Arquiteta faz de reforma um diálogo sobre o Centro Histórico de Natal
Quando Wire Lima decidiu registrar a reforma do apartamento que acabara de comprar no Centro Histórico de Natal, imaginou que dividiria apenas o cotidiano de uma obra. Demolições, descobertas, escolhas de revestimentos e os inevitáveis imprevistos de quem assume um imóvel construído há quase seis décadas. O que aconteceu, porém, foi diferente. Pouco a pouco, o apartamento deixou de ser apenas um cenário e passou a funcionar como porta de entrada para uma conversa maior sobre patrimônio, cidade e pertencimento.
A confirmação veio de maneira inesperada. Ao fim da entrevista com a Agência Saiba Mais, quando chegamos na porratria do Edifício 21 de Março, o elevador, que havia funcionado na subida, já estava parado novamente, um motoboy a reconheceu antes mesmo de chegar à calçada.
"Você é a menina da reforma, né? Tô acompanhando", disse.
A receptividade do público indica que esse caminho encontrou eco. O primeiro vídeo da reforma ultrapassou 100 mil visualizações no Instagram, levando discussões sobre arquitetura, patrimônio e Centro Histórico para uma audiência muito maior do que a alcançada pelos espaços acadêmicos.
Essa capacidade de comunicação é justamente o que Wire considera sua principal ferramenta de trabalho. Arquiteta, produtora cultural e mestranda vinculada ao grupo História da Cidade, do Território e do Urbanismo (HCUR), da UFRN, ela pesquisa a relação entre os antigos cinemas de rua e a expansão urbana de Natal. Mas faz questão de reconhecer que seu percurso acadêmico sempre esteve acompanhado de outra preocupação: como compartilhar esse conhecimento para além da universidade.
"Existem pesquisadores muito melhores do que eu. Academicamente, talvez eu não seja a melhor aluna. Mas eu acho que tenho uma facilidade de comunicação. O Diário de Reforma nasce muito dessa vontade de tirar essas discussões da academia e fazer com que mais pessoas entendam por que esses lugares importam", diz.
Nos vídeos publicados nas redes sociais, a reforma raramente aparece isolada. Cada parede demolida abre espaço para falar sobre técnicas construtivas, história da arquitetura moderna, preservação de edifícios e processos de transformação urbana. A obra torna-se um pretexto para contar a história do prédio, da Cidade Alta e das disputas em torno da memória de Natal. Confira:
Essa relação com o Centro Histórico começou muito antes da compra do apartamento. Criada no bairro Satélite, Wire lembra que desde criança associava a região central a uma sensação de liberdade. Enquanto o bairro onde morava parecia distante e pouco convidativo para caminhar, era na Cidade Alta que ela descobria outra experiência de cidade.
"Meu pai trabalhava aqui perto. Quando eu vinha para o Centro, podia andar, entrar nas lojas, tomar um sorvete. Sempre senti uma liberdade muito maior aqui", lembra.
Mais tarde, já estudante de Arquitetura, essa memória afetiva encontrou o campo da pesquisa. Desde os primeiros períodos da graduação, direcionou seus estudos para patrimônio histórico. Vieram as investigações sobre os cinemas de rua, a participação em projetos culturais como a Meladinha, a aproximação com a Frisson (espaço cultural) e outras iniciativas que passaram a ocupar o Centro Histórico com festas, exibições de filmes e debates sobre cidade.
"Essas ocupações foram mudando completamente minha relação com o Centro. Passei a viver esse espaço quase toda semana", pontua.
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O deslocamento constante entre o Satélite e a Cidade Alta acabou despertando outro desejo: morar mais perto da vida que havia construído ali. Foram anos pesquisando apartamentos disponíveis nos edifícios da região. Ela e um amigo acompanhavam anúncios na internet quase diariamente, conhecendo plantas, preços e características de praticamente todos os prédios do entorno.
"Era quase um hobby. A gente sabia quando aparecia um apartamento novo na OLX, quanto custava, quais tinham vista para o rio", diz.
A procura terminou diante do Edifício 21 de Março. Sentada em um banco em frente ao prédio, imaginou como seria a vista dos apartamentos voltados para o Rio Potengi. Resolveu bater à porta. O então síndico mostrou primeiro uma unidade do lado oposto. Ela insistiu que queria conhecer outra. Voltou no dia seguinte. Bastou abrir a janela para tomar a decisão.
"Quando vi a vista, pensei: é isso. É aqui", recorda.
Construção de memórias
A compra, no entanto, trouxe muito mais do que um imóvel antigo. Veio a necessidade de modernizar sistemas, organizar documentação técnica e planejar intervenções que respeitassem a memória arquitetônica do prédio. Em pouco tempo, foi convidada a integrar o conselho do condomínio.
Como arquiteta especializada em patrimônio, assumiu uma tarefa que considera simbólica: digitalizar as plantas originais do edifício, ainda armazenadas em antigos rolos de papel. O material será levado ao laboratório do grupo de pesquisa da UFRN para preservação digital.
"Existe muito pouca informação organizada sobre o prédio. A gente está tentando construir essa memória também", reflete.
A reforma do apartamento segue praticamente o mesmo ritmo dessa descoberta. No início, era realizada apenas por ela e pelo pai, aos sábados, único dia em que ambos conseguiam trabalhar juntos. Limitações técnicas e financeiras fizeram a obra avançar lentamente. Instalações elétricas, hidráulicas e adaptações estruturais exigiram a contratação de uma equipe especializada, mas o processo continua sendo acompanhado de perto pela arquiteta.
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Ela evita tratar o apartamento como um projeto exclusivamente residencial. Desde o início imaginou um espaço híbrido, capaz de receber clientes, reuniões, amigos, atividades ligadas à arquitetura e encontros culturais. Depois de anos transformando cafeterias e bares da Cidade Alta em escritórios improvisados, queria construir um ponto de apoio que refletisse sua própria forma de viver a cidade.
Essa ideia dialoga diretamente com uma discussão mais ampla sobre o futuro do Centro Histórico. Para Wire, o fortalecimento da região depende não apenas da realização de eventos culturais, mas do retorno da moradia. Ela observa que muitos jovens já frequentam a Cidade Alta para festas, shows e projetos independentes, mas poucos a enxergam como um lugar possível para construir uma vida cotidiana.
"O Centro não pode existir só durante a noite. Ele precisa voltar a ser habitado", destaca.
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Essa percepção também aparece no próprio edifício. Nos últimos meses, novos moradores ligados à produção cultural começaram a comprar apartamentos no 21 de Março. DJs, tatuadores, artistas e produtores passaram a dividir corredores com moradores que vivem ali há décadas. Para ela, essa convivência entre diferentes gerações representa uma oportunidade de fortalecer o condomínio e o bairro.
Ao transformar a reforma em narrativa pública, Wire acredita que também ajuda a combater um imaginário consolidado sobre o Centro Histórico de Natal. Em vez de reforçar a ideia de abandono, procura mostrar as possibilidades de permanência, de cuidado e de reinvenção existentes naquele território.
No fim das contas, o Diário de Reforma fala menos sobre pisos, tintas ou mobiliário do que sobre outra forma de construir. Cada vídeo amplia a obra para além das paredes do apartamento e convida o público a enxergar valor em edifícios que permanecem de pé mesmo depois de décadas de negligência. A reforma deixa de ser apenas a transformação de um imóvel e passa a registrar, em tempo real, a tentativa de reconstruir também uma relação entre a cidade e sua própria memória.