Mais de meio século depois, Mário Alves segue vivo nas marcas deixadas pela ditadura
Natal, RN 22 de jul 2026

Mais de meio século depois, Mário Alves segue vivo nas marcas deixadas pela ditadura

22 de julho de 2026
9min
Mais de meio século depois, Mário Alves segue vivo nas marcas deixadas pela ditadura
Separados por mais de meio século, Mário Alves e o neto, Leo Alves. Morto e desaparecido pela ditadura em 1970, o dirigente comunista continua presente na história da família e na luta por memória, verdade, justiça e reparação.

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A primeira herança que Leonardo Vieira recebeu do avô não foi um objeto, uma fotografia ou uma lembrança de infância. Foi uma ausência.

Quando nasceu, em 1978, Mário Alves já havia sido preso, torturado até a morte e desaparecido pela ditadura militar brasileira havia oito anos. Ainda assim, a violência daquele janeiro de 1970 moldaria sua infância, atravessaria a saúde da mãe e da avó, influenciaria suas escolhas políticas e até seu nome.

Hoje conhecido como Leo Alves — sobrenome que adotou em homenagem ao avô —, o músico e defensor dos direitos humanos integra o Coletivo Nacional de Filhos e Netos por Memória, Verdade, Justiça e Reparação. No coletivo, uma compreensão é compartilhada por diferentes famílias atingidas pela repressão: a de que os efeitos da ditadura atravessaram gerações.

Essa violência de Estado produziu efeitos transgeracionais, sintetiza Leo.

É a partir dessa perspectiva que Natal recebe, na próxima sexta-feira (24), às 19h, na Livraria Manimbu, o lançamento de Vida e Obra de Mário Alves: Depoimentos e Textos Econômicos, organizado pelo pesquisador Renato da Silva Della Vechia. O livro reúne, pela primeira vez, escritos econômicos do jornalista e dirigente comunista ao lado de depoimentos de familiares, amigos e companheiros de militância, compondo um retrato simultaneamente intelectual e afetivo de uma das principais lideranças da esquerda brasileira no século XX.

A publicação integra um conjunto de duas obras complementares. Enquanto este volume reúne análises econômicas e testemunhos sobre sua trajetória, um segundo livro — Vida e Obra de Mário Alves: textos políticos, partidários e jornalísticos — apresenta sua produção política e jornalística, recuperando uma obra que permaneceu dispersa durante décadas.

Mais do que um lançamento editorial, a chegada do livro a Natal representa um reencontro com uma história que permanece aberta. Porque, como demonstra a própria família de Mário Alves, o desaparecimento forçado não terminou quando seu corpo deixou de ser encontrado.

Um dos principais intelectuais do PCB

Baiano, nascido em 1923, Mário Alves ingressou ainda adolescente no movimento estudantil e, aos 16 anos, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Formado em Filosofia e Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia, participou da criação do curso na instituição antes de assumir responsabilidades nacionais dentro do partido.

Ao longo das décadas de 1940 e 1950 tornou-se um dos principais dirigentes comunistas do país. Integrante do Comitê Central do PCB, viveu experiências de formação política na União Soviética, China e Cuba, participou dos principais debates estratégicos da esquerda brasileira e consolidou-se como um respeitado formulador político e econômico.

Depois do golpe militar de 1964, passou a defender que o enfrentamento à ditadura exigia novas formas de resistência. Divergências sobre os rumos da organização levaram à ruptura com o PCB e, em 1968, participou da fundação do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), ao lado de Apolônio de Carvalho e Jacob Gorender.

A repressão respondeu rapidamente.

Mario Alves, dirigente do PCB e um dos fundadores do PCBR. Foto: Memorial da Democracia

Em 16 de janeiro de 1970, Mário Alves foi preso por agentes do DOI-Codi do Rio de Janeiro. Levado às dependências do órgão de repressão, foi submetido a sucessivas sessões de tortura. Testemunhas que estavam presas nas celas vizinhas relataram os espancamentos, choques elétricos, afogamentos e outras formas de violência até sua morte.

Seu corpo jamais foi entregue à família.

O Estado brasileiro reconheceria décadas depois sua responsabilidade pelo assassinato e pelo desaparecimento forçado. Ainda assim, passados 56 anos, seus restos mortais nunca foram localizados.

A ditadura continuou dentro de casa

Pergunto a Leo Alves quem foi Mário Alves. A resposta demora a chegar. Não porque lhe faltem informações sobre o avô, mas porque, antes de falar dele, sente necessidade de apresentar as mulheres que mantiveram sua memória viva. Vêm primeiro a avó, Dilma Borges Vieira. Depois a mãe, Ieda Vieira. Só então aparece Mário Alves. É uma escolha que diz muito sobre a natureza daquela história: antes de ser a biografia de um dirigente político, ela é a narrativa de uma ausência que atravessou gerações.

Lucinha Alves, Mário Alves e Dilma Borges

Dilma Borges Vieira era nutricionista. Nunca fumou, não bebia, cultivava hábitos saudáveis e, segundo o neto, tinha uma alegria que transbordava nas fotografias e nas lembranças de quem conviveu com ela. O desaparecimento do marido, porém, mudou radicalmente sua vida. Desenvolveu um enfisema pulmonar severo, perdeu quase toda a capacidade respiratória e morreu precocemente.

