Macambira: o legado de João Antônio contra o esquecimento
Natal, RN 22 de jul 2026

Macambira: o legado de João Antônio contra o esquecimento

22 de julho de 2026
6min
Macambira: o legado de João Antônio contra o esquecimento

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar


Ele era alto, magro, esguio e muito tímido. Assim, definem os amigos que conheceram o artista João Antônio, que saiu de Currais Novos, nos anos 1980, ainda rapazote, para estudar em Natal, primeiro, cursando Edificações na Escola Técnica (atual IFRN) e, depois, Educação Artística no atual Departamento de Artes da UFRN. Sua aparência lembrava muito o personagem de Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha. Mas, “Joãozinho”, como assim o chamam os amigos, não era só parecido com o fidalgo cavaleiro de Miguel Cervantes, escrito em 1605. Primeiro, ele tinha como sua amada “Dulcineia”, a Arte, e fez dela a razão de sua existência. Fosse nos quadros que pintava, na construção do seu Espaço Avoante de Cultura, ensinando arte aos seus alunos no Caic ou saindo do seu reflexivo silêncio do dia a dia para causar ebulição nas ideias performáticas que apresentava ao público. Nem mesmo uma doença óssea crônica que forçou uma aposentadoria precoce e seu retorno à sua cidade natal foi o suficiente para deixá-lo quieto. Muito pelo contrário, quem o conheceu, depõe que ele estava sempre criando algo. Falecido em 2022, em decorrência de uma virose e de complicações pela própria condição de saúde, se vivo estivesse, teria 63 anos.

Joao Antônio respirava arte e, agora, por decisão de um grupo de amigos como Lenilton Teixeira, Rachel Lúcio e Pedro Queiroga, dentre vários outros artistas, recebe a homenagem por meio da exposição Macambira – O Legado de João Antônio, cuja abertura será no próximo sábado, 25 de julho, a partir das 9h, na Pinacoteca do Estado. Na ocasião, será exibido um mini-documentário, editado pelo artista Luís Gadelha, no qual diversos alunos, amigos, e artistas que o tiveram como mentor e inspiração falarão sobre a relação que tinham com esse inesquecível artista potiguar.

A mostra contará com 20 quadros expostos – das dezenas de trabalhos deixados por ele – todos à venda, por meio de reprodução técnica, com poucos exemplares de cada uma, prática utilizada pelos artistas, com o intuito de manter a autenticidade da obra, mas também de torná-la acessível aos interessados. A venda servirá para custear a montagem da exposição, que pretende ser itinerante e aportar, futuramente, em Currais Novos, sua terra natal.

Um dos locais de maior agregação e expressão de arte em Currais Novos foi realizado por ele, que desenhou a própria planta e, com ajuda de pedreiros, ergueu o Espaço Avoante de Cultura, custeado pelo próprio dinheiro também. Isso por si só revela o quanto a arte pavimentou sua existência. O amigo Lenilton Teixeira, que tem muitas lembranças dele, brinca que ele deve estar muito chateado, para não dizer um palavrão, já que ele estava sempre insistindo para que os amigos moradores de Natal, fossem fazer projetos com ele em Currais Novos. “E agora, depois que ele morreu, a gente tá trazendo a Exposição”, justificando: “Ele morreu em plena pandemia. Não dava para fazer muita coisa naquela época. Mas não temos como esquecer o legado dele. Joãozinho estava sempre muito inquieto, pensado em coisas. Apesar de ser muito tímido, ele estava sempre com grandes ideias na cabeça”. Em outra memória, Teixeira lembra que quando ele morava em Natal, num apartamento pequeno e quarto ainda minúsculo, chegou lá certa vez e João Antônio havia enchido o quarto de cordões de rede, esticados de um canto a outro das paredes, formando um verdadeiro labirinto de passagem para se chegar à sua pequena cama e à sua enorme prancheta de desenhos. “Se o quarto já era pequeno, com aqueles cordões ficava ainda mais difícil transitar. E eu perguntei a ele o motivo daquele feito. E ele me explicou: ‘daqui a uma semana, quando eu retirar os cordões, o quarto vai parecer muito maior”.

João Antonio inventava modos de viver. A macambira, planta resistente comum no sítio do artista, acabou escolhida como síntese de sua presença. “Macambira é uma planta resistente. Tinha muito no sítio dele. Ele sempre gostava dessa planta. E decidimos que deveria ser esse o nome, porque remete a ele em diversos aspectos”, explica Teixeira. Antes que a palavra performance se tornasse corrente, João já inventava modos de intervenção, como o “Pei-Puf-Etc-e-coisa-e-tal”. Também criou o Prêmio de Incentivo à Criação Artística (“PICAS”), um prêmio que segundo ele era “sério”, porém o símbolo da premiação era um enorme falo realista, feito de cerâmica, uma outra arte que ele também dominava. Só receberam o prêmio, nomes renomados da cultura, à época. Porém, não se sabe se eles os exibiram na estante.

Quadrinista, integrante do Grupo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos (GRUPEHQ), colaborador e capa da revista Maturi, ele também fazia enormes bonecos para o carnaval. Certa vez, fez um Lula gigante, na primeira campanha para a presidência do Brasil, no final da década de 80 dos anos 2000. Reza a lenda que, dona Marisa, a primeira esposa de Lula, ao ver aquele bonecão disse: “mas Lula não é feio assim não”.

Joãozinho era um artista com A maiúsculo, como lembram os amigos. “Acho que João é de um tempo que não é mais o de hoje. A arte dele é vanguarda. Mas a gente falava algumas coisas. Ele criou um legado em Currais Novos que é uma coisa de outro mundo. O Avoante se mantém inspirando diversos artistas na cidade”, reconhece Teixeira. A homenagem chega como gesto de memória e consideração afetiva.

Serviço
Macambira – O Legado de João Antônio
Local: Pinacoteca do Estado, no Centro de Natal
Abertura: 9h, sábado, 25 de julho
Período: aberto ao público até 23 de agosto

Todas as obras estarão à venda

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.