Professora de Natal atravessa o mundo para ensinar inglês na China
Esta não é uma história de fuga nem de chegada. É uma travessia. Para chegar até onde Flora está, é preciso cruzar o mundo inteiro e ainda sobra distância. Sai-se de Natal rumo a São Paulo: cerca de 4 horas de voo. Depois, um salto intercontinental de mais 15 horas até Doha, no Catar. Em seguida, outro voo para a China continental (Guangzhou, Shenzhen ou Hong Kong) e, de lá, mais uma conexão até Haikou, capital de Hainan, ilha ao sul da China, onde ela vive. Da capital da ilha ainda viaja de trem: mais ou menos 17 mil quilômetros e trinta e duas horas de voo depois, sem contar escalas e atrasos, finalmente chega-se a uma cidade Chengmai com cerca de 800 mil habitantes, sem brasileiros, sem abraços, sem amigos e onde só tem cuscuz se for encomendado pela internet… mas com praia na porta, sol durante parte do ano, bicicletas elétricas por todos os lados e um salário que consegue pagar tudo isso e os sonhos que estavam guardados nas gavetas da professora de inglês de 36 anos.
Flora Caldas Azevedo nasceu em Natal. Cresceu entre Tirol e Lagoa Nova, atravessou cursinhos de inglês e faculdade de publicidade até se descobrir professora, após um intercâmbio para o Havaí, nos EUA. Viveu intensamente Natal: a família, os amigos, as aulas no Senac (onde ensinou por 11 anos), os dias comuns, Ponta Negra, boquinha de carnaval... Quando decidiu partir, não foi porque deixou de amar Natal ou o Brasil. Foi porque, pela primeira vez, viu espaço para experimentar uma vida diferente. E não foi clichê na escolha. A decisão veio aos poucos, num empilhamento de cansaços, falta de perspectiva profissional e conversas com um amigo que já estava na China. Um ano, ela pensou. “Um ano para tentar e fazer uma reserva financeira”. Já se passaram dois e, hoje, confessa: “não tenho planos de voltar”.
Flora dá aulas para crianças de três a cinco anos em uma escola na cidade de Chengmai, a cerca de 40 minutos da capital de uma ilha do sul da China. Ensina inglês com jogos, músicas, planos de aula. “Sou a tia de uma turma de crianças em uma escola bilingue”, resume. Tem rotina, tem estrutura, tem trabalho, tem bom salário. Mas falta o tempo em família. Não viu a primeira sobrinha recém-nascida, Melina. Sente a distância dos pais, que caminham lentamente para a velhice sem que ela esteja perto para testemunhar. Mantém laços por chamadas de vídeo e um vaivém constante de mensagens pedindo fotos, vídeos, atualizações. Ama o Brasil como se ama uma casa: sabendo que às vezes é preciso sair dela para continuar pertencendo.
Flora não trocou um país por outro — está vivendo entre dois. Sabe que é estrangeira na China e continua sendo filha, irmã e professora potiguar, mesmo do outro lado do mundo. Está longe, mas não está perdida. Sua história não é a de quem abandona. É a de quem estica a própria vida até onde ela ainda pode crescer.
Conversei com Flora por mensagens de WhatsApp e por uma vídeo-chamada que deveria durar 15 minutos — e se estendeu por mais de uma hora e meia. Eu queria entender como é viver numa terra tão distante e, para mim (e provavelmente para você também), tão desconhecida. O texto que segue é o rascunho possível dessas conversas: não explica a China, não resume a Flora, e tampouco se propõe a desmontar, de uma vez, o amontoado de certezas apressadas que nos ensinaram a repetir. Se este blog tiver futuro (e espero que tenha), vamos conversar com Flora em outros momentos, não para decifrar a China, mas para seguir acompanhando como uma professora potiguar atravessa um outro mundo e, no processo, muda o seu.
O cansaço como fronteira
Antes da China, havia o esgotamento. Havia contas pagas no limite, dias comprimidos, um corpo que resistia, mas já pedia uma ruptura. “No Brasil, eu recebia meu dinheiro, pagava as minhas contas e ficava ali no meu foco. Então eu estava bem cansada já disso, né, de viver assim. Eu adorava dar aulas, para o Brasil, já ganhava bem na minha área, mas isso não era o bastante… não tinha perspectiva de futuro ou novas evoluções.”
Foi quando um amigo abriu uma janela de possibilidade: a China, um mundo distante que Flora ainda nem conseguia imaginar. “Comecei a cogitar, comecei a falar com o meu amigo que veio pra cá, comecei a sondar…” A decisão não veio como epifania, mas como uma renúncia ao que estava posto. “Só que, quando eu me decidi, foi porque pensei: ‘Tá bom, tô cansada já de viver assim, sempre no limite’.”
