Em uma sociedade onde o esporte ainda pode ser um ambiente marcado por barreiras e preconceitos, um grupo de homens trans e pessoas transmasculinas do Rio Grande do Norte decidiu criar o próprio espaço de pertencimento. Foi assim que nasceu o Carcará Futsal Clube, equipe que reúne atualmente cerca de 25 atletas e que tem transformado a prática esportiva em uma ferramenta de inclusão, fortalecimento da autoestima e construção de comunidade.
Mais do que disputar partidas, o Carcará carrega uma missão: garantir que pessoas transmasculinas possam ocupar as quadras sem precisar esconder suas identidades. O projeto surgiu a partir de uma inquietação compartilhada entre William Almeida e o técnico Miguel, que sentiam falta de ambientes esportivos onde pudessem ser reconhecidos e respeitados.
“Queríamos construir um time onde todos pudessem se sentir pertencentes, respeitados e seguros. Mais do que jogar futsal, o Carcará surgiu para ser um espaço de acolhimento, troca de experiências, fortalecimento da autoestima e construção de comunidade”, afirma William, um dos fundadores da equipe, em entrevista à Agência Saiba Mais.
O nome escolhido não é por acaso. O carcará, ave típica do Nordeste, é frequentemente associado à resistência, adaptação e força diante das adversidades. Características que dialogam com a trajetória de muitos dos atletas que encontraram no clube uma oportunidade de viver o esporte de forma plena.

Além do esporte
Para integrantes da equipe, o impacto do projeto ultrapassa os limites da quadra. Em um contexto em que pessoas trans frequentemente enfrentam exclusão em diferentes espaços sociais, a possibilidade de praticar uma atividade física em um ambiente seguro produz reflexos importantes na saúde mental e emocional.
Segundo William, muitos atletas relatam que é a primeira vez que conseguem participar de uma equipe sem precisar justificar constantemente quem são.
“O impacto é muito positivo. Muitos atletas relatam que, pela primeira vez, conseguem praticar esporte em um ambiente onde não precisam explicar ou justificar quem são. Isso fortalece a autoestima, melhora a saúde mental e cria um forte sentimento de pertencimento.”
A convivência semanal também fortalece laços que vão além do esporte. O time funciona como uma rede de apoio, onde experiências são compartilhadas e desafios enfrentados coletivamente.
“Ali compartilhamos experiências, criamos amizades, enfrentamos desafios juntos e mostramos que ninguém precisa passar por esse caminho sozinho”, acrescenta.
A presença de um time formado por homens trans no Rio Grande do Norte tem um significado que vai além dos resultados dentro de quadra. Em um cenário onde a participação de pessoas trans no esporte ainda é cercada por debates e obstáculos, a existência do Carcará representa uma afirmação de direitos.
“Nossa existência, por si só, já é uma forma de representatividade. Mostramos que homens trans e pessoas transmasculinas existem, têm direito ao esporte e podem ocupar qualquer espaço”, destaca William.
O grupo também pretende ampliar sua participação em competições. A equipe se prepara para disputar os primeiros Jogos LGBTI+ do Rio Grande do Norte, iniciativa considerada histórica pelos atletas e por movimentos da diversidade no estado.
O evento esportivo surgiu a partir de reivindicações apresentadas durante a Virada Cultural LGBTI+ e recebeu apoio parlamentar por meio de uma emenda de R$ 120 mil destinada à realização da competição. A expectativa é que os jogos representem um marco para a visibilidade da população LGBTQIA+ no esporte potiguar.
Para o Carcará, a competição simboliza o reconhecimento de uma pauta construída coletivamente. “Nosso objetivo é ocupar todos os espaços possíveis”, resume William.
Enquanto se prepara para os Jogos LGBTI+, o clube já pensa em passos maiores. Entre os planos está a criação de um campeonato reunindo equipes transmasculinas de diferentes estados nordestinos.
A ideia não parece distante. O Carcará já mantém diálogo com iniciativas semelhantes, como o Águias, de Pernambuco, que também desenvolve ações voltadas à população trans.
Atualmente, a equipe conta com o apoio da Rede Inclusivah!, organização que auxilia na realização de atividades de integração, formação cidadã e suporte aos atletas. A parceria permite que o projeto vá além da prática esportiva, promovendo debates sobre direitos, cidadania e participação social.
“Nós queremos continuar crescendo como projeto, ampliar o apoio aos nossos atletas, fortalecer nossa atuação no estado e realizar o sonho de promover um campeonato interestadual com equipes trans do Nordeste”, afirma William.
Em um país onde pessoas trans ainda enfrentam altos índices de violência, exclusão social e dificuldades de acesso a oportunidades, iniciativas como o Carcará mostram como o esporte pode funcionar como instrumento de transformação.
A cada treino, o clube reafirma que a inclusão não acontece apenas por meio de discursos, mas também pela criação de espaços concretos onde as pessoas possam existir com dignidade.
Para ampliar a participação da comunidade transmasculina no esporte, o Carcará Futsal Clube está com as portas abertas para novos integrantes. Homens trans e pessoas transmasculinas interessados em conhecer o projeto, participar dos treinos ou obter mais informações podem entrar em contato diretamente pelas mensagens privadas (DM) do perfil oficial do time no Instagram (@carcarafutsalclube)
SAIBA MAIS:
Exposição usa ruído imagético para pensar corpo e identidade transmasculina
Pesquisa quer identificar barreiras no acesso à saúde para transmasculinidades no RN