Diziam que era superstição. Mas ele sabia que não era tão simples assim.
Seu Joaquim acompanhava futebol desde os tempos em que as bolas tinham mais costura do que tecnologia. Já tinha visto time ruim virar campeão e esquadrão milionário perder para uma equipe cujo ônibus chegava ao estádio tossindo mais do que os jogadores.
Por isso, aprendera uma lição importante: nunca comemorar antes do apito final.
Naquela tarde, sentado na calçada, debaixo da sombra preguiçosa de um cajueiro carregado de cajus sumarentos, ele observava o neto exibir orgulhoso a camisa do time.
– Esse ano ninguém segura a gente! – anunciava o menino para quem quisesse ouvir. – Vamos ganhar tudo!
Seu Joaquim sentiu um arrepio. Não pelo campeonato, mas pela frase. Era justamente assim que começava a maioria das tragédias esportivas. A vizinha elogiava o atacante. O padeiro elogiava o goleiro. O motorista do ônibus elogiava a defesa. Pronto.
O time começava a desandar. Lesão aqui. Pênalti perdido ali. Gol contra acolá. Parecia coincidência, mas coincidência demais acaba virando suspeita.
Na cabeça dele, o olho gordo funcionava exatamente como uma torcida adversária invisível. Não entrava em campo, não vestia uniforme, não aparecia nas estatísticas, mas estava sempre rondando os alambrados da vida.
Era como aquele sujeito que, ao ver alguém feliz, próspero ou realizado, não conseguia aplaudir. Em vez disso, ficava calculando o placar da felicidade alheia. E felicidade medida pelos outros quase sempre perde pontos.
Enquanto o neto continuava distribuindo previsões otimistas, Seu Joaquim pegou um dos livros que mantinha empilhados na varanda. Não para ler. Apenas para parecer ocupado enquanto fazia uma oração silenciosa em defesa do time.
Porque fé e superstição, naquela altura da vida, já dividiam o mesmo banco de reservas.
A rua seguia tranquila. Uma carroça passava. Uma bicicleta rangia. O vento espalhava o cheiro do doce daquelas frutas abundantes e sumarentos que a vizinha preparava para vender no fim da tarde.
Tudo parecia em paz. Mas Seu Joaquim continuava atento. Conhecia gente que escondia namoro. Gente que escondia salário. Gente que escondia receita de bolo. E conhecia até escritor que escondia o livro que estava escrevendo.
Não por falta de orgulho. Por medo dos comentaristas de arquibancada que aparecem antes mesmo da estreia. Ele também conhecia pessoas que assistem ao jogo dos outros não para torcer, mas para encontrar defeitos no gramado.
No fundo, ele achava que o problema não era exatamente a inveja. Era a incapacidade de celebrar a vitória alheia. A inveja era apenas o uniforme. O verdadeiro jogador era outro. Chamava-se mesquinhez. Energia ruim…
No final daquela semana, o time do neto perdeu por três a zero. O menino voltou para casa cabisbaixo.
– Viu? Foi o olho gordo! – reclamou.
Seu Joaquim sorriu. Talvez tivesse sido. Talvez não. Mas colocou a mão no ombro do garoto e respondeu:
– Filho, se foi olho gordo, a gente vence no próximo jogo. Se foi falta de treino, também. E completou:
– A diferença é que contra o olho gordo basta uma reza braba. Contra a preguiça, só correndo atrás da bola.
O menino riu. E Seu Joaquim também. No fundo, ele sabia que a vida inteira era um campeonato estranho em que alguns temiam os adversários enquanto outros temiam os árbitros.
Mas a maioria das pessoas passavam os dias tentando se proteger daquela torcida invisível que surge sempre que alguém começa a marcar gols demais na própria felicidade.
E talvez a melhor defesa não fosse esconder os troféus. Talvez fosse continuar jogando. Mesmo quando as arquibancadas estivessem cheias de olhos arregalados.