidade
Foto: Captura de Tela "Quebradas de Natal"

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Em meio ao vai e vem acelerado das entregas, um motoboy potiguar encontrou uma maneira singular de transformar seu cotidiano sobre duas rodas em um retrato vivo das periferias de Natal. Há seis anos circulando por becos, vielas e ruas que muitos natalenses sequer sabem onde ficam, ele decidiu mostrar ao mundo aquilo que sempre viu de perto: as muitas “quebradas” que existem na capital.

O nome não foi escolhido à toa. “Quebrada” é uma gíria amplamente usada para se referir às regiões periféricas – lugares populares, geralmente distantes das áreas consideradas mais “nobres”, marcados pela vida comunitária intensa, mas também pela invisibilidade social. O termo carrega um sentido de afeto, identidade e pertencimento, funcionando como uma forma de nomear os territórios que se insurgem contra a discriminação através da ressignificação.

Foi justamente esse significado que inspirou o criador do perfil “Quebradas de Natal”, que prefere preservar o anonimato. Entre uma entrega e outra, ele começou a gravar com o celular trechos das comunidades por onde passava.

“Quebrada é a linguagem que a gente adota pra se referir a um lugar periférico sem chamar de favela. Tem gente que interpreta como discriminação, porque quando você chama o José Sarney de quebrada, mas não chama Petrópolis, isso mostra que existe uma diferença de realidade entres essas duas localidades”, reflete o motoboy.

Em menos de dois meses, perfil já acumula quase 25 mil seguidores no Instagram. Foto: Captura de tela.

Os vídeos, inicialmente espontâneos, rapidamente se transformaram em conteúdo e, em menos de dois meses, o perfil acumulou mais de 24 mil seguidores no Instagram, além de repercussão também no TikTok. Até agora, já são mais de 20 comunidades retratadas.

O motoboy se surpreendeu com o crescimento da página, mas atribui a popularidade à curiosidade do público por territórios quase sempre representados apenas pelo viés da violência.

A proposta do perfil, no entanto, vai na direção oposta: apresentar as comunidades sem o filtro do preconceito, pelo olhar de quem conhece seu cotidiano, sua história e suas dificuldades, mas também a beleza que passa despercebida para que não vive ali.

“Por ser motoboy, entregador, a gente entra em vários lugares que as pessoas não têm noção que existem. Eu me veio na cabeça a ideia de filmar isso e mostrar ao pessoal. Foi aí que acabei fazendo o perfil e, entre uma entrega e outra, gravo um vídeo nesses lugares”, relata.

A motivação é pessoal. Ele cresceu em uma comunidade periférica, mas atualmente mora em um bairro de classe média com a esposa e os dois filhos. O motoboy, no entanto, nunca perdeu a ligação com suas origens. Foi dessa vivência que nasceu o desejo de pegar carona em seu ofício para mostrar esse outro lado da cidade que, há décadas, é esquecido pelo poder público.



“Meu trabalho, pela facilidade de entrar onde muita gente não entra, me ajuda a mostrar as periferias de uma forma diferente, sem ser pelo lado da violência, porque muitas comunidades só aparecem em páginas policiais. Tem muita coisa boa pra mostrar também nas quebradas”, explica.

Vídeos despertam saudosismo de quem já morou nas comunidades

Ele conta que, até agora, só tem recebido comentários positivos:

“As mensagens que mais me tocam são aquelas das pessoas que não moram mais nessas regiões, mas dizem que, quando veem os vídeos, revivem a memória e as lembranças que marcaram a vida delas nesses locais, seja na infância, na adolescência ou a fase adulta”.

É como se, mesmo sem perceber, o motoboy desse carona às pessoas que, a cada vídeo, viajam no tempo revisitando ruas, esquinas e paisagens que fizeram parte da história de cada uma delas.

A cada trajeto registrado, abre-se uma porta para lembranças afetivas – um reencontro inesperado com um lado da cidade que, apesar das mudanças, permanece viva na memória de quem um dia viveu ali.

Enquanto faz suas entregas pelas cidade, motoboy registra cotidinao das periferias de Natal. Foto: Cedida (Vale Dourado, Zona Norte)

“Minha quebrada. Foi onde tudo começou e hoje só nos resta lembranças de um passado lindo. Orgulho de ser mereteira”, comentou uma seguidora no vídeo postado na última quarta-feira (12) sobre o Mereto, comunidade localizada no bairro do Bom Pastor, na Zona Oeste de Natal – uma das 73 favelas que existem na capital potiguar, segundo o Censo 2022 do IBGE.