Entre a decisão e o embarque, o planeta fechou. O futuro virou um labirinto e a China tornou-se imagem distante com a pandemia. Foram dois anos esperando o movimento do mundo, até que a rotina dos testes foi substituída, pouco a pouco, pela volta da vida. Foi nesse intervalo que o embarque começou a se tornar possibilidade concreta.
O inglês como senha
Com a decisão de ir para a China, o primeiro passo: procurar uma vaga de emprego. “Existe um mercado muito grande aqui de pessoas que vêm de fora para ensinar inglês — e eu nem sabia disso, não conhecia.” A descoberta veio pelo WeChat, aplicativo que atravessa quase todos os aspectos da vida chinesa. Nos grupos, uma infinidade de anúncios e recrutadores dedicados a encontrar estrangeiros para preencher uma lacuna histórica: a dificuldade com o inglês.
“Tem uma quantidade muito pequena de chineses que falam inglês bem, e eles têm dificuldade para articular algumas palavras. Então ainda existe essa ideia de que ‘o estrangeiro ensina inglês melhor’. Não sei se é deslumbramento, mas é muito comum.”
A aplicação para as vagas exigia um mergulho na burocracia: traduções, autenticações, formulários. Um mapa de papéis que se atravessava para chegar ao outro lado. “Comecei a aplicar para várias vagas. Eles pedem mil coisas: tradução de documentos, autenticação em cartório, um monte de papéis. E fui fazendo tudo.”
A mudança só foi possível porque havia uma vaga garantida. “Vim com a vaga garantida, porque é necessário ter emprego para conseguir a documentação.” A permissão de trabalho, válida por um ano, precisa ser renovada anualmente.
“Muita gente tenta vir com visto de turista e fica ilegal, mas não recomendo. A China tem muita gente. Não é um país para vir ‘arriscar’. Só vale a pena se você tiver mão de obra qualificada — algo que eles não têm aqui. Trabalhos comuns, como restaurante, não compensam, porque a concorrência é enorme.”
Sozinha em nove milhões de desconhecidos e uma solidão maior que a cidade
A primeira experiência foi num training center, no centro da China. “Surgiu uma vaga para mim numa cidade chamada Changsha — no centro da China. Nunca tinha ouvido falar, mas tem 9 milhões de habitantes.”
Flora chegou sozinha, atravessou a estranheza da língua, da comida, do jeito de andar pelas ruas. “Você não fala chinês, e muita gente não fala inglês aqui. Isso te impede de conhecer coisas, conversar com as pessoas, criar relações.”
O choque cultural vinha misturado com curiosidade. “Os chineses, por outro lado, são muito simpáticos. Quando veem um estrangeiro, se desmancham em sorrisos, querem tirar fotos. Às vezes até é invasivo: você tá andando e eles fotografam sem pedir. Mas entendo — a China se abriu há pouco tempo, então ainda é muito estranho para eles.”
Um tombo na rua, um braço partido e as muralhas invisíveis
As barreiras iam além dos papéis. Estavam nos detalhes mais simples da vida. “Um simples site de pesquisa não funciona aqui. Eles têm as versões próprias de tudo, e quando você acessa, está tudo em chinês.”
Dependia da escola para quase tudo: encontrar apartamento, intermediar contratos, traduzir situações cotidianas. “Uma vez sofri uma queda na rua e fraturei o braço. Não tinha como me comunicar no hospital. Precisei pedir ajuda da minha chefe para me acompanhar. A gente usa tradutor, mas tem coisas que não dá para resolver só traduzindo. Não é só idioma: é cultura, é contexto. Isso pesa muito.”
Salário maior, aluguel diante do mar e uma bicicleta como mapa
Depois de dez meses, ela entendeu que o frio cobrava um preço. “Percebi que o frio não era para mim. A falta de sol me deixava mal, meu humor mudava muito.” A mudança para Haikou, no sul da China, foi um respiro. “Aqui tem praia, sol, calor — outro esquema.”
Haikou, capital de província insular com cerca de 800 mil habitantes, era outra China: menos monumental, mais humana. “É uma cidade maior, mas tranquila. Não tem metrô, é mais antiga, diferente da modernidade impressionante da China continental. Mas gosto daqui.”
“Hoje ganho três vezes mais do que ganhava como professora no Brasil.” Com o salto no salário, vieram novas possibilidades. “Pago cerca de R$ 2.500, mas para viver em um apartamento de frente para a praia. No Brasil, isso seria impossível.”
No transporte, encontrou liberdade. “Comprei uma bicicleta elétrica por cerca de R$ 3.000, recarrego por R$ 2 por semana e vou para todos os lugares com ela.” A cidade, segura, oferece outra relação com o espaço. “Posso deixá-la estacionada sem medo.”
