Tânia Maria: a realidade é o bug do sistema
Natal, RN 3 de jun 2026

Tânia Maria: a realidade é o bug do sistema

23 de novembro de 2025
7min
Tânia Maria: a realidade é o bug do sistema

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Num ecossistema em que tudo pode ser simulado (emoção, reputação, expertise, até “vulnerabilidade”), a história de Tânia Maria parece um bug no sistema. Nasci no mesmo chão que ela: o Seridó do Rio Grande do Norte, no Nordeste do Brasil, na América do Sul. Conheço as camadas. Um lugar real, que não existe para ser um “case” inspirador e, embora possa ser, é muito mais que isso. E Tânia Maria também é real: uma senhora de 78 anos, costureira, artesã, com a cabeça curvada sobre o próprio destino. Depois de fazer figuração em um filme (Bacurau) que rodaram perto de onde ela morava (Parelhas), Tânia aparece para o cinema mundial como Dona Sebastiana em O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.

De lá para cá, o que era participação virou presença: listas internacionais já citam o nome dela como possibilidade real de Oscar de atriz coadjuvante. Enquanto isso, no mesmo mundo, a gente discute prompt para parecer mais humano.

A lógica das plataformas nos treinou a pensar em “histórias inspiradoras” como um gênero de conteúdo. Mas a trajetória de pessoas como Tânia Maria não funciona como “case” motivacional nem como prova de superação tardia. Ela não é a “senhorinha que venceu o algoritmo”. Ela é alguém cuja vida nunca foi escrita para caber num roteiro de inovação. Costurou a própria sobrevivência durante décadas. Começou a atuar depois dos 70. Viu-se na tela primeiro como figurante, dizendo uma única frase, para depois assumir um papel que foi escrito pensando no jeito dela falar, reagir, existir.

Há algo nesse percurso que nenhum modelo de IA consegue gerar sob demanda: densidade de vida.

Em entrevista que deu esta semana à Folha de S.Paulo, o repórter — que foi presencialmente ao encontro da atriz no interior do RN — pergunta sobre fama, e Tânia devolve: “Não quero ser famosa. Tenho medo, quero ser apenas eu mesma”.

Esse tipo de recuo desmonta qualquer tentativa de encaixe. No feed saturado de narrativas calculadas, essa sinceridade fora do padrão produz um deslocamento imediato: não é “humildade performada”, não é construção de marca, não é uma estratégia de engajamento. É só uma mulher que viveu o suficiente para desconfiar do barulho e que, embora viva no mesmo mundo que abriga os ultramega-hiper modelos de IA, mantém os pés na parte real deste universo.

O novo ecossistema de IA é pródigo em performance. Pessoas, marcas, instituições e até perfis anônimos aprendem rápido a vestir a linguagem “certa”: o tom empático, a frase de impacto, o posicionamento alinhado ao clima do dia. Com ajuda das máquinas, isso escala. Entre uma coisa e outra, há os que performam.

Mas nada vence o poder da realidade.

Tânia não “construiu uma marca pessoal”. Não estudou storytelling de personagem forte. Não fez laboratório para parecer alguém do interior: ela é do interior. Não precisa de pílula motivacional sobre “nunca é tarde demais”: a idade está na certidão de nascimento, no corpo, no tempo de trabalho, na história contada com sotaque forte nas entrevistas.

E é exatamente isso que fura o bloqueio: em tela, ela não parece estar interpretando um tipo. Parece estar simplesmente existindo ali, diante da câmera, com tudo o que viveu antes de chegar ao set.

Se a IA reorganiza o ecossistema de atenção (decide o que aparece, em que ordem, para quem, com qual ênfase) a pergunta que me interessa hoje não é só o que esses sistemas fazem com o jornalismo. É o que eles fazem com a nossa percepção de autenticidade. Quando tudo pode ser emulado, o que ainda reconhecemos como real?

Parte da resposta está justamente em histórias como a de Tânia Maria: trajetórias que não nascem para serem conteúdo, mas acabam se tornando incontornáveis porque carregam um tipo de verdade que não depende de verniz.

E isso não significa romantizar precariedade, idade avançada ou “talento descoberto tardiamente” como enredo edificante.

Significa admitir que há um descompasso entre o ritmo em que o ecossistema de IA produz narrativas e o tempo em que a vida real se constrói.

A máquina acelera, mas a vida acumula. Para quem trabalha com informação, comunicação, jornalismo, esse contraste é central.

Se nos deixamos capturar apenas pela lógica da performance (o texto que parece certo, o comentário que rende, a opinião calibrada para agradar ao algoritmo), corremos o risco de virar versões sofisticadas de figurantes com voz, aspecto e sotaques copiados — muitos rostos, pouca história própria.

O caso de Tânia Maria gruda na memória justamente porque não foi desenhado para parecer plausível no PowerPoint: uma mulher do interior do Seridó, artesã, costureira, que começa a atuar aos 72 e, perto dos 80, é citada em listas internacionais ao lado de atrizes consagradas.

Não é uma boa narrativa… é uma realidade difícil de enquadrar.

E é aí que mora o ponto: num mundo em que a IA ajuda a produzir versões altamente críveis de quase tudo, o nosso trabalho, como jornalistas, comunicadores e produtores de sentido, talvez seja justamente proteger o que não se deixa reduzir a versão.

A inteligência artificial pode simular voz, imagem, estilo, cadência. Mas ela não tem como retroceder décadas e preencher o espaço entre a mão que costura e a mão que segura um roteiro pela primeira vez. Esse intervalo nenhuma máquina restitui.

É nesse vão que a realidade ainda ganha de lavada.

Tem muita história igual à de Tânia esperando na porta. Ela só não entra sozinha. O jornalismo precisa levantar da cadeira e existir perto das pessoas… porque a realidade ainda não se entrega por download.

NOTA FINAL

  • Os três hífens que estão no texto foram colocados por mim (entendedores entenderão).

👉 Meu nome é Cledivânia Pereira. Sou jornalista de Caicó/RN e escrevo de Lisboa. Neste blog, conto histórias de potiguares espalhados pelo mundo 🌍 — pessoas que, mesmo longe de casa, continuam levando suas raízes no gesto, na fala e na forma de seguir 🌾✈️.
Se você conhece alguém do Rio Grande do Norte vivendo fora do Estado que tenha uma boa história para contar, me escreva: [email protected]. Vou adorar saber — e, quem sabe, contar 💌✨.


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