De acordo, ainda, com o IBGE, 146 mil pessoas moram em favelas em Natal – o equivalente a 19% da população da cidade, que é de 751.300 habitantes. A comunidade mais populosa é o Jardim Progresso (20.061 habitantes), seguida da Vila de Ponta Negra (9.877 habitantes) e de Mãe Luíza (9.426 habitantes).

O plano do criador do perfil é visitar todas elas. Ele conta que a única comunidade onde nunca tinha entrado era a do Mosquito, localizada no bairro Nordeste, espremida entre a linha férrea e o Rio Potengi, também na Zona Oeste de Natal.

Primeiro vídeo a viralizar foi da Favela do Mosquito

O vídeo da Favela do Mosquito – o segundo postado no perfil – foi justamente o primeiro a viralizar, com mais de 270 mil visualizações e mais de 13 mil curtidas. “Eu sabia que ia dar um ‘pump’ na página, porque é uma comunidade onde quase ninguém entra”, diz.

Matou minha curiosidade”, comentou uma seguidora na postagem, confirmando a intuição do criador do perfil, que respondeu dizendo que “esse é o intuito da página: matar a curiosidade de quem não conhece algumas comunidades”.

Outro vídeo que também viralizou, com mais de 250 mil visualizações e mais de 15 mil comentários, foi o do Passo da Pátria, uma das “quebradas” mais conhecidas de Natal, localizada entre os bairros Cidade Alta e Alecrim, na Zona Leste.

O recorde da página, até agora, é do vídeo do Vietnã, comunidade localizada no bairro de Santos Reis, na Zona Leste de Natal. A publicação havia atingido, até o fechamento dessa matéria, mais de 420 mil visualizações e mais de 27 mil comentários.

“O Vietnã é uma comunidade com vielas muito estreitas. Viralizou muito. A música do Grafith também ajudou bastante”, conta, citando outra estratégia que usa para alcançar mais engajamento com os vídeos.

“Humildade”, música da Banda Grafith que o criador do perfil usou como trilha sonora para o vídeo da comunidade do Vietnã, descreve alguém que “venceu” e “foi morar num bairro nobre, onde não existe pobre e não voltou mais pro seu gueto”.

“O sucesso e a riqueza, já subiu pra sua cabeça, você já não é mais o mesmo”, diz um trecho da música, cujo refrão, que também é um grito de alerta, questiona: “Humildade: Cadê? Cadê?”.

Quero chegar nos 100 mil seguidores”, diz criador do perfil

Para o criador do perfil, esses números demonstram que as pessoas querem conhecer mais sobre essas comunidades. Ele acredita que isso é um indicativo de que a página tem potencial para crescer ainda mais.

“Quero chegar nos 100 mil seguidores. Vejo potencial na página pra isso, porque esse é um conteúdo que desperta a curiosidade das pessoas. Tem muita quebrada pra ser filmada”, comenta.

Até a noite da última sexta-feira (14), tinham sido postados vídeos de 25 comunidades de Natal: Rua do Motor, Mereto, Pantanal, Lagoinha, Leningrado, Jacó, Coreia, Vietnã, Baixada Zona Oeste, Galo, Mereto da 7, África, José Sarney, Toca da Raposa, Salgado, Portelinha, Village de Prata, Beira Rio, Passo da Pátria, Mãe Luíza, Guarita, Morro do Periquito Suado, Japão, Mosquito e Câmara Cascudo – a “quebrada” de estreia do perfil.

Ele também espera que o conteúdo chame a atenção do poder público para essas comunidades. “O poder público valoriza mais os bairros das classes média e alta, mas não olha com carinho para a periferia”, constata.

O criador assegura que sua intenção, mesmo que a página continue crescendo, é manter o anonimato. Ela não quer perder a liberdade de ir e vir sem ser observado: “Eu sei que poderia ganhar muita coisa com a visibilidade, mas não quero. O mais importante pra mim é minha paz. É difícil de acreditar, mas quero viver no anonimato”.

O motoboy confidencia que não contou nem para a família que havia criado a página. A esposa só descobriu depois, quando viu os primeiros vídeos e reconheceu a moto dele.

“A minha esposa acabou descobrindo quando viu minha moto no vídeo. Ela reconheceu, ligou pra mãe e eu falei. Aí contei também pra minha mãe e alguns amigos, mais pedi sigilo. Eu acho que não chega a 20 pessoas que sabem, juntando a família e os amigos”, diz.

Em uma cidade em que a periferia é frequentemente tratada com discriminação, o perfil criado pelo motoboy anônimo se tornou um mosaico que revela que a verdadeira Natal também vive nas suas quebradas, com histórias, cores e vidas que, apesar da dureza do cotidiano, sentem orgulho do lugar de onde vieram.

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