Crianças que aprendem inglês sem perceber
“Eu ensino para crianças de três, quatro e cinco anos. Nunca tinha trabalhado com essa faixa etária, mas eu amo criança.” O trabalho é menos sobre conteúdo e mais sobre presença. “O foco não é passar conteúdo, mas criar contato. Eles querem que a gente esteja ali com a criança, falando inglês o tempo todo, para que elas se acostumem a ouvir e absorver o idioma.”
Ver o progresso dos pequenos virou um dos maiores encantamentos. “Peguei minha turminha com três anos, no início do jardim de infância. Acompanho o crescimento deles até o final: são três anos no total. Ver o progresso é lindo. Tem aluno que já consegue conversar comigo em inglês, e os pais não falam inglês em casa. Isso me deixa emocionada.”
Namorado em fuso trocado e uma sobrinha só em vídeo
O namorado Flora chegou à China depois de alguns meses, mas a saudade da família chegou antes. A vida no Brasil se manteve como uma presença constante, atravessando oceanos: “Meu namorado é brasileiro, e a gente já estava junto no Brasil. Durante a pandemia, começamos a morar juntos, porque minha mãe me pediu para sair de casa depois que minha irmã ficou doente e testou positivo para Covid.”
No início, a travessia foi solitária. “Eu vim sozinha para a China, pensando em passar um ano apenas, juntar dinheiro e ter uma experiência nova.” Ele chegou depois, de forma improvisada. “Depois, ele veio com visto de turista, que precisa renovar a cada três meses saindo do país e voltando.” A adaptação não foi fácil: fusos diferentes, noites viradas, o trabalho online conectado ao Brasil. “Hoje, ele trabalha online para clientes do Brasil, mas os fusos horários complicam bastante: ele trabalha de madrugada (horário da China).”
A distância do Brasil, porém, nunca deixou de doer. “É a parte mais difícil. Tenho uma sobrinha, a Melina, que nasceu recentemente, e só conheço por vídeos.” O desejo de voltar ao país para acompanhar de perto esse crescimento encontrou o obstáculo das vacinas, da logística e do dinheiro. “Planejava ir ao Brasil quando ela nasceu, mas não deu certo.”
Viajar significa desenhar uma linha que custa tempo e dinheiro. “A viagem é longa e cara e precisa de um planejamento: 8 horas de Haikou para Doha, no Catar; 15 horas de Doha para São Paulo; mais 3 horas de São Paulo para Natal. No total, são 30 horas de viagem e passagens em torno de R$ 10 mil. Com promoções, às vezes se consegue por R$ 7 a 8 mil, mas é raro.”
O Brasil se manifesta em pequenas presenças: no sotaque reconhecido ao acaso em um grupo de WeChat, no reencontro com uma potiguar em terra chinesa, na risada que atravessa oceanos pelo celular. Mas, apesar de toda a distância, a sensação é de permanência. “Estou aqui há quase dois anos e, por enquanto, a ideia de voltar ao Brasil está cada vez mais distante.”
A barreira linguística persiste como uma sombra. “Mesmo depois de um bom tempo aqui, não falo chinês fluentemente. Consigo entender palavras básicas, pedir comida, pegar transporte, mas ainda dependo muito do tradutor.”
O tufão que arrancou árvores e certezas
Entre a rotina do trabalho da escola e o silêncio das ruas seguras, a ilha onde Flora vive foi tomada por um tufão em setembro do ano passado que expôs os limites da adaptação. O fenômeno chegou silencioso antes de ser devastador. “A previsão anunciava vento e chuva fortes, mas ninguém imaginava o tamanho da força” que vinha pelo mar.
A rotina virou preparação. “A escola cancelou as aulas, todo mundo correu para comprar comida e água. Passamos a sexta-feira nos preparando, fechando portas, colocando sacos de areia nas janelas.” O sábado amanheceu em tensão, e logo o vento começou a sacudir a cidade como se fosse feita de papel. “No sábado, começou: o vento mais forte que já vi na vida, chuva intensa, janelas chacoalhando.”
O cotidiano deixou de existir: sem luz, sem água, sem internet. Dentro de casa, as horas se arrastavam entre o medo do vidro quebrar e a espera pelo fim. O som era ensurdecedor, o corpo inteiro em alerta. “O tufão durou horas.”
Quando finalmente cessou, o cenário era de guerra. “A cidade estava destruída: árvores arrancadas, prédios danificados, lojas fechadas.” A tragédia, no entanto, poupou vidas. “Felizmente, ninguém morreu.” Mas o retorno à normalidade foi lento. “Passamos uma semana inteira com apenas duas horas de água por dia, ligadas por geradores.”