Ela ficou totalmente quebrada“, resume Leo.

Ao folhear os álbuns da família, ele enxerga a transformação provocada pela violência de Estado. Nas imagens anteriores à prisão de Mário Alves, vê uma mulher sorridente, de expressão leve. Nas fotografias dos anos seguintes, o rosto parece carregar o peso de uma dor permanente.

A violência de Estado matou o meu avô, mas também destruiu a saúde da minha avó.

A história se repete, de outra forma, na geração seguinte. Ieda Vieira, filha de Mário Alves e fundadora do Grupo Tortura Nunca Mais, dedicou décadas à luta por memória, verdade e justiça enquanto enfrentava sucessivas pneumonias, crises de ansiedade, depressão e problemas respiratórios.

“Nunca me obrigou a seguir esse caminho”, recorda Leo. “Mas fazia questão de mostrar que era importante preservar essa memória.

As primeiras lembranças que guarda da militância da mãe e da avó não são de discursos ou reuniões políticas. São imagens domésticas. Ainda menino, passava pela cozinha do apartamento da família e encontrava as duas confeccionando cartazes para os atos públicos, perguntando pelo paradeiro de Mário Alves.

Para uma criança, aquilo dizia que havia alguma coisa acontecendo.”

Anos mais tarde, já com dez ou onze anos, a leitura de Brasil: Nunca Mais lhe apresentou, pela primeira vez, a dimensão do que havia acontecido com o avô. O impacto definitivo viria pouco depois, ao encontrar um relato minucioso das torturas sofridas por Mário Alves. Leo lembra que chorou compulsivamente.

Foi a mãe quem o acolheu. Sem transformar a dor em obrigação, ela o consolou e, com delicadeza, explicou que preservar aquela memória era também uma forma de impedir que a violência produzisse um segundo desaparecimento: o do esquecimento.

“Meu avô salvou minha existência”

Durante muito tempo, Leo acreditou carregar uma dívida com o avô.

Nas sessões de tortura, Mário Alves foi pressionado a revelar o paradeiro da filha. Não o fez.

Por muitos anos eu dizia que devia minha vida ao meu avô.”

Leo Alves — sobrenome que adotou em homenagem ao avô —, o músico e defensor dos direitos humanos integra o Coletivo Nacional de Filhos e Netos por Memória, Verdade, Justiça e Reparação

Hoje, depois de anos de análise, prefere outra compreensão. Não se trata de viver permanentemente em dívida com quem resistiu. Trata-se de reconhecer que as escolhas feitas sob tortura permitiram que gerações seguintes existissem.

A violência, porém, também deixou outras marcas. Leo associa o sofrimento vivido pela mãe, pela avó e até pela morte precoce do irmão aos efeitos prolongados da repressão.

“São efeitos transgeracionais. Não terminam quando acaba a ditadura.”

Reparar não é apenas indenizar

Ao longo da conversa, Leo insiste que a luta das famílias nunca foi apenas pelo reconhecimento individual.

Embora Mário Alves tenha sido oficialmente reconhecido pelo Estado brasileiro como morto político, tenha recebido anistia post mortem e sua certidão de óbito tenha sido retificada, ele afirma que nenhuma dessas medidas encerra a questão.

A nossa luta não é uma luta familiar.

Para ele, memória, verdade, justiça e reparação dizem respeito à sociedade brasileira.

Por isso defende a retomada das Clínicas do Testemunho — projeto criado durante os governos federais anteriores para oferecer atendimento psicossocial a vítimas da ditadura e seus familiares.

Segundo Leo, o Brasil implementou suas políticas de reparação de forma fragmentada: primeiro a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos, depois a Comissão de Anistia, muitos anos mais tarde a Comissão Nacional da Verdade e, por um período limitado, as Clínicas do Testemunho.

Ele compara esse processo ao da Argentina, onde políticas públicas de memória e reparação foram implementadas de maneira mais articulada desde o fim da ditadura.

Não basta reconhecer oficialmente. É preciso ajudar as pessoas a reconstruírem suas próprias histórias.

Um desaparecimento que não terminou

O lançamento do livro acontece justamente quando o Instituto de Estudos Políticos Mário Alves, sediado em Pelotas (RS), completa 25 anos de atuação preservando documentos, pesquisas e a produção intelectual do dirigente comunista.

Mais do que reunir textos inéditos ou dispersos, a obra devolve circulação ao pensamento de um dos principais intelectuais marxistas brasileiros silenciados pela repressão.

Mas talvez seu significado mais profundo esteja em outro lugar. Ao acrescentar “Alves” ao próprio nome, Leonardo não pretendia apenas homenagear o avô que nunca conheceu. Era uma forma de impedir que o projeto iniciado pela ditadura fosse concluído. Porque o desaparecimento forçado não busca apenas eliminar um corpo. Busca apagar uma memória.

Cinco décadas depois, livros, testemunhos e a persistência das famílias seguem contrariando esse projeto.

A luta por memória, verdade, justiça e reparação“, diz Leo Alves, “é uma luta para que toda a sociedade enfrente esse passado. Só assim a gente consegue seguir em frente.

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