Operação mira suspeito de campanha de ódio contra Maria da Penha em Natal
Natal, RN 4 de jun 2026

Operação mira suspeito de campanha de ódio contra Maria da Penha em Natal

16 de julho de 2025
5min
Operação mira suspeito de campanha de ódio contra Maria da Penha em Natal
Ativista Maria da Penha | Foto: José Cruz/Agência Brasil

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Um suspeito de participar de uma campanha de ódio nas redes sociais contra a ativista Maria da Penha foi alvo de um mandado de busca e apreensão pessoal e domiciliar em Natal, nesta terça-feira (15). 

Esta foi a segunda fase da operação Echo Chamber, deflagrada pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) com apoio do MP do Rio Grande do Norte. A operação teve como objetivo aprofundar as investigações sobre uma campanha sistemática de desinformação e ataques misóginos contra Maria da Penha Maia Fernandes, que dá nome à Lei nº 11.340/2006, um marco na luta contra a violência doméstica. Durante a ação em Natal foram apreendidos aparelhos eletrônicos e documentos, que serão encaminhados para análise pelo Ministério Público do Ceará para dar continuidade à apuração dos fatos.

A investigação foi motivada pela disseminação de conteúdo calunioso que buscava desacreditar a história de Maria da Penha, questionar uma decisão judicial já transitada em julgado sobre sua tentativa de homicídio e, consequentemente, enfraquecer a legislação de proteção à mulher no país. As apurações indicam que os envolvidos poderiam estar buscando também vantagens financeiras com a repercussão das narrativas falsas.

Documentário da Brasil Paralelo

Segundo o MP, dentre os fatos apurados, destaca-se a produção e divulgação de um documentário com acusações infundadas de fraude processual, bem como uso de documento falso para subsidiar os argumentos. O documentário “A investigação Paralela: o caso de Maria da Penha” foi produzido pela empresa Brasil Paralelo, produtora alinhada à extrema-direita, e deverá ter todos os episódios suspensos pelo prazo de 90 dias.

Materiais apreendidos | Foto: MPRN

O conteúdo, disseminado pela Brasil Paralelo e perfis em redes sociais, busca gerar dúvida sobre a veracidade dos fatos e sobre a legitimidade do julgamento ocorrido, apesar de ampla comprovação judicial e pericial em sentido contrário. Foi identificada ainda a prática de perseguição virtual (cyberstalking), caracterizada por condutas coordenadas com o intuito de macular a imagem de Maria da Penha, além do crime de falsificação de documento público.

A primeira fase da operação foi deflagrada em 14 de dezembro de 2024. O Poder Judiciário determinou a suspensão do perfil de um suspeito no Instagram pelo período de 90 dias; a proibição dele se aproximar ou manter contato, pessoalmente ou através de pessoa interposta, com Maria da Penha e suas filhas, bem como de se aproximar das residências delas; como também o impedimento de se ausentar da comarca onde reside, por mais de sete dias, sem autorização judicial, assim como do país.

Ataques começaram em 2024

No primeiro semestre de 2024, Maria da Penha passou a sofrer uma série de ataques de membros de comunidades digitais que disseminam o ódio às mulheres, o que levou à apuração do Núcleo de Investigação Criminal (NUINC), do MPCE. O Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência (NUAVV) ainda encaminhou Maria da Penha ao Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos.

Segundo as investigações realizadas pelo Ministério Público, a campanha atinge diretamente a honra de Maria da Penha, atribuindo-lhe conteúdo ofensivo e de natureza caluniosa, consistindo em possíveis delitos de intimidação sistemática virtual (“cyberbullying”), perseguição (“stalking”/”cyberstalking”), ameaça, dentre outros.

Em breve análise às mídias sociais onde as mensagens foram publicadas, identificou-se um perfil, com elevado número de adeptos, que vem produzindo conteúdos de natureza misógina (ódio, desprezo ou preconceito contra mulheres ou meninas), deturpando informações, bem como atacando a farmacêutica Maria da Penha, sua história e a própria Lei 11.340/2006.

De acordo com a apuração do MP, os riscos potenciais não se limitaram às redes sociais. O principal investigado chegou a se deslocar até a antiga residência de Maria da Penha, no bairro Papicu, em Fortaleza, local em que a tentativa de homicídio contra ela ocorreu em 1983.

Nome da operação

O nome “Echo Chamber” (Câmara de Eco) se refere a um termo usado para descrever um ambiente em que as pessoas são expostas a informações ou ideias que reforçam suas próprias crenças, sem entrarem em contato com opiniões divergentes. No contexto deste caso, o discurso do investigado contribuiu para a propagação de uma distorção dos fatos dentro de um grupo de seguidores, criando um ciclo fechado de informações.

Esse ciclo se caracteriza por um constante reforço das mesmas ideias, sem espaço para questionamentos ou visões alternativas, o que distorce a percepção da realidade e dificulta o confronto com informações contrárias. Assim, ao propagar um discurso unilateral, o investigado alimentou uma câmara de eco, onde os adeptos da ideia apenas confirmavam entre si as crenças já estabelecidas, sem considerar outras perspectivas.

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