No dicionĆ”rio Houaiss da LĆngua Portuguesa, oclocracia Ć© definida como o āexercĆcio do poder ou do governo pela multidĆ£o, pela plebeā. Etimologicamente, o termo tem origem grega (ochlokratĆa), formado por ochlos (multidĆ£o) e kratos (poder). Segundo o Wisdom Library, kratos significa āforƧaā, āpoderā, ādomĆnioā ou āsoberaniaā e, na mitologia grega, Ć© a personificação da forƧa e do poder, associado Ć autoridade implacĆ”vel. Assim, ochlokratĆa designa o governo exercido pela multidĆ£o.
O conceito Ć© atribuĆdo a PolĆbio, geógrafo e historiador grego do sĆ©culo II a.C. (203 a.C. ā 120 a.C.). Ao estudar a sociedade de seu tempo, sistematizou reflexƵes posteriormente reunidas na obra Histórias (publicada no Brasil em 2016 pela Editora Perspectiva, com tradução, introdução e notas de Breno Battistin Sebastiani).
Entre outros aspectos, PolĆbio analisou o ĆŖxito militar e cultural do ImpĆ©rio Romano, bem como a invasĆ£o da GrĆ©cia por Roma no inĆcio do sĆ©culo II a.C., examinando seus impactos polĆticos e culturais. A partir dessas observaƧƵes, refletiu tambĆ©m sobre as formas de governo e identificou o que chamou de āgoverno da multidĆ£oā: situaƧƵes em que hĆ” aparĆŖncia de apoio popular, mas, na prĆ”tica, o poder atende aos interesses de uma minoria.
Nesse sentido, a democracia ā tal como concebida Ć Ć©poca ā poderia degenerar em oclocracia, entendida como o āgoverno dos pioresā. Essa preocupação jĆ” havia sido antecipada por Aristóteles e PlatĆ£o, que viam riscos quando as decisƵes polĆticas fossem capturadas pela irracionalidade das massas.
Ambos não eram defensores da democracia nos moldes modernos e alertavam para o perigo da demagogia. Platão, por exemplo, recorria à condenação de Sócrates como evidência dos excessos da decisão popular. Esse tipo de fenÓmeno se repetiu em diversos momentos históricos, quando multidões legitimaram a violência contra adversÔrios, participando inclusive de execuções públicas.
No Brasil, ao longo da história ā da ColĆ“nia Ć RepĆŗblica ā, Ć© possĆvel identificar momentos com traƧos de oclocracia. Em um exemplo mais recente, o artigo A oclocracia brasileira, publicado no Congresso em Foco em julho de 2021 por AndrĆ© Sather, Ricardo de JoĆ£o Braga, Sylvio Costa e Rudolfo Lago, utiliza o conceito para analisar o governo Bolsonaro (2019ā2022).
Com base em pesquisas de opiniĆ£o, como a do Datafolha realizada em julho de 2021, os autores apontaram nĆveis elevados de rejeição ao governo. Segundo o levantamento, 51% avaliavam a gestĆ£o como ruim ou pĆ©ssima; 54% defendiam a abertura de impeachment; e 70% percebiam a existĆŖncia de corrupção. A imagem pessoal do presidente tambĆ©m era amplamente negativa.
Ainda que pesquisas representem retratos momentĆ¢neos, houve esforƧos para reverter esse cenĆ”rio Ć s vĆ©speras das eleiƧƵes de 2022, incluindo a ampliação de benefĆcios sociais, como o AuxĆlio Brasil, e a criação de auxĆlios especĆficos para categorias profissionais.
Entretanto, tais medidas nĆ£o foram suficientes para garantir a reeleição. Posteriormente, investigaƧƵes da PolĆcia Federal e da Procuradoria-Geral da RepĆŗblica apontaram a existĆŖncia de articulaƧƵes golpistas, incluindo planos para impedir a posse do presidente eleito, o que culminou nos atos de 8 de janeiro de 2023.
Os autores tambĆ©m destacam o papel das redes sociais e das novas tecnologias na polĆtica contemporĆ¢nea. Segundo essa anĆ”lise, tratava-se de um governo fortemente influenciado pela lógica das redes, capaz de mobilizar apoiadores, mas nĆ£o necessariamente de fortalecer prĆ”ticas democrĆ”ticas.
Outro ponto relevante Ć© o papel simbólico da lideranƧa. Teorias polĆticas e organizacionais indicam que lĆderes com forte rejeição tendem a produzir efeitos negativos que se irradiam pela sociedade, especialmente entre seus seguidores.
Cabe ainda observar que a vitória eleitoral de 2018 nĆ£o representou o apoio da maioria absoluta da população, mas de uma parcela mobilizada politicamente ā base que, em grande medida, permanece ativa. Isso ajuda a explicar a forƧa eleitoral desse campo polĆtico em diferentes nĆveis institucionais.
Em artigo publicado no jornal O Globo em julho de 2022, a jornalista Dorrit Harazim faz uma crĆtica contundente ao ambiente polĆtico da Ć©poca, apontando a degradação do debate pĆŗblico e a presenƧa recorrente de figuras e prĆ”ticas que tensionam os limites institucionais.
Esse cenĆ”rio evidencia um dos grandes desafios da sociedade brasileira contemporĆ¢nea: evitar retrocessos democrĆ”ticos e impedir que prĆ”ticas polĆticas marcadas pela irracionalidade, pela desinformação e pela mobilização acrĆtica das massas se consolidem como forma de governo.
Em outras palavras, trata-se de enfrentar, com maturidade polĆtica e compromisso democrĆ”tico, o risco sempre presente daquilo que PolĆbio definiu como oclocracia ā o governo dos piores.