China, espelho e fronteira
“Depois que superei a fase mais difícil da adaptação, comecei a gostar da vida aqui. A segurança, a qualidade de vida e a tranquilidade fazem diferença. Por outro lado, a distância da família pesa muito. Não sei se ficarei aqui para sempre, mas hoje não me vejo voltando ao Brasil tão cedo.”
É difícil reduzir em uma frase, mas ela tenta:
“É viver entre o futuro e o passado ao mesmo tempo.”
A China como enigma e reinvenção. A experiência que muda tudo: o idioma, o corpo, a forma de ver o mundo.
O que sobra e o que se reinventa quando se vive longe de casa
Depois de quase duas horas de conversa e dezenas de mensagens pelo whatsApp, pedi a Flora que tentasse resumir em pequenas frases ou lembranças o que significa se uma “natalense vivendo na China”. O resultado não é um balanço definitivo, mas um mosaico de memórias que se sobrepõem: saudades, descobertas, deslocamentos e sonhos realizados. São fragmentos que, juntos, ajudam a compreender o que fica e o que se transforma quando se vive tão longe de casa.
O que fica?
"O meu sotaque eu não abro mão. Aonde eu moro eu falo português com meu companheiro, que é brasileiro, e com outros brasileiros que encontro. Até quando ensino alguma palavra em português para colegas estrangeiros, ensino no sotaque.
A alegria que carrego vai além de ser do Rio Grande do Norte, é também por ser brasileira. Sempre comentam que pareço estar feliz, alegre, dançando, sorrindo. Se tem música, eu danço e acabo contagiando as pessoas."
Imagem favorita de Natal?
"A praia de Ponta Negra. Quando passo ali na Roberto Freire, e vejo o Morro do Careca, olho pro mar, pra água azul. Toda vez repito: ‘meu Deus, que cidade linda’. Tenho essa imagem guardada, e toda vez que lembro me sinto feliz e emocionada."
Que medo chega com a distância de casa?
"Graças a Deus em dois anos eu ainda não perdi ninguém, mas sei que vai ser muito difícil quando acontecer. Só a viagem para voltar pra casa leva mais de dois dias. Rezo todos os dias para que isso não aconteça enquanto eu estiver aqui.
Agora está mais difícil porque acabei de ganhar minha primeira sobrinha. Não pude acompanhar de perto. Ela nasceu e eu fico pedindo vídeos. Não é a mesma coisa. É muito difícil porque você não pode estar ali para segurar a criança. Provavelmente só vou conhecê-la em janeiro ou fevereiro de 2026."
Quando se sente uma estrangeira?
"Eu me percebi estrangeira de verdade toda hora. A China tem uma cultura muito diferente da nossa. A forma de viver, de se comunicar, é outra.
Convivo com chineses e com estrangeiros — russos, europeus, americanos — e percebo diferenças o tempo todo. São pessoas mais fechadas. Eu sou reservada, mas mesmo assim sinto diferença.
Na cidade onde eu moro tem poucos estrangeiros, então quando você encontra um, já cruza um sorriso, troca um oi. Mas no geral, são pessoas muito fechadas, que não compartilham muito da vida pessoal."
O que ser estrangeira na China ensinou?
"Diversidade. O mundo é muito além do que a gente vê na TV ou na nossa cidade. Ter vindo pra China abriu demais a minha cabeça. Eu ensino inglês há um tempo, achava que sabia de outras culturas, mas percebi que não sabia de nada. Aqui ninguém comemora Natal, ninguém come queijo ou chocolate como a gente. Quando mostrei uma foto de um galã de novela brasileira para uma colega chinesa, ela disse: ‘não acho bonito’. Isso mostra como nosso mundo é pequeno e como precisamos abrir a cabeça. A diversidade me ensina todos os dias. Já tinha morado no Havaí, mas vir para a Ásia, para a China, quebrou muitos estereótipos. Muitas histórias que a gente ouvia não correspondem à realidade. Aqui, tudo isso caiu por terra."
Conselho para quem pensa em seguir o mesmo caminho?
"Se você vier pra China hoje, não tem ideia do que vai encontrar. Ninguém que vem do Brasil tem noção do que é a China. A modernidade, a cultura, tudo é absolutamente diferente. Mesmo pessoas muito informadas, que conviviam comigo, não têm noção real do que é a China. O mundo é maior, mais diverso e mais diferente do que a gente imagina."
👉 Meu nome é Cledivânia Pereira. Sou jornalista de Caicó/RN e escrevo de Lisboa. Neste blog, conto histórias de potiguares espalhados pelo mundo 🌍 — pessoas que, mesmo longe de casa, continuam levando suas raízes no gesto, na fala e na forma de seguir 🌾✈️.
Se você conhece alguém do Rio Grande do Norte vivendo fora do Estado que tenha uma boa história para contar, me escreva: [email protected]. Vou adorar saber — e, quem sabe, contar 💌✨.
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